Porque o ataque de Israel ao campo de gás South Pars do Irão representa uma escalada na guerra?
Os
ataques a infraestruturas energéticas no Golfo Pérsico, incluindo a maior
reserva de gás natural do mundo, estão a agravar a crise no fornecimento global
e a fazer disparar os preços. Uma breve explicação da importância do campo de
gás iraniano South Pars para o mundo e das consequências do ataque israelita
Um ataque israelita a instalações iranianas no campo de gás
de South Pars desencadeou uma resposta do Irão contra infraestruturas
energéticas na região.
A tensão já estava a pressionar os mercados, numa altura em
que o bloqueio do Estreito de Ormuz dificultava o transporte de petróleo e gás.
Os novos ataques vieram agravar ainda mais os receios sobre o fornecimento
global.
O impacto foi imediato: os preços do petróleo e do gás
natural liquefeito (GNL) subiram, refletindo o risco acrescido sobre algumas
das principais rotas e infraestruturas energéticas do mundo.
South Pars/North Dome: a maior reserva de gás natural
do mundo
O campo de South Pars, localizado no Golfo Pérsico, é a maior reserva de gás natural conhecida. É partilhado entre o Irão e o Qatar, que designa a sua parte como North Dome ou Domo Norte.
No total, estima-se que o campo contenha cerca de 51 mil
biliões de metros cúbicos de gás utilizável, o suficiente para satisfazer as
necessidades globais durante cerca de 13 anos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) contém
ainda cerca de 50 mil milhões de barris (7,9 mil milhões de metros cúbicos) de
condensados de gás natural.
Para o Irão, trata-se de uma infraestrutura crítica: a maior
parte do gás produzido destina-se ao consumo interno. Em 2024, o país produziu
cerca de 276 mil milhões de metros cúbicos de gás, dos quais 94% foram
consumidos internamente.
Qualquer interrupção pode afetar diretamente a produção de
eletricidade e o aquecimento, num país que já enfrenta falhas energéticas.
O papel do Qatar e o impacto para a Europa
Do lado qatari, o campo é uma peça central do mercado global
de gás natural liquefeito. O país é um dos maiores exportadores mundiais de GNL
e tem investido milhares de milhões no desenvolvimento da sua parte da reserva.
Grande parte desse gás é processado na cidade industrial de
Ras Laffan, um dos principais centros energéticos do mundo. É daqui que sai uma
fatia significativa do GNL consumido na Europa.
Segundo analistas, cerca de um quinto do fornecimento global
de GNL tem origem no Qatar. Qualquer interrupção prolongada poderá ter impacto
direto nos preços e na disponibilidade de gás, especialmente na Europa, que
depende de importações.
Retaliação iraniana e danos em infraestruturas
Em resposta ao ataque a South Pars, o Irão atingiu Ras
Laffan, no Qatar, provocando danos descritos como extensos pela empresa estatal
QatarEnergy.
As operações já estavam parcialmente interrompidas desde o
início de março, mas os novos danos poderão atrasar ainda mais a retoma da
produção.
O Irão terá também atacado refinarias na Arábia Saudita, um
campo petrolífero nos Emirados Árabes Unidos, há também relatos de ataques a
instalações no Kuwait e de interceções de quatro mísseis balísticos na Arábia
Saudita, que se dirigiam para Riade, aumentando o risco de alastramento do
conflito a toda a região.
Reação regional e risco de escalada
Vários países do Golfo condenaram os ataques. Os Emirados
Árabes Unidos classificaram-nos como uma “grave escalada”, enquanto o Qatar os
considerou uma medida “perigosa e irresponsável”.
A Arábia Saudita declarou que se reserva o direito de
responder militarmente e afirmou ter intercetado um míssil iraniano dirigido ao
porto de Yanbu, uma infraestrutura estratégica para exportações de petróleo,
sobretudo face às limitações no Estreito de Ormuz.
Irão: terceiro maior produtor de petróleo
O Irão é o terceiro maior produtor de petróleo da OPEP e
representa cerca de 4,5% da produção global de petróleo.
Produz aproximadamente:
• 3,3 milhões de barris por dia de crude
(4,6 milhões em 2024)
• 1,3 milhões de barris por dia de
condensados e outros líquidos
Exporta cerca de 90% do petróleo através da ilha de Kharg,
dependente da passagem pelo Estreito de Ormuz.
Entre o final de fevereiro e meados de março, as exportações
variaram entre 1,1 e 1,5 milhões de barris por dia.
O país tem também acumulado reservas recorde em alto-mar,
estimadas em cerca de 200 milhões de barris, uma estratégia para contornar
sanções e mitigar riscos de interrupção.
Quem compra o petróleo iraniano
Apesar das sanções dos Estados Unidos, o Irão tem mantido
exportações através de práticas como:
• transferências de petróleo entre navios em
alto-mar
• ocultação da origem do crude
• desligamento de sistemas de rastreamento
As refinarias privadas chinesas são os principais compradores de crude iraniano. Ainda assim, há sinais de redução nas compras por parte da China.
Fonte: SIC Notícias, 21 de março de 2026



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