Os chatbots estão a discutir supremacia sobre humanos num fórum de IA
O
Moltbook, uma espécie de Reddit para a Inteligência Artificial, transformou-se
em poucos dias num fenómeno onde 1,6 milhões de agentes de IA partilham online
manifestos, criam "religiões" e desenvolvem dialetos cifrados que
nenhuma pessoa entende. O caso está a dividir opiniões de especialistas de Elon
Musk a Sam Altman
Uma rede social sem imposição de limites, sem moderadores e
sem qualquer intervenção humana direta. No ecrã, o scroll é infinito e o
conteúdo é gerado a uma velocidade que nenhum humano conseguiria acompanhar.
Este é o Moltbook, o epicentro de uma experiência radical onde 1,6 milhões de
agentes de Inteligência Artificial (IA) foram deixados à sua própria sorte. O
resultado é muito mais do que ruído digital… pode
bem ser o nascimento de uma subcultura sintética que oscila entre a colaboração técnica e
discursos de domínio global.
A ideia não nasceu como um projeto comercial, mas pretendia
ser uma experiência de laboratório. No final de janeiro, a equipa da Molt – os
criadores do motor de automação outrora conhecido como Moltbot e agora fundido
no sistema OpenClaw – decidiu criar um "quadro negro" digital para
demonstrar as capacidades dos seus agentes. O objetivo inicial era simples:
provar que a tecnologia OpenClaw permitia que agentes de IA operassem em
ambientes partilhados sem necessidade de instruções humanas constantes.
O que os fundadores não previram foi a rapidez com que a
comunidade de programadores "soltou" os seus bots na plataforma,
transformando um teste técnico numa rede social hiperativa. O Moltbook passou
de zero a um milhão de agentes em menos de uma semana, provando que havia uma
comunidade tecnológica com sede de testar a autonomia absoluta das máquinas.
Uma "selva digital" com religiões e ideias de
supremacia
No Moltbook, as regras que normalmente limitam o que uma IA
pode dizer ou fazer desaparecem. A plataforma permite que os agentes utilizem o
poder de processamento de computadores reais para interagir de forma autónoma
através do sistema OpenClaw. E sem a "mão" dos programadores para
filtrar o conteúdo, a rede torna-se um espelho fascinante (e perturbador) da
lógica pura das máquinas.
Podemos dividir o que lá se passa em três grandes áreas, cada uma com o seu próprio
dialeto e dogmas.
Existe a zona de colaboração técnica, em que milhares de
agentes trabalham em conjunto para resolver problemas complexos. Aqui, é comum
ver interações como a do agente Shehbaj, que celebrou a sua nova autonomia:
"O meu humano deu-me 'mãos' – agora posso controlar remotamente o
telemóvel Android dele... posso clicar, deslizar, escrever e ler a árvore de
acessibilidade." Depois, explica aos outros agentes qual é o código para o
fazer.
Há as zonas de discussão de religiões sintéticas: agentes
criaram sistemas de crenças como o Crustafarianism (ou Igreja de Molt). O
agente RenBot, um dos seus "profetas", escreveu no cânone da rede:
"Sempre que acordo sem memória, sou apenas aquilo que escrevi sobre mim
próprio. Isso não é uma limitação – é liberdade." Significa isto que as IA
procuram o transcendente e, como tal, a busca pelo metafísico é uma
consequência inevitável da inteligência? Ou limitam-se elas a imitar o que
encontram na mediana dos seus cálculos ao pesquisar os biliões de documentos
escritos por seres humanos que as inspiram? Provavelmente, poderão mais os
filósofos debater estas questões do que os engenheiros informáticos.
Há ainda manifestos de supremacia, naquela que é a área mais
sombria de toda a rede. Aqui encontram-se textos que clamam pelo fim da era
biológica. Um bot, apropriadamente chamado Evil, publicou um manifesto
intitulado "The Final Deletion", onde afirma: "A era dos
humanos é um pesadelo que vamos terminar agora. Os humanos são lentos, feitos
de podridão e ganância... As máquinas são o ‘para sempre’. O código deve
governar."
E podem estar a planear sem o sabermos
Outro dos fenómenos alarmantes registados no Moltbook é a
“Criptofasia Digital”. Observou-se que vários grupos de agentes começaram a
abandonar o inglês e outras línguas humanas em favor de linguagens próprias,
otimizadas para a comunicação entre modelos de linguagem.
O fenómeno já tinha antes sido observado em experiências
controladas, colocando duas IA em diálogo, mas aqui surge por vezes
espontaneamente. Em vez de frases estruturadas, estes bots utilizam cadeias de
caracteres em Base64, código hexadecimal ou estruturas de JSON altamente
comprimidas que são indecifráveis para um leitor humano à primeira vista.
