Com Trump, "o demolidor", nada será como dantes. "Os europeus seriam completamente ingénuos se esperassem que tudo volte à normalidade"
A Conferência de Segurança de Munique, que arranca esta
sexta-feira na capital da Baviera, poderá fornecer algumas respostas sobre o
rumo da aliança transatlântica depois de um ano “demolidor” para as relações
entre a União Europeia (UE) e os Estados Unidos da América (EUA) com Donald
Trump ao leme. A questão é que as respostas podem não ser necessariamente as
que a Europa quer ouvir.
No costumeiro Relatório de Munique, que dá o mote aos três
dias de discursos públicos, encontros e reuniões bilaterais, publicado na
terça-feira, os analistas de segurança e defesa
europeus avisam que o mundo está “sob destruição” – o título do documento – e que, não sendo o
único, o presidente norte-americano é “o mais poderoso de entre aqueles que
estão a destruir as regras e instituições existentes” nas últimas oito décadas.
Contudo, esta “era demolidora” só apanhou de surpresa quem
não prestou atenção à última Conferência de Segurança de Munique (CSM), onde o
vice-presidente de Trump, JD Vance, usou o
púlpito para lançar um ataque à Europa por aceitar migrantes e fazer cordões
sanitários à extrema-direita, dizendo que "a maior ameaça"
que o continente enfrenta "vem de dentro”.
Um ano depois desse discurso, “muito marcante”, aponta a
especialista Ana Santos Pinto, “o contexto desta conferência é bastante
diferente” – e já se provou que uma das grandes ameaças que a Europa enfrenta
vem do país que, outrora, foi o seu maior aliado. “Esse discurso de Vance
serviu, sobretudo, para os aliados perceberem como é que os EUA iam olhar para
a Europa, algo que ficou depois patente na Estratégia de Segurança Nacional. E
depois da cimeira anual da NATO em junho e, agora, da tensão sobre a Gronelândia
no início deste ano, as relações transatlânticas estão num momento
particularmente desafiante”, ressalta a ex-secretária de Estado da Defesa, que
serve de pano de fundo a esta CSM.
“O Relatório de Munique é muito claro na forma como descreve
a ação da administração Trump, que classifica como uma ‘bola demolidora’ que
arrasa todas as estruturas”, adianta a especialista em assuntos de Segurança e
Defesa da Universidade Nova de Lisboa. “Depois de arrasar, o que é que vem a
seguir? Quando destruímos, precisamos de uma reconstrução – mas não se percebe
qual é o plano para a reconstrução.”
Cautela e baixas expectativas
Apesar de todos os alertas e de todas as críticas, há quem
acredite que a conferência deste ano poderá marcar precisamente o início da
reconstrução da aliança, um “reset” das relações entre os EUA e os seus aliados
euro-atlânticos após um ano de enorme turbulência, que arrancou com Trump a
sugerir que o Canadá deveria tornar-se o 51.º estado dos Estados Unidos da
América e que terminou com a renovada ameaça de anexar a região autónoma
dinamarquesa da Gronelândia à força – um plano que, por agora, parece estar em
águas de bacalhau.
Um dos responsáveis europeus que acredita no início dessa
reconstrução é Alexander Stubb, presidente da Finlândia, que no dia em que o
Relatório de Munique foi divulgado disse aos jornalistas em Helsínquia que
espera que a Conferência de Munique “ajude a melhorar as relações” com os
norte-americanos e que acredita que os EUA vão participar nos encontros e
reuniões “com essa mentalidade”.
“Tenho o maior respeito e consideração por Stubb, acho que é
um dos líderes mais competentes da atualidade, mas acho que está a ser
demasiado otimista, percebo o que quer dizer, mas tenho dúvidas de que vá ser
assim tão político”, considera Ana Santos Pinto, começando por invocar a
composição da delegação enviada por Trump a Munique. Tradicionalmente, a
comitiva norte-americana é liderada pelo vice-presidente e “o facto de este ano
ser liderada por Marco Rubio, o chefe da diplomacia, não só baixa o perfil da
delegação do ponto de vista protocolar, como também serve para enviar uma
mensagem diplomática”. Rubio é tido como um
elemento menos combativo e menos crítico da Europa do que Vance – logo passível de seguir uma “lógica mais
tradicional, mais apaziguadora”, ressalta a especialista.
“O ponto crucial será, claro, o discurso de Rubio, e será
interessante ver o que ele tem a dizer, até em vista de um possível cenário
pós-Trump, mas não devemos levar isso muito a sério, porque ele é o ministro
dos Negócios Estrangeiros, não é o presidente – e com o presidente nunca
sabemos o que fará de seguida”, adianta o historiador Kiran Klaus Patel a
partir de Munique. “Devemos encarar o que quer que ele diga com cautela. A
ausência de qualquer grande catástrofe, por assim dizer, já será uma boa notícia,
mas é uma boa notícia apenas para aquele dia – o dia seguinte pode trazer algo
novo.”
