Financiamento dos partidos: Chega avança com projeto para limitar conhecimento público dos doadores e sugere regras para jornalistas
Anitta Olivieri
Ventura
pretende que a lei salvaguarde a privacidade de quem doa dinheiro aos partidos
políticos e sugeriu aplicar as regras dos políticos aos órgãos de comunicação
social e aos jornalistas, considerando que a questão "pode ser
estudada"
O Chega vai entregar um projeto de lei no parlamento para
clarificar as regras quanto à divulgação dos financiadores dos partidos, propondo o que considera ser um equilíbrio maior entre
transparência e privacidade, além de mais meios para a fiscalização.
A iniciativa foi anunciada pelo líder do partido, André Ventura, em conferência
de imprensa na sede do partido, em Lisboa, mas não foi divulgada aos
jornalistas e ainda não está disponível no site da Assembleia da República.
Contudo, pelas palavras de André Ventura, percebe-se que o objetivo passa por
limitar a divulgação pública de dados identificativos dos doadores, como o
número de identificação fiscal, que até há pouco tempo podiam ser consultados
publicamente.
"O Chega quer levar ao parlamento uma verdadeira
reforma da transparência, procurando garantir que todas as entidades públicas e
todas as entidades de interesse público revelam quem são os seus financiadores,
quem são aqueles que apresentam ou fazem donativos, que são reforçados os meios
das entidades de contas e de transparência, que garantam o controlo e a
fiscalização destas entidades e que todos possam garantir que, neste caso, há
direitos salvaguardados de natureza privada e familiar, mas que não colocam em
causa a estabilidade da vida pública e a sua própria transparência",
afirmou.
O deputado defendeu que "todos os donativos, inclusive
e especialmente aqueles que têm valor mais elevado, devem ter uma divulgação
nominativa e devem ser conhecidos nos seus vários elementos por uma questão de
transparência", mas a legislação nesta
matéria deve salvaguardar a privacidade dos doadores, sem que sejam revelados,
por exemplo, o número de identificação fiscal, a morada ou informações
profissionais. Até há pouco tempo, o número de identificação fiscal
fazia parte dos dados que podiam ser consultados, sendo bastante relevante para
identificar em concreto quem eram os doadores, ainda mais quando estes não eram
comunicados com os nomes completos.
A questão da publicidade dos donativos privados a partidos
colocou-se na praça pública devido ao impedimento decidido pela Entidade das
Contas e Financiamentos Políticos, depois de um parecer da Comissão de Acesso
aos Documentos Administrativos. Na sequência dessa decisão, vários partidos,
como o Bloco de Esquerda, o Livre e o PS, já anunciaram projetos de lei para
clarificação do princípio do acesso público à informação sobre as contas dos
partidos e das campanhas eleitorais.
Na semana passada, contudo, o Chega forçou o adiamento da
votação em comissão do requerimento do BE para que a Entidade das Contas e a
CADA sejam ouvidas no Parlamento.
Esta segunda-feira, André Ventura defendeu também um reforço
de meios das entidades fiscalizadoras, afirmando que o "Chega não vai
permitir que o governo basicamente acabe com o Tribunal de Contas" ou que
"procure amordaçar as entidades de fiscalização para garantir opacidade ou
para garantir o esconderijo de algumas informações".
"Sabemos que a Entidade para a Transparência apenas
controlou 10% das declarações feitas por políticos até 2026. Este é um valor
particularmente preocupante" porque "fica impossível escrutinar o
conflito de interesses", sustentou. O Chega vai propor ainda "sanções
mais eficazes" e com "maior visibilidade pública".
Declarações para jornalistas é "questão que pode
ser estudada"
O presidente do Chega defendeu também que o financiamento
dos órgãos de comunicação social deve ser claro, propondo uma equiparação das
regras às que são aplicadas aos altos titulares de cargos públicos. Questionado
se o partido quer que também os jornalistas apresentem declarações de
património, rendimentos ou interesses, Ventura respondeu que essa é "uma
questão que pode ser estudada".
O líder do Chega considerou também ser possível negociar
alterações à lei do financiamento dos partidos com PSD e PS e disse não ter
lido as palavras do presidente da Assembleia da República na cerimónia do 25 de
Abril como "uma tentativa de voltar atrás em matéria de
transparência", mas sim "como um alerta para determinados abusos e
determinadas situações de desequilíbrio".
Na ocasião, Ventura foi também questionado sobre a posição
da Comissão da Liberdade Religiosa, que acusa dirigentes do partido da Madeira
- entre os quais o deputado Francisco Gomes ou o líder regional Miguel Castro -
de declarações discriminatórias e de incitamento ao ódio e à violência contra a
comunidade islâmica.
André Ventura considerou que "não deve ser a Comissão de Liberdade Religiosa a fazer notícia de crimes, deve ser o Ministério Público, [ou] as polícias".
O presidente do Chega defendeu que tem existido uma
tentativa de criminalização do discurso, em vez de debater politicamente, e uma
tentativa de silenciar adversários, e afirmou que "as ditaduras não
começam com discursos no parlamento, começam com a perseguição judicial de
adversários políticos".
Fonte: Expresso, 27 de abril de 2026

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