Conselho de Paz de Trump planeia imunidade para membros
Uma minuta “sensível, mas não confidencial”, a que o The
Guardian teve acesso, revela o plano do Conselho de Paz de Donald Trump
para governar Gaza: conceder-se a si próprio imunidade legal. De acordo com o
documento, a organização poderia ainda obter propriedades públicas no
território “gratuitamente” — uma expressão isolada que, segundo fontes
jurídicas ouvidas pelo jornal, poderá abrir caminho ao confisco ilegal de
terras palestinianas. Por esclarecer continua quem — Israel, o Hamas ou a
Autoridade Palestina — seria responsável por “fornecer” as instalações ao Conselho,
e sob que termos.
Segundo o The Guardian, na prática, ninguém ao
serviço da organização do presidente dos EUA poderá ser detido, preso ou
julgado por qualquer tribunal ou entidade em Gaza. A resolução de quatro
páginas estende um manto de proteção a toda a estrutura no terreno: desde a
cúpula do Conselho de Paz e do seu braço administrativo — o Gabinete do Alto
Representante (OHR) — até aos tecnocratas palestinianos, contingentes militares
internacionais e prestadores de serviços estrangeiros a operar na região.
O projeto, de junho de 2026, prevê ainda que Donald Trump
possa suspender a imunidade legal de um membro da organização, mas apenas se a
decisão for validada pela maioria do Conselho de Paz.
Mas o alcance desta imunidade ainda levanta dúvidas: não se
sabe se protege o Conselho de processos em tribunais internacionais, nem como
seriam resolvidos crimes contra civis ou disputas em negócios. Mesmo assim,
para juristas como Emily Schaeffer Omer-Man e Noura Erakat, citadas pelo
jornal, o plano acaba por criar “um sistema jurídico à parte”, parecendo uma
tentativa de “isentar o Conselho e todos os seus funcionários de
responsabilização por possíveis violações legais”.
Uma das hipóteses levantadas pelo jornal é a de que este
projeto seja uma tentativa de aproximação ao regime que existe para estruturas
de diplomatas das Nações Unidas, que inclui proteções contra a prisão ou
detenção de diplomatas durante o trabalho oficial, bem como contra a apreensão
de bens da própria ONU.
Em resposta, um funcionário da organização, que não
respondeu a perguntas sobre a resolução, negou que o processo vise criar
“impunidade” e garantiu que todos vão cumprir a legislação aplicável e operar
sob mecanismos de supervisão — embora não tenha especificado quais. “Não existe
nenhuma resolução em vigor ou estrutura de imunidade do tipo descrito nas suas
perguntas… Qualquer sugestão de que esse
processo tenha como objetivo criar ilegalidade ou impunidade é errada, enganosa
e distorce completamente a questão”, afirmou em comunicado. Além
disso, a mesma fonte da organização classifica como “categoricamente falsa” a
“sugestão de que o presidente terá um papel no estabelecimento ou na suspensão
da imunidade legal em Gaza”.
A liderança do Conselho de Paz de Donald Trump assenta num
núcleo duro de sete membros, onde figuram pessoas do círculo próximo de Donald
Trump, como o seu genro Jared Kushner, o enviado especial Steve Witkoff, a
chefe de gabinete do presidente, Susie Wiles, e o chefe da diplomacia de
Washington, Marco Rubio. Apesar das promessas internacionais que rondam os
milhares de milhões de dólares, o projeto ainda não saiu do papel: a maioria
dos fundos não foi transferida e não há registo de contratos de relevo.
Fonte: Observador, 28 de junho de 2026
"Podemos fazer praticamente o que quisermos".
O que é o Conselho de Paz que Trump criou, quem o lidera e quais são os
aliados?
