O Petróleo do Beato

Perry Mason (1957-1966) – Barry Atwater, Joyce Van Patten

Estes senhores – Sócrates o socialista, Passos o liberal, Portas o centrista – representam o espectro político português inteiro a banquetear-se no petrodólar

Ah, a queda de Nicolás Maduro! Que belo espetáculo de fogos de artifício político. De repente, os mesmos que outrora dançavam ao som dos petrodólares venezuelanos transformaram-se em paladinos da decapitação chavista, aplaudindo-a efusivamente. É como ver um bando de alcoólicos a celebrar a Lei Seca. Hipocrisia? Apenas o desporto nacional português.

Vamos, então, ao arquivo da memória coletiva, essa gaveta poeirenta da qual tantos perderam o cadeado.

Começamos pelo ilustre José Sócrates, o nosso ex-primeiro-ministro que, entre 2005 e 2011, cultivou uma amizade tão calorosa com Hugo Chávez que mais parecia um bromance tropical. Em 2010, Sócrates voou para Caracas e assinou 19 acordos de cooperação – sim, leu bem, 19! – para reforçar laços comerciais. Chávez chamava-lhe “amigo”, e Portugal era o parceiro europeu preferido da Venezuela. Conferências de imprensa conjuntas, apertos de mão vigorosos, promessas de energia e comércio. Cavaco Silva até justificou tudo em nome da diplomacia económica. Recebeu-o em Belém, num encontro oficial e em 2013 recusou-se a comentar a vitória apertada de Maduro, até aos resultados definitivos serem confirmados, alinhando-se com a posição cautelosa da União Europeia. Maduro? Bom, Sócrates saiu antes da sucessão, mas o legado petroleiro ficou.

Pedro Passos Coelho, o austero salvador da troika, que governou de 2011 a 2015, em 2013, recebeu o sucessor de Chávez em Lisboa com pompa e circunstância, assinando acordos de cooperação que fizeram da Venezuela o principal destino das exportações portuguesas na América Latina. “Construir bases para relações mais fortes”, disse sorridente. Maduro, o ditador agora caído, era então um convidado de honra. E a comunidade portuguesa na Venezuela? Servia de alibi perfeito para esses enlaços diplomáticos.

E que dizer de Paulo Portas, o eterno ministro dos Negócios Estrangeiros (2011-2015) e mestre das viagens? Este promoveu ativamente as relações com o chavismo. Em 2008, Chávez visitou Lisboa três vezes – três! – inaugurando uma agenda económica que levou Portas a Caracas em 2009 e 2010 para impulsionar trocas comerciais. Empresas portuguesas floresciam na Venezuela, graças a esses esforços. Em 2013, Portas representou Portugal no funeral de Chávez, um gesto diplomático que mais pareceu um velório de conveniência. Maduro herdou o trono, e os contactos continuaram. Portas, o conservador, pendurado no socialismo bolivariano? É como um vegan a promover churrascarias – hilariante, se não fosse trágico.

Estes senhores – Sócrates o socialista, Passos o liberal, Portas o centrista – representam o espectro político português inteiro a banquetear-se no petrodólar. Enquanto a Venezuela afundava em corrupção, repressão e fome, eles jantavam, trocavam sorrisos e justificavam tudo com “interesses nacionais”. A diáspora portuguesa sofria, mas os negócios rolavam. Agora, com Maduro na enxovia, os mesmos elogiam a detenção como se nunca tivessem lambido as botas chavistas. É o cúmulo: viram casacas e trocam tintas mais depressa que um camaleão num arco-íris.

Mas talvez seja amnésia seletiva. Ou oportunismo crónico. Denuncio-os por higiene democrática. Lembrem-se: são todos carpideiras de lágrimas de crocodilo. E não há maneira de caírem de maduros!

Joana Amaral Dias

Fonte: SAPO, 7 de janeiro de 2026

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