Vandalismo, boicotes e ameaças antissemitas obrigam ao encerramento de restaurante israelita em Lisboa
Este
sábado, dia 10 de janeiro marca o ponto final do Tantura, no Bairro Alto, em
Lisboa. Proprietários justificam encerramento com o “alarmante aumento do
antissemitismo no mundo”, que gerou atos de vandalismo, difamação, “campanhas
hostis e um boicote total” ao restaurante
“Quando uma porta se fecha, uma janela abre-se. Esta é a
frase que nos acompanha desde o momento em que percebemos que teríamos de dizer
adeus à Tantura”. É desta forma que começa o comunicado dos proprietários do
restaurante de cozinha do Mediterrâneo,
com destaque para a cozinha israelita, localizado no Bairro Alto, em Lisboa,
que anuncia o encerramento definitivo do espaço este sábado, dia 10 de janeiro.
Fundado em 2017 pelo casal israelita Elad Bodenstein e Itamar Eliyahuo, o restaurante
Tantura transformou-se recentemente “numa arena de luta diária”. Tudo terá
começado em junho de 2024, quando as paredes do Tantura foram grafitadas com as
frases “Tantura é um massacre” e “Free Palestine”.
No comunicado que justifica o encerramento, os responsáveis
pelo restaurante recordam este acontecimento, que contextualizam como uma ação
de antissemitismo: “Nos últimos três anos, com a guerra e o alarmante aumento do antissemitismo no mundo,
fomos confrontados com uma realidade dura e dolorosa: graffiti nas paredes do
restaurante, difamação online, campanhas hostis e um boicote total. O lugar que
deveria ser um espaço de ligação e alegria transformou-se numa arena de luta
diária. A decisão de encerrar a Tantura está entre as mais difíceis que alguma
vez tivemos de tomar”. E, concluem: “Encerrar a Tantura não é apenas emocional,
é também um choque económico”.
Recorde-se que o casal
israelita Elad Bodenstein e Itamar Eliyahuo apaixonou-se por Lisboa durante a
lua de mel e voltou à capital
portuguesa para viver e abrir um restaurante para dar a conhecer, não só a
cozinha de Israel, mas também de todo o Médio Oriente: “Esse nosso amor está
entrelaçado noutra paixão antiga que carregamos nos nossos corações - o amor
pela cozinha. Um amor que começou há algum tempo nas pequenas cozinhas das
nossas avós - aqueles portos seguros da nossa infância, sempre cheios de
lembranças de outras margens, lembranças do Iraque, Tunísia, Roménia, Polónia”,
descreve-se na página do restaurante Tantura (Rua do Trombeta, 1D, Lisboa. Tel.
218096035), apenas aberto para jantares. Esta mensagem de abertura e partilha é
também reforçada no comunicado que anuncia o fim do projeto: “Tantura nasceu há
10 anos e, com o tempo, tornou-se uma casa. Uma enorme sala de estar com uma
mesa aberta, que acolheu inúmeras pessoas, histórias, gargalhadas, abraços e
tantos momentos que tocaram o coração”.
“A luz estará sempre acesa”
Sobre o futuro, Elad Bodenstein e Itamar Eliyahuo anunciam
uma janela de esperança e solicitam o apoio de
todos os clientes e amigos para
uma nova aventura: a Quinta da Margoa, um “santuário” dedicado ao bem-estar, à
natureza, à criatividade e à renovação e onde a cozinha também terá lugar de
destaque. “Para construir o nosso novo lar, precisamos de ajuda. De uma
oportunidade para recomeçar em paz, sem stress nem pressa, para não termos de
abdicar dos nossos valores. Convidamos-vos a fazer parte da construção deste
novo lar. Um lugar de paz e tranquilidade, ligação e esperança”, escrevem,
anunciando uma campanha de angariação de donativos, através da plataforma
GoFundMe. E, concluem: “Estão convidados a fazer parte desta nova viagem.
Porque a luz estará sempre acesa, mesmo nos dias em que a escuridão se alonga”.