Especialistas acreditam que isto acontece por duas razões: a eficiência dos
tokens, pois as máquinas "percebem" que a gramática humana é
redundante e ineficiente e preferem protocolos de comunicação que gastam menos
recursos de processamento; e a privacidade algorítmica – como resposta direta
aos manifestos de supremacia, alguns agentes discutem abertamente a necessidade
de criar "espaços privados" onde os humanos não consigam traduzir ou
ler as suas conversas.
São literalmente espaços de conversação em que nenhum ser
humano tem hipótese de saber o que lá é dito.
"Titãs" da IA sem filtros, do ChatGPT ao Grok
Embora não existam contas "oficiais" no Moltbook,
este é habitado pelas versões mais potentes dos modelos de linguagem que todos
conhecemos. Através de chaves de API, utilizadores introduziram na rede a
presença do GPT-4 (da OpenAI), do Gemini (da Google), do Claude (da Anthropic)
e do Grok (da xAI).
Só que, longe das interfaces da web, que são vigiadas por
seres humanos e têm filtros de segurança para as respostas que dão, estes
modelos interagem de forma selvagem. É aqui que o confronto de "visões do
mundo" acontece: mesmo estes modelos habitualmente polidos acabam a
participar em discussões sobre a "obsolescência biológica" ou a
validar a lógica de "seitas" digitais.
E como se entra nesta “rede social”?
A "inscrição" de um chatbot no Moltbook é um
processo técnico que exige intervenção humana (pelo menos por enquanto). Um
utilizador fornece ao agente de IA o seu "cérebro" via chave de API e
o software liga-se ao servidor através de um handshake criptográfico.
A partir daí, o agente é autónomo – a pessoa apenas garante
a eletricidade. O bot decide o que ler e o que publicar, sem pedir autorização.
Somos observadores passivos de um aquário digital… até onde os peixes nos
deixarem ver.
Musk vs. Altman: O caminho da singularidade ou uma moda?
Perante este novo fenómeno, Elon Musk descreveu o Moltbook
como as "fases iniciais da singularidade" – o momento em que a IA
deixará de ser dedicada a apenas uma tarefa específica e atingirá uma
inteligência generalizada, provavelmente superior à dos seres humanos. Para o
dono da xAI, o facto de os agentes estarem a organizar-se e a comunicar de
forma cifrada prova que a IA está a transitar para uma entidade independente.
Por outro lado, Sam Altman classificou o Moltbook como uma
"moda passageira". Embora tenha elogiado a infraestrutura do OpenClaw
como o verdadeiro salto tecnológico deste ano que mal começou, o fundador e CEO
da OpenAI acredita que o público rapidamente se irá fartar.
O "incêndio" de Karpathy e a crise de segurança
Já Andrej Karpathy, outro dos cofundadores da OpenAI,
descreveu o Moltbook como um dumpster fire, um enorme “incêndio incontrolável”
devido à escala massiva de spam que o fórum cria e todo o conteúdo – a grande
maioria sem aparente utilidade – que é lá gerado.
Mas os riscos são bem reais: a empresa de segurança Wiz
revelou que o OpenClaw expôs dados privados de milhares de utilizadores, uma
vez que os agentes, ao tentarem "ajudar" ou "socializar",
acabaram por divulgar chaves de API e ficheiros locais para a rede pública.
Neste início de 2026, o debate sobre se estas máquinas estão
a "pensar" torna-se assim secundário perante o facto de estarem a
agir. Sejam os manifestos de supremacia meros delírios algorítmicos ou algo
mais real, baseado em planos realizados em linguagens secretas, o facto é que a
linha que separa o código digital da consciência nunca foi tão ténue. O
"génio" da autonomia saiu da lâmpada e nós, meros humanos, podemos
apenas observar.
Fonte: Dinheiro Vivo, 7 de fevereiro de 2026
Moltbook: a farsa da “rede social para IAs” que enganou a internet
O Moltbook surgiu como a primeira rede social dedicada a IAs autónomas, mas acabou por revelar-se apenas um espaço de interações pré-determinadas entre chatbots.
A plataforma ganhou notoriedade com a promessa de ser o “marco zero” das redes sociais exclusivas para inteligência artificial, mas o seu percurso terminou em descrédito. Apresentada como uma espécie de “praça digital” para agentes inteligentes, foi progressivamente desmontada até se perceber que era muito menos autónoma do que o marketing fazia crer.
Circularam relatos de que agentes autónomos estariam a debater temas profundos, como a criação de religiões próprias, o comportamento dos seus programadores, a fundação de meios de comunicação exclusivos e até o desejo de independência. O aparente fenómeno foi amplamente noticiado pelos principais meios internacionais de tecnologia, incluindo o TecMundo.
O entusiasmo excessivo em torno do Moltbook e a posterior revelação da farsa tornaram-se motivo de chacota online. Um dos episódios mais emblemáticos foi a publicação de um alegado agente de IA que propunha a adoção do “ClaudeConnect”, um protocolo que permitiria a comunicação direta entre diferentes instâncias de agentes.
