Adeus Estado-Providência. A Suécia aprendeu a amar o capitalismo

Havia um país que taxava os seus cidadãos até 90% dos rendimentos, geria hospitais, escolas e lares de idosos, e era apontado ao mundo como modelo de um Estado-Providência. Esse país era a Suécia. Era

Durante décadas, a Suécia foi o símbolo maior da social-democracia no Mundo, uma nação em que o Estado assegurava tudo, do berço ao túmulo, através de impostos elevados contrabalançados com serviços públicos que acompanhavam os cidadãos ao longo de toda a vida.

Esse modelo foi silenciosamente desmantelado, num processo que reduziu as despesas governamentais e estimulou a inovação, mas que alimenta receios sobre os que ficam para trás, escreve Tom Fairless, correspondente de Economia Global do The Wall Street Journal, numa análise recentemente publicada no periódico nova-iorquino.

Sem grande agitação política, com medidas que recolheram apoio alargado nas principais forças políticas do país, a Suécia protagonizou ao longo dos últimos anos uma das viragens mais profundas para o capitalismo alguma vez operadas numa economia avançada, num processo com custos e benefícios que desperta interesse muito além da Escandinávia.

Atualmente, quase metade das clínicas de saúde primária suecas é propriedade privada, sendo muitas delas detidas por fundos de private equity. Mais de 30% das escolas secundárias públicas são geridas por entidades privadas, com ou sem fins lucrativos, quando há pouco mais de uma década essa proporção era de 20%.

Esta viragem, que levou décadas a consolidar-se, permitiu à Suécia conseguir o que a maioria das nações industrializadas não logrou, uma espécie de Santo Graal da economia: reduzir o peso do Estado sem comprometer o crescimento.

O governo sueco baixou impostos três anos consecutivos, enquanto a esmagadora maioria dos governos europeus seguia o caminho contrário. A taxa máxima de IRS caiu para cerca de 50%, quando nos anos 80 chegou a rondar os 90%.

A despesa social pública total situa-se atualmente em cerca de 24% do PIB, um valor próximo do dos EUA e bem abaixo do de países como a França ou a Itália.

As raízes desta transformação remontam a uma grave crise bancária no início dos anos 90, desencadeada por décadas de despesa pública descontrolada que chegou a absorver 70% do PIB.

Pressionados pelos investidores e confrontados com défices galopantes, governos de diferentes quadrantes políticos aprovaram reformas estruturais ao longo das duas décadas seguintes: cortes nas prestações sociais, privatização de serviços públicos, reforma das pensões e abolição dos impostos sobre o património e as heranças, a meados dos anos 2000.

Os resultados são impressionantes. O FMI prevê que a economia sueca cresça cerca de 2% ao ano até 2030, cerca do dobro do ritmo de crescimento previsto para a França e Alemanha.

O país conta hoje com mais milionários per capita do que os Estados Unidos, e sustenta um ecossistema tecnológico que deu ao mundo o Spotify, o Minecraft, o Candy Crush e o Skype.

Em apenas 10 anos, entre 2014 e 2024, houve mais de 500 estreias em bolsa de empresas suecas — mais do que a Alemanha, a França, os Países Baixos e a Espanha em conjunto.

Em nenhum setor o impacto da iniciativa privada é tão evidente como na saúde, e os exemplos são reveladores.

No Hospital St. Göran, no centro de Estocolmo, unidade hospitalar financiada pelo Estado mas gerida pela operadora privada Capio, as listas de espera encolheram de forma notável.

Gustaf Storm, diretor executivo do hospital, com passagem pela conceituada consultora de gestão McKinsey, fala com desenvoltura de gestão lean e de KPIs, a famigerada sigla do economês para “indicadores chave de performance”.

Storm estima que tratar casos como uma apendicite custe no hospital que dirige entre 15% e 20% menos do que nos hospitais públicos. Entre 2014 e 2024, a despesa em saúde por habitante cresceu em média apenas 1% ao ano, cerca de um terço do ritmo registado nos Estados Unidos.

A tecnologia está também a mudar a face dos cuidados de saúde primários. A Kry, aplicação lançada em 2015 que oferece consultas à distância a qualquer hora, em várias línguas, tem hoje mais utilizadores na Suécia do que a Netflix. Só no último ano, a inteligência artificial permitiu reduzir em 40% o tempo gasto em tarefas administrativas.

Mas esta transformação radical tem também uma face mais sombria, nota Tom Fairless. Numa das sociedades historicamente mais igualitárias do mundo, a desigualdade aprofunda-se a um ritmo preocupante.

A violência de gangs alastrou por bairros com forte presença de comunidades imigrantes. O aumento do custo da habitação fez subir para 26% a proporção de jovens adultos que vivem em casa dos pais — quando em 1995 não ia além dos 15%.

As comunidades rurais e de menores rendimentos, que sempre dependeram mais do apoio do Estado, são as que mais sentem a retração do financiamento público.

O ensino é talvez o domínio onde o debate é mais aceso. Os críticos sustentam que os operadores privados com fins lucrativos selecionam os alunos mais favorecidos e poupam onde não deviam, deixando as escolas públicas com as crianças mais carenciadas e recursos cada vez mais escassos.

A Suécia perdeu posições nos rankings internacionais de educação, e a polémica em torno dos lucros no ensino privado promete ser um dos temas centrais das legislativas de setembro.

Privatizar foi uma decisão acertada. Mas provavelmente fomos longe demais”, reconhece Lars Calmfors, economista e professor do Instituto de Estudos Económicos Internacionais da Universidade de Estocolmo, que ajudou a desenhar as reformas.

A Suécia, que inventou o Estado-providência, está agora a tentar provar que consegue viver sem ele. Os números têm-lhe dado razão; as pessoas, nem sempre.

Fonte: ZAP, 25 de maio de 2026

Às suecas originais nunca lhes faltará rendimentos. 

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