China quer regular os “humanos digitais” e as regras vão muito além do que se esperava


As autoridades em Pequim propuseram a criação de um conjunto de regras inéditas para governar as plataformas de inteligência artificial de companhia e os avatares virtuais. Estas proíbem relações íntimas com menores, exigem intervenção em casos de pensamentos suicidas e obrigam à identificação permanente de todo o conteúdo gerado por IA

O boom das plataformas de companhia virtual chegou à mesa do regulador chinês, com a Administração do Ciberespaço da China (CAC) a publicar no passado dia 3 de abril um conjunto de regulamentos preliminares para governar os chamados “humanos digitais”. Estas são entidades virtuais com aparência e comportamento humanos, capazes de manter conversas, simular emoções e criar laços prolongados com os utilizadores.

O documento foi colocado em consulta pública até 6 de maio, mas o seu conteúdo já está a gerar atenção internacional. A própria CAC enquadrou a questão em termos que vão além da regulação setorial, afirmando que “a governação dos humanos virtuais digitais já não é meramente uma questão de normas industriais, mas tornou-se um problema científico estratégico que diz respeito à segurança do ciberespaço, ao interesse público e ao desenvolvimento de qualidade da economia digital.”

As regras propostas assentam em vários pilares, sendo o mais imediato a da obrigação de identificação. Todo o conteúdo que envolva um humano virtual terá de ostentar, de forma permanente e visível, a etiqueta “humano digital”. Desta forma evita-se que os utilizadores fiquem na dúvida sobre se estão a interagir com uma pessoa real ou com uma construção de inteligência artificial (IA). A exigência parece simples, mas representa uma mudança significativa para plataformas cujo valor comercial assenta precisamente na ilusão de autenticidade.

A proteção de menores ocupa a parte mais detalhada do regulamento, com a proposta a proibir a oferta de relações íntimas virtuais a menores de 18 anos, incluindo figuras parentais ou parceiros românticos simulados. São igualmente proibidos serviços que possam induzir a gastos excessivos, encorajar comportamentos prejudiciais ou afetar negativamente a saúde física e mental dos mais jovens. As plataformas que forneçam serviços de companhia emocional a menores terão ainda de obter consentimento expresso dos encarregados de educação.

Juntamente com essa autorização, as plataformas são obrigadas a disponibilizar ferramentas de controlo parental, a integrar um “modo para menores” com lembretes periódicos de que o interlocutor não é humano, bem como aplicar limites de tempo de utilização. Outro dos temas mais debatidos está relacionado com os procedimentos em situações de crise. Sempre que um utilizador manifeste intenções de suicídio ou de automutilação, os fornecedores de serviço são obrigados a transferir a conversa para um operador humano e a contactar os familiares ou os contatos de emergência do utilizador.

Esse tipo de contatos será obrigatório tanto para o registo de utilizadores menores como de idosos. O regulamento também obriga à criação de um mecanismo de alerta para utilizações prolongadas. Sempre que o tempo de utilização contínua ultrapassar as duas horas, a plataforma é obrigada a emitir um aviso para que o utilizador faça uma pausa. No plano dos dados e da identidade, as regras são igualmente restritivas.

Fica proibida a criação de humanos digitais com recurso a informações pessoais de terceiros sem consentimento explícito, bem como a utilização de avatares virtuais para contornar sistemas de verificação de identidade. Esta é uma referência obrigatória para evitar a criação de situações de fraude e do uso de IA para evasão de controlos. O regulamento proíbe ainda explicitamente que humanos digitais difundam conteúdo que ponha em causa a segurança nacional, incite à subversão do poder do Estado ou promova a separação territorial.

Todas as plataformas com mais de um milhão de utilizadores registados ou 100 mil utilizadores ativos mensais terão ainda de submeter relatórios de avaliação de segurança às autoridades. O timing da criação destas regras é particularmente relevante, já que no mês passado o Estado Chinês tinha formalizado um novo plano de cinco anos relativamente à suas ambições na adoção da IA em toda a economia. Desta forma, a China não só aposta em pleno na tecnologia, como estabelece regras claras para que o seu uso seja controlado e seguro.

Fonte: tek noticias, 6 de abril de 2026

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