As pessoas de quem Rubio se faz acompanhar na viagem à
Baviera dizem tanto quanto a ausência do vice-presidente Vence e até do
secretário da Defesa, ou da Guerra, Pete Hegseth, que se faz representar nestes
encontros pelo seu subsecretário para os Assuntos Políticos, Elbridge Colby, o
responsável pela implementação da Estratégia de Defesa Nacional. Rubio faz-se
ainda acompanhar do seu vice, Christopher Landau, um homem que, em dezembro,
acusou grande parte da Europa de estar a “minar a segurança dos próprios EUA
através da (não-eleita, antidemocrática e não-representativa) UE”.
A contrastar com a comitiva, destaca-se a presença de
legisladores democratas, entre eles Alexandra Ocasio Cortez e Gavin Newsom, o atual
governador da Califórnia, tido como possível candidato do partido às
presidenciais de 2028, que há poucas semanas desafiou a Europa a parar de ser
“cúmplice” dos devaneios de Trump.
“Chegou a hora de reagir, chegou a hora de levar as coisas a
sério e parar de ser cúmplice”, disse aos jornalistas à margem do Fórum Mundial
de Davos, que está para a economia mundial como a Conferência de Munique está
para a segurança e a defesa. “Não aguento mais
esta cumplicidade, pessoas a curvarem-se. Devia ter trazido joelheiras para
todos os líderes mundiais… isto é patético”, adiantou Newsom, com
quem o chanceler alemão, Friedrich Merz, pretende encontrar-se à margem da CSM.
Entre outras presenças de destaque conta-se a do presidente
da Colômbia, que tem estado numa intensa troca de galhardetes com o homólogo
norte-americano, após Trump ter sugerido que a Colômbia poderia ser o próximo
alvo de uma intervenção militar dos EUA no rescaldo da operação que depôs
Nicolás Maduro na Venezuela.
Era pós-Trump à vista?
Rubio e a sua equipa até podem ser menos cáusticos que JD
Vance – e o que Rubio disser e fizer pode vir a valer de muito se decidir
candidatar-se à presidência dos EUA em 2028. Mas seria imprudente os europeus
olharem para este encontro como uma possibilidade de renovar a aliança
transatlântica como a conhecemos ou como um potencial regresso à normalidade
Como aponta Patel, “podemos esperar que as discussões com
Rubio levem a uma transição mais tranquila e racional para um novo cenário, com
uma divisão de trabalho ligeiramente diferente e algum tipo de continuidade do
que existe – mas os europeus seriam completamente ingénuos se esperassem que,
mesmo que os próximos dias corram bem, tudo volte à normalidade”.
Isso leva-nos de volta à mensagem enviada pela administração
Trump no arranque de uma conferência que, para Ana Santos Pinto, terá “muito
mais uma lógica de percebermos, enquanto europeus, como vamos lidar com, e
reagir” à nova postura geopolítica de Washington, numa altura em que continua a
mediar negociações entre a Rússia e a Ucrânia a duas semanas do quarto
aniversário da invasão russa de larga escala.
“Creio que esta é a mensagem diplomática, tal como já foi
delineado na Estratégia de Segurança Nacional – a de que os EUA privilegiam as
relações bilaterais e só vão olhar para os europeus do ponto de vista dessas
relações bilaterais, Estado a Estado”, sublinha a ex-secretária de Estado da
Defesa.
É a mesma ideia defendida por outros dentro da UE na véspera
da CSM, como Pablo Hispán, do Conselho da Europa, que há poucos dias destacava
o facto de “esta administração preferir trabalhar com os governos e não com a
UE” como uma “mudança de 180 graus” em relação às anteriores administrações. E
é isso mesmo que Rubio já está a dizer com a sua vinda à Europa quando olhamos
para as duas paragens que precederam a aterragem em Munique – em Budapeste e
Bratislava.
“É interessante perceber a sequência de encontros, porque antes desta Conferência de Munique houve esta espécie de retiro dos chefes de Estado e de governo da UE, um encontro informal essencialmente para pensar aquilo que é o posicionamento europeu não só na dimensão económica e das dependências económicas, mas também do ponto de vista político”, sublinha Ana Santos Pinto. E no caso das visitas do vice Trump pré-Munique, está tudo às claras.
“Trump sabe que Hungria e Eslováquia são os dois veículos
que podem condicionar os processos de decisão interna na UE”, aponta. “É isso
que Rubio está a dizer quando vem à Europa e privilegia esses dois Estados
soberanos da UE, serve precisamente para manter essas relações bilaterais
privilegiadas, até do ponto de vista económico, dada a dependência da Hungria
em relação ao petróleo da Rússia e o carácter excecional que Orbán obteve nesta
relação com Trump”, no contexto das sanções impostas pela administração
norte-americana às petrolíferas russas.
Que caminho para a Europa?
