Será que Rubio está a recuar na mudança de regime em Cuba para seu próprio benefício político?
Trump
quer fechar um acordo, e o secretário pode não querer ser o rosto da crise caso
o governo entre em colapso.
Enquanto o bloqueio de facto ao petróleo imposto pela
administração Trump a Cuba paralisa a vida na ilha, vários fatores podem estar
a levar o secretário de Estado Marco Rubio a repensar a procura de uma mudança
imediata de regime em Havana.
As potenciais aspirações presidenciais futuras de Rubio e as
implicações humanitárias de um colapso total do governo devem estar a pesar
nesta decisão. Entretanto, os relatos de que o governo está a emitir licenças
americanas para remessas de petróleo para o sector privado da ilha, e que estão
a ocorrer “discussões” informais não confirmadas com figuras influentes em
Havana, parecem indicar que Rubio poderá estar a jogar a longo prazo, mantendo
o atual governo no poder enquanto procura uma maior influência sobre o rumo
económico do país.
Tudo isto sugere que Rubio poderá acabar por procurar um
acordo semelhante ao da Venezuela com o governo cubano, dadas as suas próprias
ambições políticas e as realidades e limitações que enfrenta como principal
executor da política externa dos EUA sob o governo do presidente Trump.
É claro que isso frustraria,
ou pelo menos atrasaria, um dos seus principais objetivos dos últimos 20 anos:
o derrube do regime cubano.
William LeoGrande, especialista em Cuba da American
University e investigador não residente no Quincy Institute, afirmou no mês
passado que Rubio, quer se queira quer não, pode ser obrigado a acatar os
planos de Trump para Cuba — que é negociar um acordo. Tal como ocorreu na
Venezuela, fontes dizem que Trump prefere não procurar uma mudança radical de
regime, tendo em conta as memórias da desastrosa campanha de desbaathificação
após a invasão do Iraque em 2003.
Se Rubio se candidatasse à presidência, a sua necessidade de
vencer a sua primeira eleição nacional — e não apenas na Florida — poderia
transformar o seu potencial papel no colapso total de Cuba num problema, e não
numa vantagem.
Isto pode explicar porque é que Rubio respondeu com cautela
numa recente audição no Senado quando questionado sobre a política para Cuba:
"Penso que gostaríamos de ver o regime lá mudar. Isso não significa que
vamos promover uma mudança, mas adoraríamos ver uma mudança", disse.
Enquanto os membros da linha dura do sul da Florida aumentam
a pressão sobre Washington e Havana, instando o Departamento do Tesouro a
proibir todos os voos e remessas para a ilha, o Departamento de Justiça a
acusar Raúl Castro por um incidente ocorrido há 30 anos 1 e o Departamento do Comércio a revogar quase
todas as licenças das empresas americanas que operam na ilha, Rubio não
endossou estes apelos.
De facto, no passado fim de semana, Rubio disse à Bloomberg
que as reformas económicas do governo cubano — "e não apenas a liberdade
política" — poderiam oferecer um caminho para o fim do bloqueio
petrolífero norte-americano e para a melhoria das relações bilaterais. O RS já
tinha noticiado que um acordo deste tipo, em que o governo cubano procura
reformas económicas enquanto se mantém em grande parte no poder, como ocorreu
na Venezuela, é uma solução que as autoridades de Havana demonstraram estar
dispostas a aceitar, e que seria provavelmente menos caótica do que uma
implosão imediata do regime, um derrube popular do governo ou uma ação militar
dos EUA.
Esta abordagem seria “o caminho mais sensato, prudente e
humano”, afirmou o ex-congressista Joe García, da Florida, que já tentou mediar
o conflito entre os dois governos no passado.
A entrevista de Rubio à Bloomberg surgiu depois de a
revista The Economist ter noticiado, na semana passada, que, caso o cerco ao petróleo imposto pelo governo à ilha se
mantenha, Rubio poderá tornar-se a figura pública de uma crise humanitária
induzida, que poderá levar a uma nova vaga de refugiados em barcos a chegar às
costas da Florida durante um ano eleitoral crucial.
O The Economist citou várias fontes indicando que,
como consequência, Washington está a considerar fornecer pequenas quantidades
de gás de cozinha e gasóleo para sustentar as infraestruturas hídricas da ilha.
