Ministério Público arquiva inquérito sobre alegado assédio no CES da Universidade de Coimbra
Boaventura
de Sousa Santos disse à Lusa que é a confirmação de que “nunca houve denúncias”
contra si. “A intenção das denunciantes era difamar-me e cancelar-me”,
sublinhou
O Ministério Público (MP) determinou o arquivamento do
inquérito relacionado com alegadas situações de assédio no Centro de Estudos
Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, após análise do relatório enviado
pela comissão independente e da carta do coletivo de mulheres.
O inquérito teve origem no relatório final da Comissão
Independente de Esclarecimento de Situações de Assédio no CES, que foi
apresentado publicamente em março de 2024, bem como numa carta em que um
coletivo de 13 mulheres instou as autoridades judiciárias portuguesas a
investigarem com urgência as alegadas condutas criminosas mencionadas no
relatório.
O relatório então divulgado confirmava a existência de
padrões de conduta de abuso de poder e assédio, por parte de pessoas em
posições hierarquicamente superiores, sem especificar nomes, tendo sido
denunciadas à comissão independente 14 pessoas, por 32 denunciantes, num total
de 78 denúncias.
No despacho de arquivamento a que a agência Lusa teve
acesso, o MP explica que condutas descritas no
relatório seriam suscetíveis de integrar a prática de crimes contra a liberdade
sexual, que dependem da apresentação de queixa por parte das vítimas, no
entanto, “da análise dos elementos reunidos e das pesquisas efetuadas”,
verificou-se que “nenhuma das ofendidas apresentou queixa por tal
factualidade”, no prazo de seis meses.
“Na ausência de queixa por parte das ofendidas, carecendo o
MP de legitimidade para o exercício da ação penal (…), determino o arquivamento
dos autos neste particular”, justifica.
Contactado pela Lusa, Boaventura de Sousa Santos sublinhou
este arquivamento é a confirmação do que sempre afirmou: de que “nunca houve
denúncias” contra si, “no único lugar em que deviam ter sido feitas: nos
tribunais”.
“Nunca quiseram discutir os
factos que me imputavam no local próprio, que tem regras, e que são os
tribunais. A intenção nunca foi a de haver reparação ou punição, a intenção das
denunciantes foi apenas uma: utilizando a comunicação social, difamar-me e cancelar-me,
o que conseguiram”, sustentou.
Questionado sobre a morosidade da análise do relatório final
da Comissão Independente e dos relatos enviados pelo coletivo de mulheres, o
investigador admitiu que gostaria que “esta decisão tivesse sido proferida há
mais tempo”.
“Como não tive acesso à totalidade do processo, não posso
dizer se a conclusão do MP foi morosa ou não. O que posso dizer é que esta
decisão já seria do conhecimento do CES e, eventualmente, das denunciantes,
desde dezembro de 2024, e o facto de nunca ninguém lhe ter feito referência
demonstra que houve uma tentativa para que ela não fosse do conhecimento
público”, defendeu.
A Lusa falou ainda com a advogada Lara Roque Figueiredo,
representante de algumas das mulheres que integram o coletivo de denunciantes,
que confirmou ter tido conhecimento deste despacho do MP.
“O conhecimento que nós temos é que, efetivamente, quanto a
esses factos e quanto a esses crimes especificamente, e porque dependem de
queixa, foi arquivado. Contudo, há factos que podem alegadamente configurar
outro tipo de crimes, esses públicos, e que o Ministério Público ia continuar a
investigar”, informou.
Três investigadoras que passaram pelo CES da Universidade de
Coimbra denunciaram situações de assédio num capítulo do livro intitulado “Má
conduta sexual na Academia - Para uma Ética de Cuidado na Universidade”, o
que levou a que os investigadores Boaventura de Sousa Santos e Bruno Sena
Martins acabassem suspensos de todos os cargos que ocupavam no CES, em abril de
2023.
O CES acabou por criar, uns meses depois, uma comissão
independente para averiguar as denúncias, tendo divulgado o seu relatório quase
um ano depois.
Em setembro de 2024, Boaventura de Sousa Santos intentou
ações cíveis para tutela da personalidade no Tribunal de Coimbra, contra as 13
investigadoras e antigas estudantes do CES da UC, mas acabaria por desistir,
optando pelo processo-crime por difamação que foi arquivado.
Fonte: Diário de Notícias, 14 de abril de 2026

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