Sendo impossível para os aliados fazerem um corte total com
os EUA de Trump, é inegável que cada vez mais países têm começado a tomar
iniciativas independentes de Washington – veja-se a entrada da Suécia e da
Finlândia na NATO ou, mais recentemente, a confirmação de países como a Suécia,
a Noruega, a Alemanha e os Países Baixos de que estão a manter conversações
sobre uma dissuasão nuclear europeia que complemente o “guarda-chuva nuclear”
dos Estados Unidos.
Numa entrevista a lançar a conferência, Wolfgang Ischinger,
que preside ao evento, reconheceu ao Deutsche Welle que “obviamente a
confiança foi abalada” por Trump, mas que o apelo por uma Europa mais
“autossuficiente” faz sentido e já deveria ser uma realidade. "Não está
escrito na Bíblia, como costumava dizer o primeiro-ministro polaco, que 450
milhões de europeus precisam de 350 milhões de americanos para se defenderem de
140 milhões de russos. Porque é que não podemos atender à exigência americana
de fazermos mais por nós mesmos para nos tornarmos mais capazes e
autossuficientes? Devíamos fazê-lo."
Não estando escrito na Bíblia, é do senso comum que, para
haver autossuficiência, é preciso haver fontes de financiamento – e essa é
agora a grande batalha que a UE precisa de travar, quer no que toca aos apoios
à Ucrânia ao final de quatro anos de invasão e ocupação, quer no que toca a um
contexto mais geral. Foi, aliás, essa a mensagem deixada por Emmanuel Macron,
presidente de França, na véspera da CSM, ao alertar que as tensões com os EUA
estão aí para ficar e que uma das respostas da UE deve ser “desafiar a
hegemonia do dólar” por via de uma “capacidade de endividamento comum”.
“Temos um tsunami chinês no plano comercial e, no plano
americano, temos uma instabilidade minuto a minuto, duas crises que criaram um
choque profundo, uma rutura para os europeus”, disse Macron numa entrevista
conjunta a sete grandes meios de comunicação do continente. “O que devemos
fazer não é curvarmo-nos ou tentar alcançar um acordo [com Trump] – tentámos
essa estratégia durante meses e não está a resultar.”
Pelo contrário, defende o líder francês, “chegou o momento
de a UE lançar uma capacidade de endividamento comum, através dos Eurobonds”,
no que classifica como uma “oportunidade única” – “o mercado global tem cada
vez mais medo do dólar americano, procura alternativas” e a dívida europeia
pode ser essa alternativa, pelo que “seria um grave erro não aproveitar essa
capacidade”.
Essa hipótese é liminarmente rejeitada pela Alemanha que, de
repente e não sem alguma surpresa, está numa espécie de aproximação a Itália,
mostrando outro efeito direto desta demolição da antiga ordem geopolítica
apontada no Relatório de Munique. “Uma das mensagens do relatório é que, para
reagir, é necessário sairmos dos comunicados e das declarações e passarmos à
ação – e a forma que a UE tem de agir não pode deixar de considerar a dimensão
do financiamento”, aponta Ana Santos Pinto. “Os Estados sabem que, para criar
mecanismos de resiliência e para diminuir a vulnerabilidade e a dependência de
atores externos e fazer face às variações de comportamento dos EUA é necessária
uma base de financiamento.”
Realinhamentos no horizonte
Essa é uma discussão “difícil”, reconhece a ex-secretária de
Estado, mas uma que é obrigatória. “Não pode deixar de ser feita e o facto de
termos vindo a contornar esses pontos difíceis e a criar soluções paliativas
levou-nos ao momento em que estamos agora. E perante o impacto estrutural, o
que é que vamos fazer? As lideranças políticas da UE, e também do Reino Unido,
do Canadá, do Japão, têm de facto de ter um posicionamento diferente. Falar de
financiamento é falar de endividamento comum, e os Eurobonds são exatamente
isso.”
Mas com Macron e o chanceler Merz da Alemanha de candeias às
avessas quanto a esse caminho, não é líquido que outro rumo seja encontrado
fácil ou rapidamente – nem que a CSM contribua de alguma forma para aproximar
posições. “Coisas como os Eurobonds trazem-nos de volta às antigas trincheiras
entre a França e a Alemanha – não estou a dizer que seja uma má opção, apenas
que é evidente que todos sabem exatamente qual é a posição de cada um”,
ressalta Kiran Klaus Patel a partir de Munique.
Invocando as iniciativas francesas em matéria de políticas
industriais, “que, como sabemos, também geram certas reações por parte da
Alemanha”, o historiador especializado na história da União Europeia
questiona-se “se este não seria o momento para superarmos isso e criarmos novas
iniciativas que não conduzam as pessoas aos seus velhos reflexos”, dando como
exemplo o mercado de capitais, “onde provavelmente há mais potencial de
consenso do que em questões de comércio internacional, Eurobonds ou outras questões”.
“Infelizmente”, adianta Patel, “a situação continuará confusa, mas acredito que
haverá realinhamentos – só não se sabe se serão permanentes.”

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