É cada vez mais difícil comprar um "bolo de arroz" em Lisboa. Cidade está a ficar sem cafés de bairro
O.P.J. Pacifique Sud (2019) - Lisa Do Couto Teixeira, Marion Campan
Estabelecimentos
com décadas estão a dar lugar a alojamentos locais ou restaurantes
franchisados, como mostra esta reportagem da agência noticiosa espanhola EFE
Lisboa está a perder os tradicionais cafés e pastelarias que
acompanharam muitas gerações numa onda de encerramentos devido às rendas
elevadas e ao turismo de massas, para os quais estão a abrir outro tipo de
estabelecimentos.
Muitos deles, com décadas e até um século de história, estão
a dar lugar a negócios orientados para o visitante, como alojamentos locais,
lojas de consignação ou franchisings internacionais, deixando para trás a
idiossincrasia dos bairros e virando os seus residentes contra eles.
É o caso da pastelaria Mujique,
Tiago era um dos frequentadores habituais da Mujique, porque
trabalha na loja de ferragens do outro lado da rua e lembra-se com carinho do
dono do café, que costumava comprar-lhe material.
O lojista disse à EFE que a Mujique fechou definitivamente
as portas, "porque os novos proprietários do edifício não quiseram renovar
o contrato de arrendamento", apesar de ter muitos clientes.
A 15 minutos a pé, a Confeitaria Vitória,
O desaparecimento da Vitória e da Mujique repete-se em
muitas ruas da capital portuguesa, onde blocos residenciais, cafés de
especialidade e restaurantes de fast food ou internacionais ocupam o lugar que
outrora pertenceu aos cafés de bairro.
Por vezes, é fácil reconhecer o local onde existiram, quando
os estabelecimentos que os substituem não retiram os azulejos, os toldos ou as
esplanadas. Outras vezes, a sua história desvanece-se, quando o espaço é
completamente remodelado.
Sobreviver ao encerramento, cada vez mais difícil
Embora seja difícil manter vivas as lojas tradicionais,
muitas delas continuam de pé graças à luta dos seus clientes e à determinação
dos seus próprios empregados.
João, 41 anos, é o proprietário da pastelaria Luso Americana,
No entanto, admitiu à EFE a sua preocupação com o aumento
dos custos, como o das rendas, que tem levado à falência muitos donos de
restaurantes.
"Há muitos casos em que os senhorios aumentam as rendas
e os inquilinos, desanimados, não têm possibilidade de as pagar. Está a
acontecer em todo o lado", apontou.
O problema das rendas não é o único: segundo o ativista Rui
Martins, por vezes, a passagem de gerações de pais para filhos não é possível,
porque os filhos "não querem deixar as suas carreiras" para herdar os
cafés; e deixá-la para os empregados nem sempre é viável.
"Há alguns anos, os trabalhadores do comércio local
herdavam quando os filhos não queriam. Hoje em dia é difícil porque as rendas
são muito caras, o comércio local está em zonas muito caras", sublinhou
Martins.
Lisboetas continuam à procura do seu "bolo de
arroz"
Perante esta crise, alguns lisboetas organizaram-se para
localizar e ajudar a preservar os cafés e pastelarias que sobreviveram.
Na sequência do encerramento da Confeitaria Vitória, o
movimento “Vizinhos em Lisboa” elaborou nos últimos meses um mapa com cerca de
900 cafés tradicionais abertos, onde constam também os que fecharam para serem
substituídos por negócios ligados ao turismo.
O grupo de moradores considera
tradicionais os estabelecimentos que oferecem bolos de arroz, um dos
bolos mais típicos de Portugal, semelhante a um cupcake, cuja fama não alcança
a do pastel de nata e que é pouco conhecido pelos turistas estrangeiros.
Para Martins, “Lisboa também está a perder atratividade para
o turismo”, com o desaparecimento de estabelecimentos tradicionais.
“Quando os turistas desembarcam dos milhares de cruzeiros ou
aviões, e invadem até o castelo (de São Jorge), estão também à procura da
Lisboa típica, que já não existe. O que temos
agora são lojas de kebab, de souvenirs, mas não cafés e livrarias
nestas zonas”, lembrou.
Com uma média de pouco menos de dois cafés tradicionais por
cada mil habitantes, o desejo do lisboeta já não é que estes estabelecimentos
reabram, mas que um dia deixem de fechar.
A cidade outrora conhecida como a Cidade das Sete Colinas responde hoje pelo nome de cidade das mil e uma lojas de souvenirs.






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