Trump
avançou com o projeto que pretende resolver conflitos globais. Acusa ONU de
falhar, mas garante que não a quer substituir. Conselho de Paz envolve (muito)
poder e dinheiro e divide os aliados
O presidente dos Estados Unidos está, uma vez mais, no
centro da diplomacia internacional. Donald Trump lançou, formalmente, o chamado
Conselho de Paz (Board of Peace, em língua inglesa), uma nova organização internacional que promete resolver conflitos
globais, a começar pelo conflito em Gaza. O projeto, apresentado
esta quinta-feira em Davos, na Suíça, surge como uma alternativa “mais eficaz”
às estruturas existentes e está a gerar entusiasmo entre alguns aliados e
desconforto entre outros.
O Conselho de Paz nasce de uma forma pouco convencional. Por
um lado, há dezenas de países que já aceitaram o convite de Trump para integrar
a organização, incluindo aliados históricos dos Estados Unidos, regimes
autoritários e países diretamente envolvidos em conflitos armados. Por outro,
várias democracias europeias recusam participar, levantando dúvidas
constitucionais, jurídicas e políticas — sobretudo
quanto à concentração de poder nas mãos de um único líder.
Donald Trump, muito “honrado” por ser presidente deste
projeto, subiu ao palco do Fórum Económico Mundial para discursar e formalizar
o tratado do Conselho de Paz. Trata-se de um dia “muito emocionante”, disse,
afirmando que “todos [os países] querem fazer parte” — apesar de alguns já
terem recusado o convite. Durante o seu discurso, reiterou que esta organização
irá ajudar a alcançar a paz duradoura na Faixa de Gaza. “Temos pequenos fogos
que vamos apagar, mas são pequenos”, sublinhou, fazendo um aviso ao Hamas: “Têm
de entregar as armas e, se não o fizerem, será o fim [deles]”.
“Estamos empenhados em
garantir que Gaza se torna desmilitarizada, seja governada de forma adequada e reconstruída
de forma bela. Vai ser um grande plano e foi aqui que começou o
Conselho de Paz”, afirmou, acrescentando: “E podemos fazer inúmeras coisas.
Assim que este conselho estiver completamente formado, podemos fazer
praticamente o que quisermos. E iremos fazê-lo em conjunto com as Nações
Unidas”.
Depois de falar nas suas conquistas do último ano,
nomeadamente as “oito guerras” que conseguiu parar, da captura do “ditador
fora-da-lei Nicolás Maduro” e da guerra na Ucrânia (que esperava que “seria
fácil” de resolver), o líder dos Estados Unidos convidou os representantes do
Bahrain e de Marrocos a subir ao palco para “colocar o Conselho de Paz em pleno
funcionamento”. A carta que oficializa a criação do Conselho de Paz foi, logo
de seguida, assinada.
“A carta está agora em vigor e o Conselho da Paz é agora uma
organização internacional oficial”, anunciou a porta-voz da Casa Branca,
Karoline Leavitt, na cerimónia, que contou com a presença de vários líderes que
aceitaram o convite de Washington.
Mas, afinal, estamos perante um mecanismo pragmático para
desbloquear conflitos internacionais ou uma tentativa de criar uma ONU
paralela, desenhada à imagem de Donald Trump?
O que é o Conselho de Paz que Trump criou? Como
funciona e quem lidera a organização?
O Conselho de Paz foi anunciado, pela primeira vez, em setembro de 2025, como peça central do plano de 20 pontos da administração Trump para pôr fim à guerra na Faixa de Gaza. Na altura, surgia como um “organismo internacional transitório”, responsável por supervisionar a reconstrução do território palestiniano, coordenar o financiamento internacional e garantir estabilidade até que a Autoridade Palestiniana estivesse reformulada e pronta para assumir o controlo.
O projeto rapidamente ganhou outra dimensão. O rascunho do
estatuto, conhecido como charter e divulgado pela agência Reuters, deixa claro
que o Conselho de Paz não se limita a Gaza. Pelo contrário, define-se como uma organização internacional com
personalidade jurídica própria, destinada a “promover estabilidade, restaurar
governação legal e assegurar uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas
por conflitos”.