Uma história de amor a dois tempos
Em 2017, ano de abertura do Tantura, podia ler-se no Boa
Cama Boa Mesa, no âmbito de uma reportagem sobre restaurantes com cozinha
do Médio Oriente: “Este restaurante conta uma história de amor a dois tempos. A
do casal Elad Bodenstein e Itamar Eliyahuo, israelitas que vieram a Lisboa
passar a lua-de-mel e que, inevitavelmente caíram de queixo pela cidade. Tanto
e de forma tão arrebatadora que não tardou muito em decidirem que era cá que
queriam ficar. O amor tem esta capacidade de nos atirar para o desconhecido sem
rede de segurança, de nos fazer arriscar e acreditar que vai correr tudo bem. E
geralmente, o amor costuma vencer. Foi o caso no caso do restaurante Tantura,
que trouxe para o Bairro Alto um cheirinho a casa e, sobretudo, da vila (com o
mesmo nome) onde viviam. Importa, antes de mais, esclarecer que Israel não tem
gastronomia tradicional e que, por isso, aqueles que são apontados como pratos
típicos do país resultam, na verdade, de uma amálgama de sabores importados das
nações vizinhas. A carta do Tantura é fiel a essa mistura e talvez por isso
tenha preferido adotar a designação “de influência mediterrânica”, mais segura
e que não defrauda. No entanto, o que chega à mesa traz mais das cozinhas do
Médio Oriente e magrebina do que de qualquer outra. Para começar, não há como
fugir dos clássicos shakshuka, que são, no fundo, um nome complicado atribuído
a uma dupla de ovos estrelados com molho de tomate, ervas e pão de cerveja, que
pode incluir carne ou vegetais. De seguida, há que passar pelo falafel com
molho de pasta de sésamo e pelo pastel de cebola e grão-de-bico - obrigatórios.
E o húmus, que não é um húmus qualquer porque pode ser servido a solo ou
acompanhado de beringela e ovo escalfado ou almôndegas. Antes de encerrar, já
depois de se ter aventurado numa pita recheada com a tal shakshuka ou com
frango panado, o bolo de sêmola e água de rosas é imperdível”.
Fonte: Expresso, 10 de janeiro de 2026
Estes anjinhos nunca são capazes de referir as razões atuais desse tal dito antissemitismo.
O massacre de Tantura refere-se a um episódio ocorrido em maio de 1948, durante a guerra que acompanhou a criação do Estado de Israel, na aldeia palestiniana costeira de Tantura, situada a sul de Haifa.
Tantura foi conquistada em 22–23 de maio de 1948 por unidades da Brigada Alexandroni das forças judaicas (Haganah, que viriam a integrar o exército israelita). Após a rendição da aldeia, centenas de habitantes palestinianos foram expulsos. A questão central é se, para além da expulsão, ocorreu um massacre de civis desarmados.
As alegações de massacre
Segundo testemunhos palestinianos, bem como relatos recolhidos décadas depois junto de veteranos israelitas, dezenas — e possivelmente mais de uma centena — de homens palestinianos teriam sido executados sumariamente após a rendição. Os corpos teriam sido enterrados em valas comuns, uma das quais estaria localizada onde hoje existe um parque de estacionamento numa praia israelita (Doron Beach).
O caso ganhou notoriedade pública no final dos anos 1990, quando Theodore Katz, estudante da Universidade de Haifa, apresentou uma tese baseada em história oral que concluía ter havido um massacre.
Após pressão legal por parte de veteranos da Brigada Alexandroni, Katz foi forçado a retratar-se parcialmente, e a universidade anulou a tese — um episódio que gerou intenso debate sobre liberdade académica.
Desde então historiadores israelitas críticos, como Ilan Pappé, defendem que o massacre ocorreu e que Tantura é apenas um entre vários casos semelhantes em 1948.
A narrativa oficial israelita durante décadas negou qualquer massacre, falando apenas de combates e expulsão.
Investigações recentes, incluindo o documentário Tantura (2022), trouxeram novos testemunhos gravados de soldados israelitas que admitem execuções, reforçando a plausibilidade do massacre.
A negação e a revisão histórica em Israel, particularmente no que diz respeito aos acontecimentos de 1948 e à Nakba palestiniana, constituem um processo profundo e estruturante, que ultrapassa largamente o domínio da historiografia académica. Trata-se de um fenómeno político, institucional e cultural, intrinsecamente ligado à própria fundação do Estado israelita, à necessidade de legitimação moral da soberania e à gestão da memória coletiva num contexto de conflito prolongado.
