Adolescentes executados na Coreia do Norte por assistirem “Squid Game”, denuncia Amnistia Internacional

Whitstable Pearl (2021) - Okezie Morro

O mais recente relatório da Amnistia Internacional, baseado em 25 entrevistas com pessoas que fugiram do país, expõe um sistema de repressão que recorre a execuções públicas, trabalhos forçados e humilhações públicas, com crianças obrigadas a assistir a estas práticas como forma de “educação ideológica”

A Amnistia Internacional revelou esta sexta‑feira novas evidências das punições brutais aplicadas pelo regime norte‑coreano a cidadãos que consomem conteúdos estrangeiros. As conclusões resultam de 25 entrevistas realizadas a pessoas que fugiram da Coreia do Norte e descrevem um clima de repressão extrema contra qualquer influência cultural externa, especialmente da Coreia do Sul.

O testemunho mais chocante aponta para a execução pública de dois adolescentes acusados de terem visto e distribuído entre os colegas a série sul‑coreana "Squid Game".

De acordo com os relatos recolhidos, os jovens foram mortos publicamente, numa tentativa de intimidar a população e reforçar o controlo estatal sobre o acesso à informação. O caso terá ocorrido na província de Yanggang (Ryanggang), junto à fronteira com a China, embora não existam dados que permitam determinar a data exata da execução.

Assistir a dramas sul‑coreanos, os populares K‑dramas, ou ouvir K‑pop, incluindo grupos mundialmente conhecidos como os BTS, pode resultar em punições severas na Coreia do Norte, que vão desde humilhações públicas e trabalhos forçados até à própria execução.

Em 2021, o The Korea Times noticiou que dois jovens em idade escolar foram condenados por ouvirem e dançarem músicas do grupo formado por Jin, Suga, J‑Hope, RM, Jimin, V e Jung Kook.

Segundo o jornal, os adolescentes eram recrutas da Guarda Juvenil Vermelha, uma organização paramilitar norte‑coreana, e foram surpreendidos durante uma pausa no treino enquanto ouviam e imitavam coreografias de K‑pop.

Crianças e jovens obrigados assistir a execuções públicas

Com base nas entrevistas realizadas, a Amnistia Internacional concluiu que crianças e adolescentes na Coreia do Norte são frequentemente forçados a assistir a execuções públicas como parte da chamada “educação ideológica” do regime norte-coreano.

Segundo vários testemunhos, as autoridades ordenavam a presença de escolas inteiras, reunindo dezenas de milhares de pessoas.

Kim Eunju, de 40 anos, que abandonou a Coreia do Norte em 2019, relatou que, quando tinha entre 16 e 17 anos, foi levada pela escola para assistir a uma execução por pelotão de fuzilamento: “Pessoas foram executadas por verem ou distribuírem conteúdos mediáticos sul‑coreanos. É uma forma de educação ideológica: se assistires, isto pode acontecer‑te também.”

Corrupção dentro do próprio sistema

Durante décadas, o regime norte-coreano tem recorrido ao chamado Grupo 109, uma unidade especial de repressão encarregue de combater o consumo de conteúdos estrangeiros. Sem necessidade de mandado, os seus agentes realizam buscas domiciliárias e revistas na via pública.

Várias pessoas detidas por consumirem conteúdos sul-coreanos relataram à Amnistia Internacional que os agentes exigem subornos, tanto às próprias vítimas como às suas famílias, em troca de clemência. No entanto, há quem consuma estes conteúdos e pertença ao próprio sistema, uma realidade conhecida por todos.

“Os trabalhadores veem-no abertamente, os quadros do Partido veem-no com orgulho, os agentes de segurança veem-no em segredo e a polícia vê-o sem receio. Todos sabem que todos veem, incluindo aqueles que conduzem as operações de repressão", afirmou Kim Gayoung, de 32 anos, que abandonou a Coreia do Norte em 2020.

A Amnistia Internacional comunicou estas conclusões ao governo da República Popular Democrática da Coreia, solicitando uma resposta às alegações documentadas. Até à data, não foi recebida qualquer reação por parte das autoridades norte-coreanas.

Fonte: SIC Notícias, 6 de fevereiro de 2026 

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