O objetivo é ambicioso e claro: criar uma estrutura “mais
ágil e eficaz” do que as instituições existentes, com capacidade para intervir
em vários cenários de conflito, desenvolver boas práticas de construção da paz
e mobilizar recursos internacionais sem o que Trump considera ser o “bloqueio
burocrático” das Nações Unidas.
Na última sexta-feira, o líder norte-americano anunciou os
nomes que compõem o Conselho de Paz, do qual é o presidente, e os respetivos
órgãos. Existem, segundo o comunicado da Casa Branca, dois conselhos: um
Conselho Executivo Fundador, igualmente composto por membros do governo Trump;
e um Conselho Executivo de Gaza, do qual fazem parte atores envolvidos nas
negociações como o Egito, o Qatar ou os Emirados Árabes Unidos, que devem atuar
na governação e prestação de serviços na região. Ambos irão funcionar em
coordenação com o Comité para a Administração de Gaza, presidido por Ali
Sha’ath, antigo vice-ministro palestiniano.
O
Conselho Executivo fundador é composto por seis norte-americanos — sendo
três membros da administração Trump — e um britânico. Inclui o secretário de
Estado Marco Rubio, o antigo
primeiro-ministro britânico Tony Blair,
o enviado especial norte-americano para a Faixa de Gaza e Ucrânia Steve Witkoff, o genro do presidente, Jared Kushner, o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, o multimilionário e CEO da Apollo
Global Management, Marc Rowan, e Robert Gabriel, conselheiro de segurança do presidente
norte-americano.
“Para operacionalizar a visão do Conselho de Paz – sob a
presidência do presidente Donald J. Trump – foi formado um Conselho Executivo
fundador, composto por líderes com experiência em diplomacia, desenvolvimento,
infraestruturas e estratégia económica”, referiu a Casa Branca na nota
divulgada. “Cada membro do Conselho Executivo supervisionará uma área
específica, crucial para a estabilização e o sucesso a longo prazo de Gaza,
incluindo, entre outros, o reforço da capacidade de governação, as relações
regionais, a reconstrução, a atração de investimento, o financiamento em grande
escala e a mobilização de capital”, acrescentou o documento.
O Conselho de Paz conta, ainda, com dois conselheiros
seniores, Aryeh Lightstone, CEO do
Abraham Accords Peace Institute, e Josh
Gruenbaum, investidor de capital privado e que foi nomeado
comissário do Serviço Federal de Aquisições, que devem “liderar a estratégia e
as operações diárias e traduzir o mandato e as prioridades diplomáticas do
Conselho numa execução disciplinada”.
Entretanto, para além deste primeiro Conselho Executivo
fundador, a administração Trump divulgou um segundo comité de altos
funcionários, chamado Conselho Executivo de Gaza, que “ajudará a apoiar uma
governação eficaz e a prestação de serviços de excelência que promovam a paz, a
estabilidade e a prosperidade para o povo de Gaza”. Deste conselho fazem parte Steve Witkoff, Jared
Kushner, Tony Blair, Marc Rowan, o ministro dos Negócios
Estrangeiros turco, Hakan Fidan, o
diplomata do Qatar Ali Al-Thawadi, o chefe dos serviços secretos
egípcio, Hassan Rashad, o
ministro de Cooperação Internacional dos Emirados Árabes Unidos, Reem Al-Hashimy, o empresário israelita Yakir Gabay, o antigo coordenador humanitário
da ONU, Sigrid Kaag, e Nickolay Mladenov, político búlgaro e antigo
enviado da ONU para o Médio Oriente, que também foi nomeado Alto Representante
para Gaza e servirá como elo no terreno entre o Conselho da Paz e o Comité
Nacional de Administração de Gaza.
