Há uma coisa que todos os turistas fazem no Japão e que os japoneses consideram profundamente rude. Ninguém avisa antes de partir

Perry Mason (1957-1966) – Edmon Ryan, Paula Raymond, Raymond Burr, Karyn Kupcinet

Não é tirar os sapatos à entrada nem comer na rua. É algo muito mais subtil, mais japonês, e que muda tudo quando finalmente se percebe o que significa

Existe no Japão um conceito sem tradução direta que organiza a vida pública com mais eficácia do que qualquer legislação: meiwaku, que se pode descrever aproximadamente como "causar incómodo aos outros". Falar ao telefone num comboio é meiwaku. Pôr a mochila no assento ao lado numa carruagem cheia é meiwaku. Discutir um problema em voz alta num espaço partilhado é meiwaku. Os turistas fazem tudo isto constantemente, com a inocência de quem não foi avisado, e os japoneses observam com a paciência de quem percebe que o visitante simplesmente não sabe. O problema é que não saber não é o mesmo que não importar. A leitura que os locais fazem permanece.

Perceber o meiwaku antes de chegar é a chave de leitura de quase tudo o que desconcerta na cultura japonesa: o silêncio nos transportes públicos, a forma como os toalhetes de papel para limpar as mãos são devolvidos cuidadosamente dobrados depois de utilizados, a ausência de caixotes do lixo em espaços públicos num país onde o lixo na rua praticamente não existe. O Japão funciona por uma noção coletiva de responsabilidade partilhada que é cultural, antiga e profundamente resistente à explicação racional.

Os comboios são o laboratório mais claro dessa lógica. O Shinkansen é pontual ao segundo, limpo com uma precisão que envergonha qualquer metropolitano europeu e silencioso de uma forma que leva algum tempo a perceber que não é acidental. Os passageiros comem os seus ekiben, as marmitas regionais vendidas em cada estação com produtos locais específicos, sem levantar a tampa ruidosamente, sem comentar o conteúdo em voz alta. A refeição é individual, contida, íntima mesmo em espaço público. É, em resumo, o oposto do que acontece na maior parte dos comboios do mundo.

No Japão, a gorjeta apenas não é praticada: é considerada um insulto que coloca o prestador de serviço numa posição de inferioridade que contradiz a filosofia do omotenashi, a hospitalidade japonesa que não é serviço mas presença, antecipação, atenção ao detalhe antes de o detalhe ser pedido. Deixar dinheiro na mesa depois de um jantar cria constrangimento real.

Fonte: SAPO, 14 de abril de 2026 

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