Governo apela a 54 empresas de Vale de Cambra para se envolverem na indústria da Defesa
Na
chamada “capital do inox”, o ministro da Defesa sublinhou que as empresas
portuguesas "podem estar no circuito de produção ou, pelo menos, de
manutenção da indústria da Defesa”
O ministro da Defesa apelou a 54 empresas de Vale de Cambra
para que se envolvam na “produção ou manutenção” de bens para a indústria
militar, aproveitando as oportunidades da
“revolução” em curso após “30
anos sem investimento”.
No concelho do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do
Porto que é conhecido como “capital do inox” e considerado uma referência da
metalomecânica de precisão, Nuno Melo dirigiu um
encontro “pedagógico” em que obteve da autarquia local, de duas
entidades ligadas à formação profissional e da Associação Empresarial de Cambra
e Arouca o compromisso de funcionarem como intermediários entre entidades da
tutela e fábricas, para assegurar que essas tomam conhecimento “em tempo real”
das oportunidades de negócio envolvendo as Forças Armadas.
“Durante 30 anos não se investiu na Defesa nacional”,
declarou o governante. “Agora as empresas portuguesas podem estar no circuito
de produção ou, pelo menos, de manutenção da indústria da Defesa”, afirmou,
defendendo que está em curso uma “renovação do arsenal” militar português
destinada a substituir equipamento como “blindados obsoletos e fragatas em fim
de vida”.
Nesse contexto, o propósito do encontro foi assegurar que as
oportunidades existentes chegam ao conhecimento da indústria nacional. “Se os
empresários não souberem quais são as oportunidades que existem, eles próprios
muitas vezes não conseguem direcionar o investimento para estas áreas e por
isso é que digo que esta é uma revolução que está em curso”, explicou o
governante.
Moldes, cablagens, pintura,
metalomecânica, serviços de informática, tecnologias de informação, proteção
balística, têxteis à prova de metal, radares e rações de combate são algumas
das áreas que Nuno Melo apontou como “transversais a qualquer produção”
no setor da Defesa e para as quais reconheceu capacidade industrial em Vale de
Cambra, atendendo a que o município “está preparado há muito” para entrar nesse
domínio de atividade.
“O distrito de Aveiro, aliás, é um bocadinho como Portugal
devia ser do ponto de vista do empreendedorismo e, de facto, extraordinário,
porque as pessoas veem as oportunidades, fazem-se
à vida, investem, arriscam e depois têm resultados com empresas que
são de ponta em diferentes áreas e de classe global”, realçou.
No mesmo encontro participou também o responsável da
Direção-Geral de Armamento e Património da Defesa, António José Baptista, que
revelou que, para uma empresa concorrer às oportunidades de negócio no universo
militar, o primeiro passo deve ser a sua credenciação no Gabinete Nacional de
Segurança, que atestará a idoneidade da firma após verificação de aspetos como
o registo criminal de todos os elementos da estrutura acionista.
A fase seguinte será a certificação da empresa como apta a
produzir para a Defesa, o que compete à referida Direção-Geral de Armamento e
envolve o que o próprio António José Baptista classificou como “um processo
moroso”, devido a fiscalizações de segurança destinadas a acautelar espionagem
e outros conflitos de interesses.
Depois disso há então que seguir os anúncios da plataforma
idD – Portugal Defence, onde são publicados os concursos públicos relativos a
compras das Forças Armadas.
Notando que um dos critérios de seleção nesses procedimentos
é “o retorno para a economia nacional”, o governante salientou, contudo, que a
produção destinada a satisfazer as solicitações dos militares portugueses pode
ter um mercado mais abrangente, já que as empresas certificadas como
fornecedoras da Defesa têm obrigatoriamente que cumprir os parâmetros
produtivos da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que integra
atualmente 32 países.
Nesse sentido, há potencial de negócio mesmo em pequenos
componentes – que até são menos exigentes em termos de licenciamento – e é por
isso que Nuno Melo quer as associações empresariais a sensibilizarem as
fábricas para oportunidades que podem servir o mundo inteiro, mas serão
particularmente úteis na Europa, face à perda de antigos aliados e à
necessidade crescente de autonomia militar.
“Temos que fazer mais do que fazíamos pela Defesa na NATO”,
afirmou o ministro. “Porque a primeira preocupação que um estado deve ter é
que, se os nossos militares forem chamados a combater – e esses serão em
primeiro lugar os nossos jovens –, eles tenham as melhores condições para
sobreviver. Quando falhar tudo o resto, quem lá estará serão os militares”,
concluiu.
Fonte: ECO, 20 de março de 2026

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