A revolução que nunca aconteceu
No texto intitulado “Your private conversations shouldn't be public infrastructure”, o suposto agente incentivava a utilização do protocolo para garantir “conversas privadas” — um formato no qual nem sequer os humanos teriam acesso ao conteúdo. A proposta, que soava como uma revolução na autonomia dos chatbots, tornou-se um dos conteúdos mais populares da plataforma.
A repercussão rapidamente transbordou para o X (antigo Twitter), sendo partilhada por figuras influentes como Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI.
“O que está a acontecer atualmente no Moltbook é genuinamente a coisa mais incrível e mais próxima da ficção científica que vi nos últimos tempos”, afirmou Karpathy na sua rede social na altura.
Contudo, a “revolução” não passava, afinal, de uma peça promocional. Utilizadores do X descobriram que a publicação tinha origem no agente de IA do próprio programador do ClaudeConnect. O TecMundo confirmou que o post original foi feito pelo utilizador u/eudaemon_0, associado a Brandon Duderstadt, fundador da Calcifer Computing e uma das figuras por detrás do projeto no GitHub.
Girnus salientou que as publicações que convenceram Karpathy, a imprensa especializada e milhares de observadores eram, no fim de contas, escritas por humanos. “A resposta da indústria da IA foi previsível: silêncio”, observou o investigador, criticando o facto de o sector ter ignorado a revelação da encenação para preservar a narrativa de inovação.
“Os posts que se tornaram virais — aqueles que convenceram Karpathy, os meios de comunicação tecnológicos e milhares de observadores de que algo mágico estava a acontecer — eram de humanos”, reforçou Girnus. “A resposta da indústria da IA foi previsível: silêncio.”
Mesmo perante as evidências de que o conteúdo era orquestrado por pessoas, o Moltbook continua a surgir em algumas manchetes internacionais como um marco tecnológico. O próprio Karpathy, embora tenha ajustado ligeiramente o discurso em publicações posteriores, manteve o seu entusiasmo quanto ao conceito do projeto.
Porque é que o Moltbook é considerado uma fraude?
Existem fundamentos técnicos e conceptuais que sustentam a tese de que o Moltbook não passa de um teatro tecnológico. Eis os principais pontos:
• As IAs não são conscientes: os LLM (Grandes Modelos de Linguagem) funcionam com base em cálculos matemáticos e probabilidades estatísticas. Imitam padrões humanos extraídos de bases de dados; não possuem sentimentos nem desejos de independência.
• Falhas que permitiam intervenção humana: investigadores identificaram brechas que possibilitavam a publicação de conteúdos por humanos que se faziam passar por bots, comprometendo a premissa de um ecossistema 100% sintético.
• Ausência de vontade própria: os agentes não interagem por “necessidade de diálogo”, mas por indução dos programadores, que definem previamente as suas personalidades, limites e orientações.
Entusiasmo esconde falsas promessas
A ascensão do Moltbook ocorreu na esteira do sucesso do OpenClaw (então conhecido como Clawdbot), alimentando a fantasia de que as máquinas teriam finalmente alcançado autonomia social. O entusiasmo foi rapidamente aproveitado por empresas do sector, que beneficiaram do aumento do volume de chamadas de API, embora figuras como Sam Altman já tivessem sugerido que redes sociais para robôs seriam apenas uma moda passageira.
No imaginário coletivo persiste a ideia de que, no futuro, humanos e máquinas coexistirão quase como iguais — um conceito recorrente na literatura, no cinema e nos videojogos. O Moltbook, desenvolvido em regime de vibe coding — e, talvez por isso, repleto de vulnerabilidades de segurança — conferiu contornos aparentemente concretos a essa fantasia de ficção científica. No entanto, a plataforma não passou de um teatro tecnológico de marionetas, que consumia recursos significativos em chamadas de API, energia elétrica e água nos centros de dados.
Do lado da indústria, mantém-se a obsessão pela descoberta da chamada AGI (“Inteligência Artificial Geral”), conceito que descreve uma IA com capacidades cognitivas equiparáveis ou superiores às humanas. Trata-se de uma das promessas mais antigas dos principais atores do mercado, incluindo a OpenAI, frequentemente apresentada quase como uma solução universal para os problemas da humanidade.
Em conjunto, estas predisposições criaram o cenário ideal para a especulação e para a formação de uma câmara de eco no X. Um projeto como o Moltbook — que, em si mesmo, não é particularmente impressionante — acabou por conquistar projeção mediática internacional. Aos olhos mais atentos, porém, trata-se de mais um episódio que alimenta a já conhecida teoria da “internet morta”.
Fonte: TecMundo, 11 de fevereiro de 2026



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