A investigação que parecia ficção está agora sob suspeita: 90 artigos ‘estranhos’ abalam um império da ciência portuguesa
Angel Crowden - criadora de conteúdo e influenciadora
digital australiana
O site For
Better Science aponta mais de 90 artigos associados a uma das maiores
figuras da ciência portuguesa que foram comentados no PubPeer por
alegadas semelhanças, repetições ou sobreposições em imagens científicas
Durante anos, a promessa parecia saída de um futuro quase
cinematográfico: regenerar tecidos, criar biomateriais, explorar células
estaminais, desenvolver soluções para doenças complexas e aproximar a medicina
de uma era em que partes danificadas do corpo poderiam ser reconstruídas em
laboratório.
Agora, essa história está sob escrutínio. O site For
Better Science publicou um longo artigo sobre Rui
Luís Reis, professor da Universidade do Minho e uma das figuras mais
conhecidas da medicina regenerativa em Portugal, apontando mais de 90 artigos
associados ao investigador que terão sido comentados na plataforma PubPeer
por alegadas semelhanças, repetições ou sobreposições em imagens científicas.
A plataforma PubPeer é usada por investigadores e
especialistas para escrutinar artigos científicos já publicados, funcionando
como uma espécie de fórum público onde podem ser assinaladas dúvidas sobre
imagens, gráficos, dados ou metodologias. Os
comentários aí publicados não equivalem, por si só, a uma conclusão formal de
fraude ou má conduta científica, mas podem levar revistas, autores
ou instituições a rever trabalhos, publicar correções ou, em casos mais graves,
retratar artigos.
No texto assinado por Carabus maleki e publicado no site de
Leonid Schneider, Rui Reis é apresentado como uma figura central da ciência
portuguesa na área dos biomateriais, da engenharia de tecidos, da medicina
regenerativa e das células estaminais. O artigo descreve aquilo a que chama
“The Kingdom of Rui Reis”, uma referência ao ecossistema académico construído
em torno do i3Bs, o Instituto de Investigação em Biomateriais, Biodegradáveis e
Biomiméticos, em Guimarães.
A dimensão do currículo ajuda a explicar o impacto da
história. De acordo com o For Better Science, Rui Reis tem quase 2000
publicações indexadas na Scopus, mais de 95 mil citações e um índice h
de 168, números raros no panorama científico português. O site recorda ainda
prémios europeus na área dos biomateriais e financiamento nacional e
internacional, incluindo uma bolsa ERC Advanced Grant de 2,35 milhões de euros
atribuída em 2012 e cerca de um milhão de euros em 2024 para um projeto ligado
ao desenvolvimento de uma retina sintética.
É precisamente o contraste entre estatuto, produtividade
científica e dúvidas agora reunidas pelo For Better Science que torna o
caso sensível. O site aponta uma longa lista de artigos associados a Rui Reis e
a investigadores próximos do i3Bs que foram comentados no PubPeer por
alegadas irregularidades em imagens científicas. Em vários exemplos citados, os
comentários referem painéis considerados demasiado semelhantes entre si,
possíveis repetições, rotações, espelhamentos ou sobreposições em figuras que,
segundo os autores dos comentários, deveriam representar experiências,
condições ou amostras diferentes.
O artigo não se limita, porém, a Rui Reis. Constrói uma narrativa mais ampla sobre uma rede de
investigadores ligados ao i3Bs, antigos alunos, colaboradores e
académicos que seguiram depois para outras instituições. Entre os nomes
mencionados estão Joaquim Miguel Oliveira, Alexandra P. Marques, Rogério
Pirraco, Tiago H. Silva, Subhas Chandra Kundu, Nuno Neves, António Salgado,
João F. Mano, Manuela Gomes, Ana Leite Oliveira e Ana Rita Duarte.
Segundo o For Better Science, vários destes
investigadores surgem associados a artigos também comentados no PubPeer
por alegadas semelhanças ou duplicações em imagens científicas. As áreas
abrangidas vão da engenharia de tecidos aos biomateriais, passando por
hidrogéis, modelos tumorais, cartilagem, pele artificial, seda, colagénio
marinho e células estaminais.
Um dos casos mais relevantes referidos pelo site envolve um
artigo de 2018 sobre pele artificial para tratamento de queimaduras, coassinado
por Rui Reis e Subhas Chandra Kundu. O trabalho foi alvo de correção em 2025 e
acabou retratado em 2026. A retratação citada pelo For Better Science
refere duplicações parciais de imagens em várias figuras e indica que os
problemas afetavam a precisão do trabalho, embora os autores tenham defendido
que as conclusões não eram alteradas.
A peça também sublinha que nem todos os artigos mencionados
foram retratados. Em alguns casos, os autores ou as revistas responderam às
críticas, atribuindo os problemas a erros de montagem de figuras, rotulagem ou
preparação final das imagens, sustentando que esses erros não afetavam as
conclusões científicas. Noutros casos, segundo o site, as dúvidas permanecem
sem desfecho público claro.
A história ganha uma dimensão adicional por causa do contexto académico português. O For
Better Science sugere que muitos investigadores ligados a centros como o
i3Bs trabalham em condições dependentes de financiamento externo, avaliações,
bolsas, contratos e projetos competitivos, enquanto figuras mais seniores
ocupam posições universitárias mais estáveis. A partir daí, o artigo levanta
uma pergunta estrutural: até que ponto a pressão para publicar, captar
financiamento e acumular citações pode criar incentivos problemáticos dentro da
academia?
Há ainda uma dimensão institucional delicada. O i3Bs está
ligado à Universidade do Minho, e o site questiona a capacidade de supervisão
interna quando algumas das figuras chamadas a liderar ou acompanhar a política
científica da instituição tiveram ligações académicas ao mesmo ecossistema. O For
Better Science refere também que Rui Reis e vários coautores não
responderam aos contactos enviados pelo autor do artigo.
As situações descritas pelo site não permitem, por si só,
concluir que houve fraude científica em todos os casos mencionados. Muitas
correspondem a alegações públicas, comentários de escrutínio no PubPeer,
correções editoriais ou interpretações críticas feitas por terceiros. Ainda
assim, a quantidade de artigos assinalados e a importância dos investigadores
envolvidos colocam perguntas difíceis sobre controlo de qualidade, integridade
científica, transparência institucional e responsabilização académica.
No fundo, a história ultrapassa uma discussão técnica sobre
imagens científicas. Tal como é apresentada pelo For Better Science,
levanta uma questão maior sobre o funcionamento da ciência contemporânea: o que acontece quando carreiras, financiamento, reputação
e poder institucional passam a depender de métricas como número de artigos,
citações, bolsas e rankings?
No retrato traçado pelo site, este não é apenas o caso de um
investigador português sob escrutínio. É também uma história sobre prestígio,
pressão para publicar, redes académicas e dúvidas públicas sobre a integridade
de alguns trabalhos científicos. Uma história que começou com a promessa de
regenerar tecidos e curar doenças, mas que agora coloca sob observação um dos
ecossistemas mais influentes da ciência portuguesa.
Fonte: Executive Digest, 30 de maio de 2026

Comentários
Enviar um comentário