Avó detida (durante 5 meses) após ser identificada por IA. Era inocente

Perry Mason (1957-1966) – Murray Matheson, Dee Hartford, Richard Anderson

Uma avó foi detida por cinco meses após ser erroneamente identificada por uma ferramenta de Inteligência Artificial como suspeita de fraude bancária. O crime em causa ocorreu na Dakota do Norte - um estado que Angela nem nunca tinha visitado

Uma mulher no Tennessee, no Texas, Estados Unidos, esteve detida durante cinco meses após uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) a identificar como culpada de um crime de fraude bancária… num estado que a suspeita nunca tinha visitado.

O incidente teve lugar em julho do ano passado, quando um grupo de agentes federais dos Estados Unidos bateram à porta de Angela Lipps, de 50 anos, com um mandado de detenção.

"A 14 de julho de 2025, uma equipa do Serviço de Delegados dos Estados Unidos [US Marshals, em inglês] apareceu na minha casa enquanto eu estava a tomar conta de quatro crianças", contou a própria numa página de angariação de fundos no site GoFundMe. "Eles detiveram-me com uma arma apontada a mim e levaram-me. Até àquele momento, nunca tinha tido uma arma direcionada a mim", recordou.

Sem que a avó de cinco soubesse, um mandado de detenção tinha sido emitido semanas antes em Fargo, na Dakota do Norte, a mais de 1600 quilómetros da sua casa. Tinha sido identificada como suspeita num caso de fraude bancária neste estado norte-americano.

Segundo a própria, "uma mulher usou uma identificação militar falsa para roubar milhares de dólares de bancos em Fargo". Para a identificar, a polícia "inseriu as imagens de videovigilância num software de reconhecimento facial".

Segundo o chefe do Departamento Policial de Fargo, Dave Zibolski, os detetives no caso usaram uma "tecnologia de reconhecimento facial" de uma agência com quem fazem parceria para tentar identificar o suspeito do caso. Contudo, garantiu num e-mail enviado à CNN, que foram também levados a cabo "passos de investigação adicionais independentes de IA para auxiliar na identificação".

"A algum momento, a nossa agência parceira em West Fargo comprou o seu próprio sistema de reconhecimento facial, do qual nós não tínhamos a nível executivo [...] e nós não teríamos permitido que fosse usado. Desde então, foi proibido", afirmou ainda Zibolski. O sistema em causa chama-se Clearview AI, uma start-up com milhares de milhões de fotografias reunidas da internet, incluindo das redes sociais.

O Clearview "identificou uma potencial suspeita com caraterísticas semelhantes a Angela Lipps" e a polícia de West Fargo remeteu esse relatório para a polícia de Fargo notando, contudo, que não tinham provas suficientes para qualquer acusação.

"O software de IA disse que era eu. Um detetive olhou para a minha carta de condução do Tennessee e para as minhas redes sociais e concordou. Ninguém me ligou. Ninguém me fez uma única questão. Eles só arranjaram um mandado", contou Angela.

Depois da detenção, a norte-americana passou 108 dias numa prisão no Tennessee. "Disseram que eu andava fugida à Justiça. Não tive direito a fiança. Ninguém me entrevistou. Fiquei só sentada à espera", acrescentou.

Mais de três meses depois da detenção, a 30 de outubro, Angela foi extraditada para a Dakota do Norte: "Foi a primeira vez que andei de avião. Estava aterrorizada."

"Eles puseram um dispositivo de restrição à volta da minha cintura e algemaram-me e transportavam-me pelo aeroporto à frente de toda a gente. Toda a gente estava a olhar. Eu estava aterrorizada e humilhada", recordou.

A causa para a demora na extradição de Angela ainda não foi explicada pelas autoridades. Aliás, os advogados da mulher dizem ter visto um e-mail de 14 de julho de 2025 a notificar vários agentes de autoridade de Dakota do Norte que Angela tinha sido detida no Tennessee.

A polícia de Fargo alega apenas que foram incapazes de determinar, até ao momento, se o tempo que Angela passou detida antes de ser extraditada foi "por estar a servir sentença por violação de liberdade condicional ou porque lutou contra a extradição".

Foi só quando chegou a Fargo que Angela Lipps teve direito a um advogado, que, rapidamente, encontrou extratos bancários que mostravam claramente que a mãe de três estava no Tennessee na altura dos crimes.

"Os meus extratos bancários provaram que eu estava numa bomba de gasolina, a encomendar uma piza, a usar a Cash App, nas mesmas alturas em que eles diziam que eu estava a quase 20 mil quilómetros a norte, em Fargo. Eu fui levada pelos US Marshals a 14 de julho. Só a 19 de dezembro é que o meu advogado e eu finalmente nos sentamos com um detetive. Foram precisos cinco minutos para o caso todo cair por terra. Cinco minutos", recordou a norte-americana.

A 23 de dezembro, o detetive de Fargo, o procurador do Estado e o juiz "acordaram mutuamente em arquivar as acusações sem prejuízo, a fim de permitir o prosseguimento da investigação", Angela foi libertada na véspera de Natal. "Ninguém no Departamento Policial de Fargo pediu desculpa."

"Estou agora a viver com os meus vizinhos num parque de caravanas. Não tenho carro, dinheiro, e nenhuma maneira de recomeçar sozinha", termina por dizer na página de angariação de fundos onde centenas de pessoas já doaram. Ao todo, já arrecadou mais de 72 mil dólares (cerca de 62 800 euros).

Fonte: Notícias ao Minuto, 31 de março de 2026 

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