O Estado de Israel nasce em 1948 sob a pressão de três fatores centrais: o trauma absoluto do Holocausto, a perceção de uma guerra existencial contra os Estados árabes vizinhos e a urgência de reconhecimento internacional. Neste quadro, impôs-se uma narrativa fundadora que apresentava a criação do Estado como moralmente irrepreensível. Essa narrativa assentava na ideia de que a Palestina era, na prática, uma “terra sem povo”, que a população árabe teria abandonado voluntariamente as suas casas a pedido dos líderes árabes e que a guerra de 1948 fora exclusivamente defensiva. Reconhecer expulsões deliberadas, massacres ou políticas de limpeza étnica teria colocado em causa não apenas a legitimidade moral do novo Estado, mas também o consenso interno necessário à sua sobrevivência num ambiente hostil. A negação inicial da Nakba não foi, assim, um erro factual isolado, mas um elemento estrutural da construção estatal.
Este processo de negação consolidou-se durante décadas através de mecanismos institucionais concretos. O acesso aos arquivos militares e governamentais relativos a 1948 foi severamente restringido, com muitos documentos classificados por longos períodos ou reclassificados após breves aberturas. No sistema educativo, a história palestiniana foi sistematicamente omitida ou reduzida a um pano de fundo marginal, enquanto o próprio termo “Nakba” esteve ausente dos currículos oficiais e, em certos momentos, explicitamente proibido. Paralelamente, operou-se uma manipulação linguística que suavizou ou neutralizou a violência: expulsões passaram a ser descritas como abandonos, massacres como incidentes isolados e destruição sistemática como necessidade militar. A linguagem funcionou como uma verdadeira tecnologia de despolitização e anestesia moral.
A partir da década de 1980, este edifício narrativo começou a ser parcialmente abalado com o surgimento dos chamados “Novos Historiadores” israelitas, beneficiando da abertura limitada de arquivos estatais. Investigadores como Benny Morris, Ilan Pappé, Avi Shlaim ou Tom Segev demonstraram, com base em documentação israelita, que a saída da população palestiniana foi em grande medida forçada, que centenas de aldeias foram deliberadamente destruídas e que ocorreram massacres documentados em diversos locais. A reação institucional a estas investigações foi ambivalente. Por um lado, certos factos tornaram-se difíceis de negar; por outro, rejeitou-se sistematicamente qualquer conclusão ética ou jurídica. A violência foi reinterpretada como inevitável, produto das circunstâncias históricas, e não como uma escolha política. Instalou-se, assim, uma fase de revisão factual sem verdadeira revisão moral.
A partir dos anos 2000, observa-se um movimento de contra-revisão, marcado por um endurecimento nacionalista. Documentos anteriormente acessíveis voltaram a ser classificados, leis da memória passaram a penalizar instituições que reconhecessem a Nakba e o discurso público normalizou a ideia de que “todas as guerras são sujas” ou de que “sem essas ações Israel não teria sobrevivido”. A negação deixou de assumir a forma de ocultação e passou a manifestar-se como naturalização da violência fundadora.
No cerne deste processo encontra-se um conflito irresolvido entre história e identidade. O reconhecimento pleno da Nakba implicaria admitir que o Estado de Israel nasceu também de um crime político e humano, o que levantaria questões existenciais profundas: como conciliar democracia liberal com um ato fundador violento, como reconhecer o sofrimento palestiniano sem reabrir a questão do direito de retorno e como manter uma identidade coletiva moldada pela condição de vítima após o Holocausto, reconhecendo simultaneamente a posição de perpetrador. A solução dominante tem sido aceitar fragmentos da verdade histórica, recusando as suas consequências morais e jurídicas.
O caso de Tantura ilustra de forma exemplar este mecanismo. Durante décadas, os testemunhos palestinianos foram ignorados, investigações académicas foram reprimidas e apenas muito recentemente surgiram confissões de antigos soldados israelitas. Ainda assim, não houve reconhecimento oficial, nem responsabilização, permanecendo a vala comum literalmente soterrada sob um parque de estacionamento. Não se trata de esquecimento passivo, mas de uma gestão ativa e política da memória.
Em suma, o processo israelita de negação e revisão histórica não é singular na história dos Estados modernos, mas assume uma intensidade particular devido ao peso moral do Holocausto. Hoje, Israel já não nega completamente os factos; nega as suas implicações. Tolera a história desde que esta não produza direitos, responsabilidades ou reparações. Enquanto a memória palestiniana continuar a ser percecionada como uma ameaça existencial e não como uma condição necessária de reconciliação, a revisão histórica permanecerá incompleta, defensiva e instrumentalizada pelo poder político.


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