Base das Lajes está a causar surto de cancro? Estudo encontra chumbo em esqueletos na zona
Olivia Rodrigo
Estudos
anteriores sobre o crescimento de cancros na Praia da Vitória acabaram por não avançar devido a entraves no acesso aos
dados ou receios de que os resultados pusessem em causa a relação com os
americanos
Uma investigação desenvolvida na Universidade de Coimbra
identificou concentrações significativamente superiores de metais pesados em
esqueletos de antigos habitantes da Praia da Vitória, na ilha Terceira. A
descoberta está a reforçar as suspeitas de que a causa será a exposição
prolongada à contaminação ambiental causada pela Base das Lajes.
O estudo integra a tese de doutoramento em Antropologia
Forense de Félix Rodrigues e poderá abrir caminho a novas investigações sobre a
possível relação entre a poluição e a incidência de doenças oncológicas na
região.
A análise comparou restos mortais de indivíduos da Praia da
Vitória com esqueletos de Angra do Heroísmo, que fica a 23 quilómetros do base,
e concluiu que os primeiros apresentam níveis mais elevados de 10 metais, entre
os quais cádmio, crómio, molibdénio
e chumbo.
Segundo o investigador, as concentrações médias de chumbo
atingem 18 partes por milhão (ppm) na Praia da Vitória, face a 12 ppm em Angra
do Heroísmo. Apesar de considerar os resultados ainda provisórios, Félix
Rodrigues sublinha que estes são compatíveis com a exposição ambiental a
contaminantes já identificados nos solos e aquíferos da zona. “É difícil
interpretar estes resultados, por não haver estudos semelhantes”, afirma ao Expresso.
O trabalho estabelece, pela primeira vez, uma ligação entre
a presença de metais pesados detetados no ambiente e a sua acumulação nos ossos
humanos. No entanto, os investigadores alertam que ainda não é possível
demonstrar uma relação direta de causa e efeito entre essa exposição e o
desenvolvimento de doenças como o cancro,
“Se a presença dos metais pesados vem da contaminação, é uma
discussão profunda que se tem de fazer a longo prazo. Mesmo que os corpos dos
falecidos nos possam dar algumas informações, eles não falam. Mas as pessoas
vivas falam. Essa era uma investigação que poderia ser feita”, defende Félix
Rodrigues.
Ao longo dos anos, residentes, profissionais de saúde e
antigos trabalhadores da base têm relatado um elevado número de casos de cancro
na Praia da Vitória, sobretudo em zonas próximas dos antigos depósitos de
combustível, com uma estrada até a ser apelidada “estrada da morte” devido à
incidência da doença.
Alguns projetos destinados a estudar as suspeitas
acabaram por não avançar devido à dificuldade de acesso a dados oficiais e a
alegados entraves institucionais. Norberto Messias, um
enfermeiro natural da Praia da Vitória que também já foi tratado por dois
cancros, era o coordenador de um dos estudos que ficou na gaveta. “A universidade não
quis que se concluísse o estudo porque tinha uma parceria com uma universidade
no Massachusetts e estávamos a pôr em causa os americanos”,
afirma ao Expresso.
Apesar da ausência de provas científicas conclusivas sobre o
impacto da contaminação na saúde pública, o Governo Regional dos Açores está a
financiar a investigação que deu origem a estes resultados. O ministério da
Defesa reconhece também que derrames de combustível ocorridos no passado
provocaram contaminação localizada dos solos e das águas subterrâneas,
acrescentando que continuam a decorrer ações de monitorização e mitigação
ambiental.
Fonte: ZAP, 26 de junho de 2026


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