BlackRock prevê viragem histórica nos mercados: fim dos “Magnificent 7” e explosão da rotação
A
BlackRock continua otimista, mas diz que agora é preciso ser mais seletivo e
ativo — o mercado já não sobe todo por igual
A BlackRock divulgou esta segunda-feira o seu Equity Market
Outlook Q2 2026, traçando um cenário de viragem no mercado de ações mundial. A
gigante da gestão de ativos diz que 2026 marca uma mudança importante nos
mercados. Depois de três anos dominados pelas grandes tecnológicas (Magnificent
7) e pela inteligência artificial (IA), o cenário está a virar. O ano de 2026
promete ficar marcado por reversão, rotação e recalibração, defende.
No prefácio assinado por Carrie King (Global CIO,
Fundamental Equities) e Raffaele Savi (Global Head of Systematic), a gestora de
ativos norte-americana defende que “se 2025 foi o ano dos mega caps e do
momentum, 2026 começa com sinais de reversão”.
Os gigantes tecnológicos que impulsionaram os ganhos nos
últimos anos estão a perder força. Preocupações com a disrupção da IA
provocaram quedas acentuadas no setor de software, enquanto as ações de small
caps e de value ultrapassam as large caps growth. Os setores
que lideram o ano até agora — energia, materiais e bens de consumo defensivos —
eram precisamente os piores de 2025.
Ações mais baratas (value) e empresas pequenas (small
caps) estão a ganhar destaque. Setores que estavam fracos em 2025 — como
energia e materiais — agora lideram.
Jeff Shen e Philip Hodges, responsáveis pela Systematic
Active Equities, destacam que o mercado deixou de tratar a IA como um tema
uniformemente positivo. Os investidores agora fazem perguntas mais duras: “Quem
captura as receitas e quem suporta os custos? Quão sustentáveis são as margens
com a concorrência a intensificar-se?”
Isto é, antes, tudo o que envolvia IA subia. Agora os
investidores são mais exigentes: querem saber quem realmente ganha dinheiro com
isso.
Resultado: há mais diferenças entre empresas e novas
oportunidades fora das gigantes tecnológicas.
O resultado é maior dispersão dentro da tecnologia e o
alargamento dos ganhos de resultados para além do punhado de mega caps. “O
crescimento já não se limita aos primeiros beneficiários da IA”, afirmam.
A BlackRock vê oportunidades em camadas mais profundas da
cadeia de valor da IA, onde os valuations (avaliações) ainda são
atrativos. “Contra-intuitivamente, o fator value está a superar o growth
precisamente num ambiente de crescimento abundante”, diz a gigante da gestão de
ativos.
Apesar da volatilidade elevada (avaliações altas,
concentração anterior e incerteza geopolítica), a BlackRock mantém-se assim
otimista: “Vemos abundantes oportunidades em ações a nível global”, segundo a
sociedade gestora que defende que o ambiente atual exige “gestão ativa e
dinâmica, com maior seletividade e flexibilidade para capturar a rotação em
curso”.
Carrie King dedica uma secção inteira à “construção de um
mercado acionista americano mais amplo”. Após anos de concentração extrema — os
10 maiores títulos representavam quase 40% do S&P 500 no final de 2025 —, o
índice equal-weighted está a superar o market-cap-weighted em
2026. A rotação é visível: energia e materiais lideram, enquanto tecnologia e
comunicação sofrem com receios de disrupção da IA.
A gestora da BlackRock identifica três áreas com potencial.
Ações “value” (mais baratas, com desconto histórico de 43% face à
média); empresas que pagam bons dividendos; e IA aplicada a áreas menos óbvias,
como saúde (diagnóstico, descoberta de fármacos).
Helen Jewell, International CIO, faz um “tour global” pelos
mercados com maior atratividade e diz que na Europa a Defesa “continua barata
mesmo após ganhos de 350% em três anos”.
Em resumo, na Europa o setor da defesa e os bancos são considerados ainda “baratos”. No Reino Unido a BlackRock aponta ações com desconto, especialmente pequenas empresas.
O FTSE 100 está em máximos, mas a negociar com desconto face aos Estados Unidos (EUA). A BlackRock aponta as small caps britânicas como estando nos níveis mais atrativos em 20 anos.
No Brasil, a BlackRock destaca a economia a melhorar e a possibilidade de cortes de juros. Este é o destaque no que toca a mercados emergentes. O Brasil destaca-se — 10% abaixo da média histórica, com PMI em expansão e corte de juros previsto de até 300 pontos base em 2026, diz a gestora de ativos.
Já o Japão tem um destaque positivo devido às reformas e ao
crescimento empresarial. O grande destaque, após a vitória eleitoral de
fevereiro de Sanae Takaichi, vai para o facto de o país ter um governo
pró-crescimento, com orçamento suplementar recorde e normalização gradual das
taxas. As empresas japonesas continuam a melhorar ROE (return on equity na
tradução inglesa) e a reduzir o número de títulos cotados abaixo do valor
contabilístico (de 50% em 2022 para 29% hoje). A revisão do Código de Corporate
Governance em 2026 deverá acelerar a libertação de capital, segundo a gestora.
Fonte: O Jornal Económico, 31 de março de 2026

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