Espanha paga 2,5 milhões a vítima de um dos maiores erros judiciais da democracia do país
Sam &
Cat (2013–2014) - Jennette McCurdy
Detido
em 1991, Ahmed Tommouhi passou 15 anos na prisão. Quem o condenou é hoje a
ministra da Justiça espanhola, Margarita Robles. Mas foi vítima de “erro
judicial inequívoco e qualificado”, nas palavras do Tribunal Supremo de Espanha
Ahmed Tommouhi foi detido em 1991 e condenado por violação,
passou 15 anos na prisão e vai agora receber 2,5 milhões de euros de
indemnização, por ter sido vítima de um dos maiores erros judiciais da democracia espanhola.
Hoje com 75 anos, Ahmed Tommouhi vive em Barcelona e viu-se
esta semana de novo nas primeiras páginas dos jornais e nos noticiários das
televisões, depois de o Tribunal Supremo de Espanha ter decidido que o Estado tem
de o indemnizar com 2,5 milhões de euros por um "erro judicial inequívoco
e qualificado" que tem como uma das
protagonistas a juíza que é hoje ministra da Justiça, Margarida Robles.
Por causa desse erro, Ahmed Tommouhi ficou, como sublinhou o
Tribunal Supremo, "privado de liberdade durante um período
extraordinariamente prolongado" e isto
apesar de já em 1997 ter sido evidente que não era culpado.
Ahmed Tommouhi, trabalhador na construção civil, era
imigrante em Espanha há poucos meses quando foi detido, em 1991, com outro
marroquino, Abderrazak Mounib, vendedor ambulante que não conhecia. Os dois
foram suspeitos de serem os autores de uma onda de assaltos e violações na
Catalunha (nordeste de Espanha).
Ambos foram condenados em 1992 com base numa única prova - a identificação por uma parte das vítimas, quando foram colocados numa fila de suspeitos e depois de terem sido levados à esquadra algemados, percorrendo os corredores onde esperavam as denunciantes, o primeiro erro do processo policial e judicial.
Abderrazak Mounib morreu de enfarte na prisão, em 2000, e
Ahmed Tommouhi saiu em liberdade condicional em 2006, sem nunca aceitar
qualquer acordo em troca de uma redução da pena, como frequentar terapias para
agressores sexuais. Disse sempre que era inocente e isso seria reconhecer-se
como culpado e pelo mesmo motivo rejeitou pedir um indulto, "um perdão de
um crime".
Ahmed Tommouhi foi condenado e declarado culpado de quatro
violações, em três sentenças diferentes, por ter sido identificado por uma
vítima, então com 14 anos, que mais tarde reconheceu, publicamente, poder
ter-se enganado, apelando ela mesma a que o caso fosse revisto.
Mas ainda antes, durante o próprio julgamento, foi cometido aquele que agora o Tribunal Supremo
qualificou como um "erro judicial inequívoco e qualificado" - foi
ignorada "uma prova pericial biológica" segundo a qual o ADN do sémen encontrado na roupa
de uma vítima não era compatível com os de Ahmed Tommouhi ou Abderrazak Mounib.
O júri do tribunal que os condenou, coordenado por Margarita Robles,
ignorou essa prova, "apesar de ter sido admitida e formar parte
do processo", e quando os peritos chamados a testemunhar não apareceram na
sessão a que tinham sido chamados, o julgamento não foi interrompido nem foram
de novo notificados, como pedia a defesa.
"Esse erro foi determinante", como sublinhou o
Tribunal Supremo, mas não é o único.
Quando Ahmed Tommouhi e Abderrazak Mounib já estavam na
prisão, repetiu-se, em 1996, nova onda de
assaltos e violações, com o mesmo 'modus operandi', com vítimas a identificarem de novo os dois homens
como autores dos crimes num conjunto de fotografias que lhes eram apresentadas.
Foi então detido um homem, Antonio García Carbonell,
espanhol, muito parecido fisicamente com Ahmed Tommouhi e cujo ADN era
compatível com os restos de sémen identificados na roupa da vítima de 1991.
Em 1997, com base no caso de Antonio García Carbonell, foi
anulada a primeira condenação a Ahmed Tommouhi e Abderrazak Mounib, mas as
autoridades recusaram sempre reabrir ou pedir a revisão das restantes, pelo que
ambos continuaram presos.
O Ministério Público propôs em 1997 um indulto para os dois
homens (que foi recusado pelos sucessivos governos espanhóis) mas nunca pediu a
revisão dos casos.
Foi só na sequência do trabalho do jornalista do El Pais
Braulio García Jaén, que a partir de 2004 se interessou pelo caso, que
existiram desenvolvimentos.
O jornalista publicou vários artigos e um livro sobre Ahmed
Tommouhi e pela primeira vez denunciou a prova científica biológica que tinha
sido ignorada. O processo foi então revisto pelo Supremo espanhol, já depois de
cumprida toda a pena de prisão por parte do inocente condenado.
Em sucessivas decisões do Supremo, foram anuladas todas as
condenações (a última em 2025) e agora decidida uma indemnização para Ahmed
Tommouhi, com o Supremo a justificar o valor de 2,5 milhões de euros com a
"excecional gravidade" do caso e o impacto "nas oportunidades de
vida" e na personalidade do afetado, que "excede em muito os
parâmetros ordinários dos supostos de prisão indevida".
Ahmed Tommouhi, que tem hoje uma perna amputada devido a
problemas de diabetes e circulação, não voltou a trabalhar depois de sair da
prisão.
"Esses 2,5 milhões de euros não me permitirão recuperar
a juventude, nem a vida, nem todo o tempo que não pude passar com os meus
filhos e que me roubaram", disse Ahmed Tommouhi na sexta-feira ao El
Pais.
Acrescentou que foi condenado "por erros ou por
racismo" e "do pesadelo nunca se sai, esquece-se um pouco", mas
reconheceu que com estas decisões do Supremo lhe devolveram a honra.
O livro do jornalista Braulio García Jaén sobre este caso
tem como título "Justiça poética", um sistema que, nas
palavras do autor, "substitui a valorização das provas pela construção de
um relato que persegue não tanto o delito, mas a sensação de impunidade".
Fonte: Expresso, 20 de junho de 2026
Justiça poética, efetivamente. Uma meritíssima juíza com essa sólida formação académica reúne todos os requisitos para ser ministra.

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