Outro nome anunciado pela Casa Branca é o do major-general Jasper Jeffers, militar com anos
de experiência e que teve um papel fundamental no cessar-fogo entre Israel e o
Líbano, que foi nomeado Comandante da Força Internacional de Estabilização com
o objetivo de “estabelecer a segurança, preservar a paz e criar um ambiente duradouro
livre de terrorismo”.
Que países já aceitaram o convite de Trump?
De acordo com a Casa Branca, citada por jornais
internacionais como a BBC e o New York Times, cerca de 35 líderes
mundiais já aceitaram participar no Conselho de Paz, de um total de 50 a 60
convites enviados, incluindo Portugal.
Entre os primeiros a confirmar a adesão estão os aliados
estratégicos dos Estados Unidos no Médio Oriente, como Jordânia, Emirados
Árabes Unidos, Paquistão, Turquia, Arábia Saudita, Qatar e Egito, que esperam
ver no Conselho uma oportunidade para consolidar o cessar-fogo na Faixa de Gaza
e influenciar a reconstrução do território palestiniano.
“Os ministros reiteram a afirmação do apoio dos seus países
aos esforços de paz liderados pelo presidente Trump e reafirmam o compromisso
dos seus países em apoiar a implementação da missão do Conselho da Paz enquanto
órgão de transição”, refere o comunicado conjunto destes países, citado pelo Haaretz.
Também aderiram à organização países da NATO como a Turquia
e a Hungria, cujos líderes mantêm relações próximas com Donald Trump, assim
como vários Estados da Ásia Central, dos Balcãs, da América Latina e do Sudeste
Asiático, incluindo Marrocos, Paquistão, Indonésia, Kosovo, Vietname, Paraguai,
Uzbequistão e Cazaquistão.
A adesão da Arménia e do
Azerbaijão é apresentada pela administração norte-americana como um sucesso
diplomático, depois de ambos terem assinado um acordo de paz mediado
pelos Estados Unidos. Mais controversa é a participação da Bielorrússia:
Alexander Lukashenko, há muito isolado pelo Ocidente devido ao seu histórico em
relação ao apoio à Rússia na guerra da Ucrânia, aceitou o convite num sinal de
reaproximação entre Washington e Minsk.
Já esta quarta-feira, o presidente
dos Estados Unidos confirmou que Vladimir Putin também aceitou o convite para
integrar o Conselho. “Tenho algumas pessoas controversas nesse
conselho, mas são pessoas que fazem o trabalho. São pessoas que têm uma
influência enorme”, disse Trump aos jornalistas no Fórum Económico Mundial, em
Davos, na Suíça. “Queremos todas as nações onde as pessoas têm controlo e
poder!”, sublinhou. “Se colocasse apenas bebés no conselho, não haveria grande
coisa. Por isso é que [Putin] foi convidado. E ele aceitou”,
anunciou Trump, referindo-se a Putin.
Por seu turno, o presidente russo admitiu ceder ativos
russos congelados nos Estados Unidos, avaliados em mil milhões de dólares
(855,7 milhões de euros), para reconstruir a Palestina, após um acordo de paz
com a Ucrânia. “Os fundos restantes dos nossos ativos congelados nos Estados
Unidos poderiam ser usados para reconstruir os territórios danificados durante
os combates, após a assinatura de um tratado de paz entre a Rússia e a Ucrânia.
Estamos a discutir essa possibilidade com representantes do governo
norte-americano”, declarou Vladimir Putin numa reunião com o Conselho de
Segurança.
Putin propôs que os fundos fossem enviados para o Conselho
de Paz. “Mesmo antes de decidir sobre a nossa participação no Conselho de Paz e
no seu trabalho, dada a relação especial da Rússia com o povo palestiniano,
penso que poderíamos enviar mil milhões de dólares dos ativos russos congelados
durante a anterior administração norte-americana para o Conselho de Paz”,
declarou o chefe de Estado russo.
