A CIA está a realizar atentados com carros armadilhados contra narcotraficantes no México?
Reportagens
recentes sugerem que os agentes secretos estão a desempenhar um papel cada vez
maior na luta contra os cartéis, agora considerados terroristas por Trump
A 28 de março, uma carrinha de caixa aberta explodiu numa
autoestrada a norte da Cidade do México, matando dois alegados membros de um
cartel. Uma das vítimas foi identificada como Francisco Beltrán, vulgo "El
Payín", um alegado tenente do patrão do Cartel de Sinaloa, "El
Meño".
A história foi amplamente ignorada nos EUA. Mas reportagens
recentes do The New York Times e da CNN sugerem que as mortes
podem fazer parte de uma campanha ilegal do Departamento Terrestre da CIA
dentro do México.
As alegações surgem poucas semanas após as mortes de dois agentes da CIA em Chihuahua, no
México, bem como a acusação formal, por parte dos EUA, do governador de
Sinaloa, Rubén Rocha Moya, por tráfico de droga. Insatisfeita com as repetidas
negas da presidente mexicana Claudia Sheinbaum relativamente a uma intervenção
militar dos EUA contra os cartéis de droga do país, a administração Trump
parece cada vez mais aberta a testar os limites da longa cooperação em matéria
de segurança entre Washington e a Cidade do México.
Embora seja difícil separar o facto da ficção nas alegações,
a triste verdade é que parecem bastante plausíveis. Em 2025, a administração
Trump designou grupos como o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração
(CJNG) como organizações terroristas estrangeiras, concedendo a agências como a
CIA justificação legal para ações secretas contra os cartéis mexicanos. Grande
parte da linguagem utilizada tanto pela CNN como pelo The New York
Times é deliberadamente ambígua, baseando-se em fontes não identificadas da
agência.
A CNN afirma que o atentado com um carro armadilhado
em março “foi um assassinato premeditado, facilitado por agentes da CIA”,
enquanto o The New York Times refere que a agência forneceu informações
e apoio, “mas não estava presente quando as autoridades mexicanas mataram [o
agente do cartel]”.
A reportagem da CNN deixou margem para interpretações
de que a agência estaria a manipular traficantes rivais ou a apoiar-se em
grupos paramilitares. Isto não seria nenhuma surpresa, dado o longo e sórdido
historial da CIA de colaboração com atores não estatais questionáveis nas
Américas, incluindo membros do Cartel de Guadalajara, que facilitou o tráfico
de armas para os Contras nicaraguenses na década de 1980.
Em contrapartida, a implicação do The New York Times
é de que as forças mexicanas orquestraram um assassinato extrajudicial com a
ajuda — e provavelmente a mando — da principal agência de inteligência de
Washington. Mais chocante ainda é que fontes de ambas as publicações afirmam
que o assassinato de março é apenas um de muitos; a porta-voz da CIA, Liz Lyon,
e o ministro da Segurança do México, Omar García Harfuch, negaram todas as
alegações.
No mínimo, parece claro que a agência tem agentes em solo
mexicano. No mês passado, dois agentes da CIA
morreram num acidente de viação quando
regressavam de uma operação de combate ao tráfico de droga no estado de
Chihuahua. No México, os agentes estrangeiros estão proibidos de operar no país
sem a permissão expressa do governo nacional. Sheinbaum argumentou, de forma
plausível, que os agentes falecidos foram convidados ilegalmente a entrar em
Chihuahua pelo governo de oposição do estado. Ao mesmo tempo, é possível que a
Cidade do México tenha tolerado mais do que admitiu.
A reportagem da CNN acrescenta uma camada de
credibilidade, bem como um aspeto relativamente positivo, às suas afirmações.
Ela afirma: “A estratégia da [CIA], segundo as
fontes, é desmantelar redes inteiras de cartéis, o que envolve não só remover
os líderes, mas também identificar vulnerabilidades em toda a organização e
atingir sistematicamente os membros de escalões inferiores que servem como
peças-chave na operação de tráfico”. De facto, esta é a mesma
estratégia que tem vindo a ser adotada por Sheinbaum e pelo seu ministro da
Segurança, Harfuch.
Desde o início da guerra contra a droga no México, em 2006,
as autoridades dos EUA e do México têm dado prioridade à chamada “estratégia
dos barões”, com Washington a condicionar a ajuda da Iniciativa Mérida à
captura de alvos de elevado valor. Em termos técnicos, a estratégia foi um
sucesso. Desde o final da década de 2000, as sucessivas administrações
mexicanas têm ostentado resultados impressionantes, como as capturas de El
Chapo Guzmán, Ovidio Guzmán e El Mayo Zambada, para além do desmantelamento do
infame Cartel Los Zetas. Contudo, em termos estratégicos, a estratégia foi um
fracasso catastrófico. As lutas internas entre os cartéis triplicaram a taxa de
homicídios no México, de 7 para 24 por 100 mil habitantes em 2010, com o número
de desaparecimentos a aumentar dez vezes até 2023.
Sheinbaum e Harfuch adotaram uma abordagem mais ponderada,
enfraquecendo as capacidades estruturais e logísticas dos cartéis em conjunto
com a neutralização dos chefes — com grande sucesso. Os dados do governo
indicam que os homicídios caíram cerca de 40% desde que Sheinbaum assumiu o
cargo em 2024, com as estimativas independentes a apontarem para uma redução de
pelo menos 15%.
À primeira vista, as fontes da CNN sugerem que a CIA
aprendeu com os erros do passado até certo ponto e incorporou informações dos
seus parceiros mexicanos. Ao mesmo tempo, a ousadia de táticas como o ataque
com carros armadilhados a alegados narcotraficantes nas autoestradas
metropolitanas é motivo de grande preocupação. Após o assassinato do agente da
DEA (Administração de Repressão de Drogas dos EUA) Enrique
Camarena em 1985, os cartéis mexicanos passaram a ter poucos
incentivos para atacar cidadãos americanos, muito menos agentes dos serviços de
informação.
Os crimes violentos contra cidadãos americanos no México
recebem frequentemente uma resposta desproporcional das autoridades em
comparação com os mexicanos nativos, envolvendo frequentemente investigações
conjuntas com o FBI. Para se ter uma ideia, em
2023, membros do Cartel do Golfo raptaram por engano dois turistas afroamericanos
e mataram outros dois em Tamaulipas, no México, provavelmente acreditando que
se tratava de imigrantes haitianos. O cartel pediu posteriormente desculpa pelo incidente e entregou
tanto as vítimas como os autores do crime às autoridades.
Se, no entanto, as alegações da CIA se revelarem corretas, é
bem possível que o incentivo dos cartéis para não atacarem os cidadãos
norte-americanos — e as autoridades norte-americanas — se agrave.
Significativamente, parece que fontes da agência, tanto do The New York
Times como da CNN, estão profundamente preocupadas com a atual direção
da administração Trump no México.
Juan Rojas
Fonte: Responsible Statecraft, 22 de maio de 2026

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