Extrema-direita (incluindo Chega) usa morte de Nowak para propaganda
Vários
partidos europeus de extrema-direita têm feito uso assassinato de Henry Nowak
para propagar uma retórica populista sobre questões raciais e de imigração,
apesar dos apelos da família da vítima para que o seu homicídio não fosse usado
para fins políticos
Vários políticos da extrema-direita europeia têm usado o
assassinato de Henry Nowak, o jovem de 18 anos que foi algemado na sequência de
uma denúncia falsa de um crime de ódio, tendo acabado por morrer devido aos
ferimentos de faca que sofreu, em Southampton, no Reino Unido, para propagar
uma retórica populista sobre imigração.
Conforme noticiou o The Guardian, os comentários de
líderes e deputados de extrema-direita têm-se focado em questões raciais e de
imigração, apesar dos apelos da família da vítima para que o seu homicídio não
fosse usado para fins políticos. É que, recorde-se, o autor do crime, Vickrum Digwa, é um cidadão britânico que pertence à
comunidade sikh, cujos líderes já se demarcaram das ações do jovem de 23 anos.
"Isto não é representativo da comunidade sikh.
Tratou-se de um único indivíduo", disseram, num comunicado conjunto citado
pelo jornal britânico.
Ainda assim, o líder do Chega, André Ventura, foi uma das
vozes críticas, tendo apontado que "isto é o sintoma da doença que a
Europa está a ter agora".
"Um branco, de 18 anos, esfaqueado até à morte por um desses sikhs que andam com facas no bolso, porque dizem que é por motivos religiosos. Com uma faca de 21 centímetros, esfaqueou-o até à morte, deixou-o o sufocar no próprio sangue, e a polícia, quando chegou, em vez de ir ajudar o rapaz, foi fazer o serviço ao indiano ou ao sikh, porque havia uma acusação de racismo ou de abuso racial", contextualizou.
E atirou: "Este rapaz morreu e ninguém quer saber dele.
Veem manifestações, como viram com George Floyd, de ter sido sufocado pela
polícia, viram alguém na rua de cravos, viram alguma manifestação pelas cidades
europeias sobre este rapaz? Não. Ele não interessa porque é branco, porque
estava a viver a sua vida, porque não é de uma minoria. É isto que estamos a
criar. Essas minorias são mais importantes do que nós todos. Foi essa a cultura
que a Europa criou."
Já Rita Matias, deputada do mesmo partido, juntou-se ao coro
de figuras que partilharam as imagens do incidente, que foram divulgadas na
terça-feira pela polícia de Hampshire, e que, ao contrário do referido por
Ventura, têm gerado uma onda de contestação no Reino Unido.
"Henry Nowak, um jovem de 18 anos, foi esfaqueado cinco vezes por um cidadão indiano [é, na verdade, um cidadão britânico]. O agressor tinha autorização para transportar uma faca por motivos religiosos – e foi precisamente essa faca que utilizou para atacar Henry. Ferido e a sangrar, Henry procurou ajuda da polícia. Mas, em vez de protegerem a vítima, os agentes decidiram acreditar na versão do agressor, que alegou ter sido atacado e vítima de racismo. Resultado: foi Henry quem acabou algemado. Enquanto era detido, gritou nove vezes que não conseguia respirar. Foi ignorado. Acabou por morrer algemado, tratado como um criminoso quando era a vítima", escreveu, na descrição de um vídeo publicado na rede social Facebook.
Ao que tudo indica, o pai de Nowak é de ascendência polaca.
Marta Czech, membro da Confederação da Coroa Polaca, de extrema-direita, apelou
à "defesa dos polacos no [Reino Unido] e no estrangeiro", durante uma
reunião de ativistas realizada na semana passada, em Londres.
"Não temos políticos que se preocupem com os interesses
polacos, nem polacos que representem os nossos valores no estrangeiro, pessoas
com rosto polaco, com passaporte polaco. Temos de estar preparados para
reprimir estes ataques. Temos de nos unir contra tais ataques", defendeu.
Numa retórica semelhante, Ewa Zajączkowska-Hernik, eurodeputada polaca do Patriotas pela Europa, culpou a "imigração em massa" e a "propaganda de esquerda" pelo "rumo que a Europa está a tomar".
"A vítima que implora por ajuda foi tratada como o pior
dos criminosos e morre por hemorragia, porque as forças de segurança, que
deveriam proteger um homem assim, têm os cérebros lavados pela propaganda de
esquerda e tomam o partido do agressor, por causa do ‘racismo’. Esta é uma
alegoria do rumo que a Europa está a tomar, obcecada por uma política
destrutiva de migração em massa e por um politicamente correto doentio. É uma
Europa que se condena à morte", escreveu, no Facebook.
Também o político francês de extrema-direita Éric Zemmour
condenou o "agressor imigrante protegido pela religião do antirracismo que
paralisou governantes e agentes da polícia", tendo considerado que
"este assassinato atroz é uma alegoria do que o Ocidente vive: o nativo
torna-se suspeito".
"Desta vez, não haverá nenhum joelho no chão. Os europeus, em casa, não têm esse direito", redigiu, no X.
De igual modo, o líder do partido espanhol de
extrema-direita Vox, Santiago Abascal, afirmou que Nowak foi algemado
"para não ofender quem acabara de o esfaquear até à morte".
"Os grandes meios de comunicação, em silêncio, como de costume. As elites globalistas que deram origem a esta loucura também fingem não ver. Há muitos responsáveis e cúmplices nas atrocidades que vemos diariamente na Europa. Todos deveriam responder perante a justiça, e um dia fá-lo-ão", disse.
Por sua vez, o líder do Reform UK, Nigel Farage, lançou que,
apesar de a família da vítima "ter respondido de uma forma extremamente
digna", a restante população deveria reagir com "raiva pura e
fria" face às ações da polícia. Perante a Câmara dos Comuns, na
quarta-feira, reiterou ainda que o incidente se deveu a uma "polícia de
dois pesos e duas medidas".
Em resposta, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou que "não havia justificação para mais violência e desordem"
Sublinhe-se que uma ex-polícia foi obrigada a refugiar-se
num local seguro, após ter sido falsamente acusada online de estar envolvida no
homicídio. Christi Hill, que foi agente durante 12 anos, criticou as redes
sociais e as plataformas de IA, incluindo o Grok de Elon Musk, por espalharem a
falsa alegação de que foi um dos polícias que algemou Nowak.
Note-se que Digwa foi, na segunda-feira, condenado a prisão
perpétua com uma pena mínima de 21 anos.
Fonte: Notícias ao Minuto, 4 de junho de 2026







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