Short Message Service
Whitstable
Pearl (2021) - Howard Charles, Sophia Del Pizzo
O
domínio do pensamento deve continuar livre justamente para que o domínio da
ação possa ser julgado com rigor. Uma democracia que começa a punir imaginações
acaba a policiar entrelinhas
Esta semana, Portugal acordou com dois espelhos quebrados na
mão. Num deles, Coimbra: áudios e mensagens racistas, xenófobas e misóginas,
partilhados num grupo com centenas de estudantes, com referências que chegaram
à apologia nazi. No outro, Oeiras: conversas entre alunos de uma escola, com
ameaças e projeções armadas, entre facas, “atentados” e a coreografias do
homicídio.
Dois casos diferentes, duas idades diferentes, dois
contextos diferentes — mas com uma família de semelhanças inquietantes:
WhatsApp, grupo, bolha, excesso, provocação, contágio e, claro, o sobressalto
público. O denominador comum não é apenas o mau gosto; é a sensação coletiva de
que qualquer coisa saltou da caixa. E quando Portugal sente algo a escapar-lhe,
trata logo do pelotão de fuzilamento.
Condeno, sem tibiezas nem notas de rodapé, qualquer atitude
racista, xenófoba ou discriminatória. Não sofro de qualquer romantização do
preconceito, nem de tolerâncias para com a selvajaria moral.
Mas condenar não obriga a perder a cabeça. Pelo contrário:
obriga a ganhá-la. E por isso talvez convenha baixar o volume da sirene
nacional, pousar o archote cívico e pensar com alguma serenidade.
Primeira nota: estamos a falar de mensagens privadas.
Privadas não quer dizer inocentes, claro. Mas quer dizer qualquer coisa. Numa sociedade democrática, a revelação do conteúdo de conversas privadas deve,
pelo menos, levantar uma sobrancelha filosófica. Hoje, a multidão
abre o telemóvel dos outros em nome do Bem; amanhã talvez abra a gaveta, o
diário, a alma em nome do quê? E a História ensina-nos que o moralismo, quando
ganha farda, raramente fica pelo primeiro degrau.
Segunda nota: são mensagens, não são atos. São palavras,
bravatas, imaginação, pulsão, exibição, pensamento partilhado — que é uma coisa
feia, por vezes repugnante, mas ainda não é o mesmo do que ação. O domínio do
pensamento deve continuar a ser livre, justamente para que o domínio da ação
possa ser julgado com rigor. Uma democracia que
começa a punir imaginações acaba, mais cedo ou mais tarde, a policiar
entrelinhas. E isso, convenhamos, é um péssimo upgrade
civilizacional.
Claro que existe aqui uma magra fronteira, gelo fino, entre
a boçalidade e a criminalidade, entre a fantasia e o incitamento ao ódio. Mas
essa fronteira, a ser vigiada, tem de ser observada com pinças, não com
histerias. Com critério, não com pânico. Porque o problema das sociedades em
estado febril é confundirem justiça com catarse.
E atenção: quanto mais se asfixia a expressão de pensamentos
extemporâneos, fugazes, agressivos ou socialmente inaceitáveis, mais se arrisca
a empurrá-los para zonas menos visíveis e, por isso mesmo, mais perigosas. O
que não pode ser simbolizado, metabolizado, processado tende a regressar em
ato. Entra em curto-circuito. Aquilo que não encontra a palavra procura saída
por outro lado — e normalmente não escolhe a porta mais elegante.
Não se trata de desculpar. Não se trata de relativizar o
repugnante. Trata-se de impedir que o repugnante seja administrado por
convulsões coletivas, justiça performativa e pedagogia de linchamento.
Entre o “qual é o mal?” e o “prendam já toda a gente”,
talvez ainda existam mares de possibilidades. Só que evitar polarizações e
estertores, pensar, analisar, ponderar e demorar também está quase proibido. Só
vale mandar mensagens.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 18 de março de 2026




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