Por fim, Israel também
participará no Conselho de Paz para a Faixa de Gaza. O
primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, aceitou o convite do presidente
norte-americano, anunciou esta quarta-feira o seu gabinete nas redes sociais.
No entanto, Israel terá rejeitado qualquer papel da
Autoridade Palestiniana em Gaza, comparando o organismo sediado em Ramallah ao
Hamas e insistindo que este tem de passar por reformas significativas. Deste
modo, um alto diplomata árabe afirmou ao Times of Israel que a condição
terá levado a Turquia e o Qatar a preencherem este vazio. A Casa Branca ainda
não se pronunciou.
Que países recusaram o convite para integrar o projeto?
A resposta europeia tem sido marcada por rejeições
explícitas. Reino Unido, França, Noruega e Suécia já recusaram formalmente o
convite.
Paris considera que o estatuto do Conselho levanta “questões
graves” sobre o respeito pela estrutura e princípios das Nações Unidas e pela
ordem internacional baseada em regras. A recusa francesa levou Trump a ameaçar
impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, uma tentativa de
pressão política que o Governo francês classificou como “inaceitável”.
Questionado pelos jornalistas sobre a nega de Macron, Trump
disse: “Ele disse mesmo isso? Bem, ninguém o
quer porque ele deixará o cargo muito em breve. Vou impor uma tarifa de 200%
sobre os vinhos e champanhes [franceses], e ele vai integrar [o Conselho de
Paz]”, disse.
As exportações de bebidas espirituosas e vinhos para os
Estados Unidos estão atualmente sujeitas a uma taxa de 15%, pelo que, se ameaça
do presidente norte-americano se concretizasse, as tarifas sobre estes produtos
iriam subir de forma significativa.
A Eslovénia também recusou, argumentando que o Conselho
interfere perigosamente com o equilíbrio da ordem internacional e Itália
levantou dúvidas constitucionais, com responsáveis políticos a alertarem que a
participação num órgão liderado por um único chefe de Estado poderia violar a
Constituição italiana, não tendo tomado, ainda, nenhuma decisão.
De acordo com a agência Reuters, o Canadá aceitou “em
princípio”, mas rejeita pagar para obter um lugar permanente. Porém, ao final
do dia de quinta-feira, foi noticiado que Donald Trump retirou o convite feito
ao primeiro-ministro canadiano, depois do discurso histórico feito pelo
canadiano na cimeira de Davos, onde instou as “potências médias” a unirem-se
contra as potências “hegemónicas”.
Já o governo de Espanha agradeceu o convite, mas recusou
integrar “Conselho de Paz” lançado por Trump. Pedro Sánchez, em viva voz,
recusou o convite e sublinhou que Espanha está totalmente comprometida com o
multilateralismo em que assenta a Organização das Nações Unidas (ONU).
“Agradecemos o convite, mas recusamos” participar na
iniciativa lançada pelo Presidente dos EUA, afirmou o chefe do governo espanhol
em Bruxelas, depois do Conselho Europeu de emergência convocado por António
Costa.
Outros países também foram convidados, mas ainda não se
comprometeram. É o caso de Camboja, China, Croácia, Alemanha, Índia, Paraguai,
Singapura, Tailândia e Ucrânia.
A Santa Sé foi, também,
convidada a integrar o projeto e
o Papa Leão XIV está a analisar a proposta. “Trump está a convidar vários
países para participarem e creio ter lido que a Itália também está a refletir
sobre a possibilidade de aderir”, indicou o cardeal Pietro Parolin, acrescentando:
“Recebemos esse convite também. O Papa também o recebeu e estamos a avaliar o
que fazer. Estamos a analisar a situação”.
É necessário pagar para participar no Conselho de Paz?
Mil milhões de dólares. É este o valor que vai custar aos
países que queiram uma adesão permanente ao Conselho de Paz.
