Alemanha lança estratégia militar inédita com foco na Rússia
Pela
primeira vez no pós-guerra, as Forças Armadas alemãs divulgam uma estratégia
militar para cenários de conflito. O documento descreve a Rússia como a “maior
e mais imediata ameaça previsível” à segurança da Alemanha
Perante o agravamento das ameaças internacionais, as Forças
Armadas alemãs — a Bundeswehr — adotaram, pela primeira vez, uma estratégia
militar formal. Segundo o governo, o mundo
tornou-se mais imprevisível e perigoso desde
que a Rússia iniciou a guerra contra a Ucrânia, colocando seriamente em causa a
ordem jurídica
internacional.
“Raramente uma estratégia militar foi tão necessária como
neste momento histórico”, afirmou o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius,
na apresentação do documento em Berlim.
A estratégia identifica a Rússia como a principal ameaça à
segurança alemã e transatlântica, referindo que “está
a criar as condições para um ataque militar contra Estados-membros da NATO”.
O documento analisa ainda a forma como a Bundeswehr, criada
há cerca de 70 anos, deverá responder a diferentes cenários de guerra — por
exemplo, um eventual ataque russo a território de um Estado-membro da NATO. A
maior parte dos detalhes permanece classificada. “É evidente que não podemos
tornar esses cenários públicos. Caso contrário, poderíamos simplesmente incluir
Vladimir Putin na nossa lista de e-mails”, ironizou Pistorius.
Efetivos crescem lentamente
É conhecido que a Bundeswehr está a tentar aumentar
significativamente os seus efetivos. No total, prevê-se que cerca de 460 mil
militares estejam disponíveis até meados da década de 2030, incluindo 200 mil
reservistas.
O objetivo é criar, num prazo
de quatro anos, o exército convencional mais forte da Europa, com um
crescimento acelerado que permita reforçar a prontidão defensiva.
Este esforço decorre também das crescentes exigências da
NATO em matéria de defesa coletiva. No entanto, o recrutamento constitui o
principal desafio, como o próprio Pistorius reconheceu no ano passado.
Apesar de campanhas intensivas, o crescimento tem sido
lento. No final de março, as forças armadas contavam com cerca de 185 400
militares no ativo, mais 3300 do que no mesmo período do ano anterior.
Desburocratização e modernização
O ministro deposita expectativas no novo modelo de serviço
militar, introduzido no início do ano. Através de uma combinação de incentivos
e obrigações — incluindo a convocação para exames médicos de todos os jovens do
sexo masculino —, pretende-se aumentar o número de voluntários.
Caso tal não seja suficiente, o serviço militar obrigatório,
suspenso em 2011, poderá ser reativado. Ainda assim, segundo o secretário de
Estado da Defesa, Nils Hilmer, essa hipótese não está atualmente em cima da
mesa.
Outra prioridade é a simplificação administrativa e a
modernização das forças armadas. Atualmente, militares têm de lidar com uma
elevada carga burocrática, com regulamentos detalhados e numerosos formulários.
O ministério da Defesa pretende reformar este sistema
através de 153 medidas e 580 ações concretas. “Todas as regras internas
passarão a ter um prazo de validade definido”, anunciou Pistorius. Findo esse
prazo, as normas que deixarem de ser úteis serão automaticamente eliminadas.
Está igualmente prevista a criação de uma carteira digital
que reunirá, no futuro, todos os documentos pessoais dos militares.
Estratégia de longo prazo
Os planos apresentados partilham uma característica comum:
não estabelecem metas rígidas a prazo fixo, funcionando antes como “documentos
vivos”, suscetíveis de revisão contínua.
A estratégia prevê também que a Alemanha assuma um papel
mais forte de liderança na NATO, aliviando parcialmente os Estados Unidos do
peso da defesa da aliança. Durante a presidência de Donald Trump, crítico da
NATO, Washington pressionou os aliados europeus a aumentarem as despesas
militares e a assumirem maior responsabilidade, nomeadamente no apoio à
Ucrânia.
Com esta nova abordagem, a Bundeswehr procura ganhar maior
flexibilidade e adotar uma nova mentalidade. “Queremos abandonar a antiga
lógica de compartimentação”, afirmou Pistorius.
Na oposição, Ulrich Thoden, porta-voz para a defesa do
partido A Esquerda, considerou a estratégia “coerente e necessária face ao
nível real de ameaça representado pela política agressiva da Rússia”,
sublinhando, contudo, que tal não implica que a Alemanha deva ambicionar
tornar-se uma grande potência militar.
Enquanto cresce o interesse em ingressar na Bundeswehr, há
também grupos de jovens que se mobilizam contra as iniciativas de recrutamento
promovidas pelo governo alemão.
Fonte: DW, 23 de abril de 2026

Comentários
Enviar um comentário