Quando contactado pelo RS, o autor da reportagem esclareceu que parece
que o governo permitiria que alguns países das Caraíbas, como a Jamaica ou o
Curaçau, vendessem propano ou gasóleo a Cuba sem enfrentar as tarifas
americanas de 30%, conforme ameaçado na ordem executiva de Trump de 29 de
janeiro.
Como acima referido, para evitar um colapso total e a
desestabilização de toda a ilha — contra a qual as autoridades da CIA, um
funcionário americano anónimo e o próprio Rubio alertaram — algumas empresas
privadas da ilha receberam licenças americanas para importar combustível para
as suas próprias operações, segundo várias fontes consultadas pelo RS. O
ministro do Comércio Externo de Cuba terá autorizado estas importações no
início deste mês, depois de a administração Trump ter cortado os envios dos
dois maiores fornecedores de Cuba, Venezuela e México.
Mais recentemente, o Axios noticiou que Rubio manteve
conversações com Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto, guarda-costas e
protetor do ex-presidente cubano e general do Exército Raúl Castro. Também
conhecido como "El Cangrejo" (O Caranguejo), Raúl Guillermo, segundo
o Axios, é considerado pelos "assessores de Trump" como
"a figura mais importante da ilha a ser cultivada", enquanto o
governo procura a "próxima Delcy [Rodríguez] em Cuba".
Uma fonte descreveu as conversações de Rubio com El Cangrejo
— que, tal como as negociações secretas durante a administração Obama, terão
contornado os canais bilaterais oficiais — como "surpreendentemente"
amigáveis, afirmando que representa os cubanos mais pragmáticos e com visão
empresarial, que veem valor numa aproximação aos EUA.
No X, o autor da reportagem esclareceu que El Cangrejo, que
é tenente-coronel do exército cubano, pode ser o interlocutor atual de Rubio,
mas não é necessariamente a "próxima Delcy Rodríguez" da ilha,
presumivelmente porque o embargo não pode ser levantado enquanto Castro estiver
no poder, de acordo com o Título II da Lei Helms-Burton de 1996.
Nem todos veem a situação da mesma forma. O Drop Site
News acusa Rubio de estar a enganar Trump intencionalmente sobre a natureza
dos atuais contactos com a liderança cubana. O New York Times e o Miami
Herald citam fontes americanas e cubanas, alegando que não estão atualmente
a decorrer negociações substanciais entre os dois governos.
Rubio pode não estar a falar com o governo, mas tudo indica
que está a dialogar com pessoas próximas, incluindo militares e a elite
empresarial de Havana. Como disse o autor Peter Kornbluh, “o diálogo, mesmo sob
coação, é preferível à agressão declarada dos EUA e oferece uma possível saída
para ambos os lados”.
Embora Rubio queira, sem dúvida, livrar-se do regime atual,
as condições existentes, as suas próprias ambições políticas e a pressão para
apresentar um acordo ao presidente podem tornar uma acomodação nos moldes da
Venezuela mais provável, por enquanto, do que o colapso induzido do regime e as
suas consequências potencialmente explosivas, pelas quais Rubio seria
provavelmente responsabilizado.
Lee
Schlenker / Joseph Brennan
Fonte: Responsible Statecraft, 19 de fevereiro de 2026
1. O incidente referido remonta a 24 de fevereiro de 1996, quando dois aviões civis da organização de exilados cubanos Brothers to the Rescue foram abatidos por caças da Força Aérea Cubana sobre o estreito da Florida, em espaço aéreo internacional. As aeronaves — modelos Cessna 337 desarmados — participavam em missões de busca e resgate de refugiados e também lançavam panfletos antirregime sobre Havana. O ataque resultou na morte de quatro pilotos.
O governo cubano, liderado por Fidel Castro e com Raúl Castro como ministro da Defesa, alegou violação repetida do seu espaço aéreo; Washington considerou o abate ilegal e condenou-o internacionalmente. O episódio agravou drasticamente as relações entre os dois países e levou o Congresso dos Estados Unidos a aprovar a Helms-Burton Act, que reforçou o embargo económico contra Cuba.
Décadas mais tarde, alguns setores políticos nos EUA voltaram a invocar o caso para defender acusações criminais contra Raúl Castro, argumentando responsabilidade na ordem de abate.

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