O valor foi adiantado pela Bloomberg, tendo, entretanto, o Times
of Israel divulgado o documento completo que irá reger este organismo.
“Cada Estado-Membro terá um mandato não superior a três anos a partir da
entrada em vigor da presente Carta, sujeito a renovação pelo presidente. O
mandato de três anos não se aplica aos Estados-Membros que contribuam com mais
de 1 000 000 000 de dólares americanos em fundos em dinheiro para o
Conselho da Paz no primeiro ano após a entrada em vigor da Carta”, lê-se no
documento.
O poder de decisão sobre a continuidade dos países fica nas
mãos de Donald Trump, mas também o poder de decidir quem pode entrar. Com
efeito, logo o primeiro artigo a seguir ao preâmbulo e ao capítulo que define
os objetivos do Conselho de Paz estabelece que a adesão “é limitada aos Estados
convidados a participar pelo presidente”.
Este valor serviria, segundo a carta, para financiar as
atividades do Conselho, sobretudo a reconstrução da Faixa de Gaza. A Casa Branca garantiu, posteriormente, que não haverá
“salários exorbitantes” nem “grandes burocracias”, prometendo mecanismos
rigorosos de controlo financeiro.
Ainda assim, não é claro quantos países estão dispostos a
pagar — e alguns, como o Canadá, já disseram que não o farão, o que também terá
contribuído para a decisão de Trump de retirar o convite feito a Mark Carney.
Iniciativa de Trump pretende substituir as Nações
Unidas?
Oficialmente não. Mas, na prática, a dúvida mantém-se. Trump
tem sido ambíguo neste aspeto. Se por um lado afirmou que o Conselho de Paz
“pode vir a substituir a ONU”, por outro disse que acredita “no potencial”
desta organização, devendo esta continuar.
“Quer dizer, a ONU simplesmente não tem sido muito útil. Sou
um grande fã do potencial da ONU. Mas nunca esteve à altura desse potencial.
Acredito que devemos deixar a ONU continuar, porque o potencial é enorme”,
disse o líder norte-americano durante uma conferência de imprensa na Casa
Branca esta terça-feira.
Já durante a assinatura da carta que oficializa o Conselho,
Trump afirmou que existem “pessoas excelentes” na ONU, mas acrescentou que não
falou com nenhuma delas quando estava a trabalhar nas “oito guerras” que
terminou. Para o líder dos Estados Unidos, a ONU não se esforçou o suficiente
para as terminar, mas garante que o Conselho de Paz vai trabalhar “em
coordenação” com as Nações Unidas.
“Sempre disse que as Nações Unidas têm um potencial enorme,
mas não o usaram. Não tentaram o suficiente. Há um grande potencial nas Nações
Unidas e acho que a combinação do Conselho de
Paz, com o tipo de pessoas que temos aqui, juntamente com as Nações Unidas,
pode ser algo muito único para o mundo”, discursou.
Também o enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff,
insistiu que o Conselho de Paz é apenas “um grupo de líderes a partilhar ideias
para alcançar a paz”. “É disso que precisamos”, reiterou durante uma entrevista
citada pela CBS News.
No entanto, o estatuto do Conselho, a concentração de poder
em Trump, a capacidade de criar forças de estabilização, intervir em conflitos
globais e a retórica de criar uma alternativa “mais eficaz” fazem soar os
alarmes em vários países. França e China, por exemplo, veem o projeto como uma
tentativa clara de contornar ou rivalizar com a ONU, sobretudo com o Conselho
de Segurança, onde a Rússia e a China têm poder de veto.
O Conselho de Paz é, assim, tanto uma aposta ambiciosa como
um teste à ordem internacional. Para uns, representa pragmatismo e capacidade
de desbloquear conflitos onde as Nações Unidas falharam. Para outros, é um
instrumento de poder pessoal, moldado à imagem de Donald Trump e com regras
feitas à medida.
Fonte: Observador, 22 de janeiro de 2026

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