Quais são os planos de Israel a longo prazo para Gaza?
Apesar
de um aparente cessar-fogo, os dirigentes israelitas continuam a insinuar a
anexação e a limpeza étnica
Após dois anos de bombardeamentos implacáveis e invasões
terrestres, o futuro de Israel em Gaza parecia estar definido com a assinatura
do plano de paz de 20 pontos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a
9 de outubro de 2025.
De acordo com os termos deste acordo, as forças israelitas
deveriam retirar para além do que os planeadores chamaram de "Linha
Amarela", mantendo o controlo de 58% do território, sendo a retirada
completa definida numa data a determinar.
Essa retirada não aconteceu. De facto, nos meses seguintes,
para além de matar pelo menos 922 pessoas em ataques quase diários ao enclave
durante o "cessar-fogo", Israel expandiu o seu território em cerca de
11%.
Segundo dados de satélite recolhidos em março, o país estabeleceu também pelo menos 32 postos militares,
uma barreira terrestre e infraestruturas ao longo do que deveria ser uma linha
temporária. Desde outubro do ano passado que várias agências humanitárias,
incluindo a Oxfam, acusam Israel de agravar a crise humanitária em Gaza,
restringindo a entrega de ajuda e outros bens essenciais.
Na quinta-feira, o primeiro-ministro israelita, Benjamin
Netanyahu, anunciou que Israel irá ocupar ainda mais território em Gaza,
declarando numa conferência: “Estamos a pressionar o Hamas; agora controlamos
60% do território da Faixa – vocês sabem disso. Estávamos a 50%. A minha
diretriz é avançar para…”, disse, fazendo uma breve pausa enquanto alguém na
plateia gritava: “100%!”.
“Vamos passo a passo”, respondeu. “Primeiro, 70%. Vamos
começar por aí. Estamos a pressioná-los por todos os lados, trataremos do que
restar.”
A Al Jazeera contactou o gabinete do
primeiro-ministro israelita para esclarecimentos, mas não obteve resposta até
ao momento da publicação deste artigo.
Será que Israel pode simplesmente tomar mais terras em Gaza?
“Se o plano final de Israel é exercer um controlo efetivo
permanente sobre toda a Faixa de Gaza, estamos a falar de anexação ilegal”,
disse Michael Becker, professor de direito internacional dos direitos humanos
no Trinity College, em Dublin, à Al Jazeera.
“Como reafirmou o Tribunal Internacional de Justiça num
parecer consultivo de 2024, a anexação constitui uma violação da proibição
fundamental da aquisição de território pela força.”
No entanto, até à data, desde o início da guerra contra
Gaza, em outubro de 2023, as forças israelitas mataram pelo menos 72 819
homens, mulheres e crianças em Gaza, com muitos milhares de desaparecidos e
presumivelmente mortos sob os escombros.
Em 2025, Israel já tinha provocado uma fome confirmada no
enclave e dizimou quase todas as infraestruturas necessárias para a
sobrevivência. Fez tudo isto sem sofrer sanções internacionais significativas e ainda participa em inúmeras competições desportivas e
de entretenimento internacionais –
apesar dos protestos.
As esperanças de que os EUA imponham as suas próprias condições a Israel também parecem infundadas. Desde o anúncio do cessar-fogo no enclave, em outubro do ano passado, os EUA não reagiram à expansão e ao reforço da presença israelita em Gaza, bloqueando o acesso dos seus habitantes a cerca de dois terços do enclave até abril de 2026.
A Al Jazeera contactou também o Departamento de
Estado dos EUA para comentar o assunto, mas não obteve resposta até ao momento
da publicação deste artigo.
Conseguirá a população de Gaza sobreviver num território tão
reduzido?
É muito difícil dizer. Várias agências, incluindo o Gabinete
das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA),
manifestaram profunda preocupação sobre a forma como a população restante de
Gaza poderá continuar a subsistir num espaço cada vez mais reduzido.
A resposta de Israel a esta questão é simples. "O plano
de emigração voluntária de Gaza também será implementado, no momento e da forma
adequada", escreveu o ministro da Defesa, Israel Katz, num comunicado de
homenagem à morte do líder do Hamas, Mohammed Odeh, na quarta-feira desta
semana. “Emigração voluntária” é um termo utilizado por vários ministros do
governo israelita, incluindo o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir,
e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich. Os observadores reconhecem
geralmente que isto significa a limpeza étnica do enclave.
O ministério da Defesa de Israel não respondeu às perguntas
da Al Jazeera sobre o assunto.
Isso é legal?
Não.
“A ideia de remover permanentemente os palestinianos de Gaza
cheira a deslocação forçada e também violaria o direito fundamental à
autodeterminação do povo palestiniano”, disse Becker. O princípio da
autodeterminação serve como “pedra angular” da Carta da ONU, afirmou.
No entanto, Becker disse que o foco da atenção internacional
se deslocou agora da crise em Gaza para a guerra dos EUA e de Israel contra o
Irão, bem como para as ações de Israel no Líbano, onde ocupou grandes áreas do
sul do país.
“Embora a administração Trump possa estar disposta a
divergir dos interesses de Israel na procura de uma solução para a guerra
desastrosa e ilegal que os Estados Unidos iniciaram contra o Irão, os Estados
Unidos parecem ter perdido o interesse em Gaza ou em pressionar por moderação
por parte da administração Netanyahu. Não é claro qual o papel que o chamado
Conselho de Paz está disposto a desempenhar em termos de garantir um futuro
para os palestinianos de Gaza”, concluiu.
Fonte: Al Jazeera, 29 de maio de 2026

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