Ao lado de André Ventura, Passos Coelho critica políticos postiços que são como “prostitutos sem carácter”
Passos Coelho não é material liderante, falta-lhe melenas, não
se inclui na nova trend política do cabelo lindo (como líderes extraordinários Javier
Milei ou Donald Trump)
Numa
apresentação onde esteve sentado ao lado do líder do Chega, Passos Coelho
criticou ainda os líderes que não querem "desagradar a ninguém, o que é
uma coisa virtualmente impossível"
O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho criticou esta
terça-feira os políticos que, para tentarem agradar a todos ainda mais do que
os populistas, se tornam postiços, comparando-os a “prostitutos sem carácter”.
Numa intervenção de quase 50 minutos na apresentação de um
livro, Passos defendeu que a política tem de ter
uma dimensão de liderança e
criticou o que chamou de “uma maldição que tomou conta do espaço europeu e
também do espaço português”: “Os líderes não quererem desagradar a ninguém, o
que é uma coisa virtualmente impossível pelo menos durante muito tempo”.
O antigo líder do PSD avisou que quando, com medo do
populismo, o político do chamado mainstream “lhe veste a casaca para evitar que
o populismo chegue com o voto ao palácio e resolve
ser mais populista do que o populista, normalmente a história mostra
que a coisa não funciona”.
“O que é autêntico e genuíno sempre
se manifesta e de uma forma muito mais eficaz do que o que é postiço e então o
postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem
carácter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o
momento lhe possa fornecer”, afirmou, sem explicitar a quem dirigia o recado,
numa apresentação onde esteve sentado ao lado do líder do Chega, André Ventura.
E continuou o alerta: “Mas a mesma multidão que o aplaude o
condena passado muito pouco tempo quando o futuro que não é desejado chega”.
“Se não queremos que esse futuro chegue, se não queremos que
esta Europa fluida tome conta do nosso espaço normativo e político, é preciso fazer qualquer coisa e qualquer coisa que nos
distinga dos outros”, disse. Passos voltou à ideia que transmitiu
quando era primeiro-ministro de que nem sempre o mais importante é vencer as
eleições.
“Há pessoas que não se importam de perder a defender aquilo
em que acreditam e o mundo vive disso: o mundo não vive daqueles que só querem
ganhar com as ideias dos outros”, disse. O
antigo primeiro-ministro saudou que tenham sido tomadas em Portugal medidas
para estancar uma imigração “considerada excessiva pela generalidade
das pessoas”.
“Ao ritmo a que as coisas estavam, qualquer dia estaríamos
com certeza a falar não do povo português, nem da cultura portuguesa nem de
coisa nenhuma”, afirmou. Passos fez questão de acrescentar que “seria o último a fazer considerações de natureza racista”,
salientando que todos os portugueses têm “uma
miscigenação grande” (no
seu caso, disse ter turcos na família).
“Toda a humanidade é muito parecida, mas isso é diferente de
a gente dizer ‘sim senhor, portas abertas tudo bem, uma moeda universal porque
não, um governo universal’. Não parece que fosse uma boa ideia”, disse.
Na apresentação do livro “A Constituição Fluida” do
constitucionalista Carlos Blanco de Morais, no auditório da Faculdade de
Direito da Universidade de Lisboa, Passos insurgiu-se também contra o que
chamou de “movimentos de contracultura ‘woke’”,
que lamentou ainda não terem uma resposta adequada.
“Por cá também chegou às universidades e há alturas em que
se torna irrespirável: ter a sensação clara de que há muitas pessoas que fazem
uma autocensura porque têm medo das consequências que estão associadas a dizer
aquilo que se pensa”, lamentou. Numa altura em que a revisão constitucional é
um tema na ordem do dia, Passos fez questão de dizer que o livro não tratava
esse tema.
“Dizia isso há pouco ao dr. André Ventura que me perguntava
o que é que havia aqui sobre a revisão constitucional”, afirmou, em tom
bem-disposto. No entanto, acrescentou, o livro
expressa a ideia preventiva de que “esta liquefação de valores de identidades
não venha a tornar inevitável a sua consagração em princípios constitucionais,
em direitos constitucionais novos, demasiado fluidos”.
“Quando nós estamos preocupados em que certas realizações
possam ficar em causa, essa preocupação deve ter uma expressão política
concreta: as pessoas não podem simplesmente sentar-se a fumar um cigarro, a
beber um copo, a conversar muito fluidamente sobre os perigos que espreitam o
mundo e esperar para ver se a coisa acontece ou não acontece. Quando nós
achamos que alguma coisa está em risco devemos fazer qualquer coisa para o
prevenir”, apelou.
Fonte: Eco, 26 de maio de 2026

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