FMI. Seis das oito maiores ameaças à economia devem concretizar-se e causar danos relevantes
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(2007–2012) - Jennette McCurdy, Nathan Kress, Noah Munck, Andrew Hill Newman
Fundo
Monetário Internacional fez “matriz de riscos” da economia e concluiu que no
topo estão as novas barreiras à imigração, envelhecimento, dívida, tarifas e
guerras. Apresenta soluções
Até agora, a economia portuguesa tem conseguido ultrapassar
algumas fragilidades internas e, de certo modo, reduzir o impacto dos grandes
abalos e choques externos que têm marcado os últimos anos, mas para o Fundo
Monetário Internacional (FMI), o país tem de
acelerar nas reformas estruturais se
quiser continuar a recuperar e a garantir o seu lugar no grupo dos países mais
desenvolvidos.
No âmbito da nova avaliação do Artigo IV a Portugal, o FMI
desenhou uma "matriz" de riscos externos e internos, alguns já reais
e efetivos, outros emergentes, e conclui que o país enfrenta atualmente oito
grandes riscos.
Destes, seis são "altamente" prováveis de
acontecer (alguns já em curso); e nesta meia dúzia, o impacto negativo esperado
é relevante e assinalado na "matriz" em jeito de avisos laranjas e
encarnados.
Segundo o Fundo, as ameaças mais sérias e preocupantes que o
governo e os restantes atores económicos devem ter em conta vêm, por exemplo,
das "políticas de imigração mais
restritivas" (porque podem provocar "escassez" na
mão-de-obra disponível e dificultar a criação de emprego), do envelhecimento populacional (que pode exercer uma pressão insustentável sobre
as contas públicas e a dívida), das tarifas
comerciais e do protecionismo (que tendem a destruir boas empresas e
indústrias exportadoras, ao mesmo tempo que geram mais inflação e travam
crescimento e novos investimentos), da guerra,
só para citar alguns dos perigos listados pelo antigo credor de Portugal.
A Matriz de Avaliação de Riscos elaborada pelo FMI é um
quadro, apresentado numa lógica sobretudo qualitativa, de "eventos que
podem alterar de forma material o cenário de base", as projeções centrais
para a economia portuguesa apresentadas esta quarta-feira, em Washington.
Essa probabilidade "reflete a avaliação subjetiva da
equipa técnica [a missão do FMI a Portugal], sendo classificada como baixa
(inferior a 10%), média (entre 10% e 30%) e elevada (entre 30% e 50%)".
Esta matriz "sintetiza a perspetiva dos técnicos da
missão sobre a origem dos riscos e o grau geral de preocupação no momento das
discussões com as autoridades", que decorreram entre 23 de abril e 6 de
maio.
1. Conflitos
De acordo com o novo estudo, os riscos globais incluem, em
primeiro lugar, o problema das tensões geopolíticas e da intensificação dos
conflitos, cuja probabilidade relativa é considerada "elevada".
Segundo a equipa do FMI, "o agravamento das tensões
geopolíticas e o enfraquecimento do multilateralismo aumentam o risco de
escalada de conflitos militares, acompanhados por danos em infraestruturas
físicas e financeiras essenciais, interrupções em rotas de transporte e cadeias
de abastecimento, maiores pressões migratórias, fricções financeiras adicionais
e volatilidade nos mercados".
O impacto esperado, embora considerado médio para o caso de
Portugal, decorre sobretudo de "riscos indiretos, como o aumento dos
preços das importações e o enfraquecimento do crescimento dos parceiros
comerciais".
Como resposta, o FMI
recomenda "a adoção de
apoios temporários e bem direcionados a famílias e empresas vulneráveis para
mitigar os efeitos dos preços mais elevados da energia", bem como "a
reorientação do investimento público para áreas que reforcem a competitividade
e acelerem reformas
estruturais que facilitem a reafectação de postos de trabalho".
2. Tarifas, protecionismo
Outro risco (o segundo da matriz) ainda mais relevante vem
do protecionismo e das perturbações no comércio global. Aqui, a probabilidade
de haver um impacto real é "elevada" para mais porque as tarifas
elevadas já são uma realidade para muitos sectores.
O Fundo adverte que "medidas alfandegárias e não
alfandegárias podem interromper cadeias de abastecimento globais, penalizando a
atividade económica e aumentando a inflação,
ao passo que o desvio de comércio pode desencadear um ciclo ainda mais longo de
protecionismo".
A instituição sediada em Washington não tem grandes dúvidas.
O impacto disto "é elevado, uma vez que barreiras comerciais mais altas e
disrupções nas cadeias de abastecimento reduziriam as exportações de bens,
abrandariam o crescimento e pressionariam a inflação".
Para tentar minimizar os danos, "as respostas políticas
passam por trabalhar com parceiros da União Europeia para aprofundar o mercado
único e celebrar novos acordos comerciais, além de prosseguir reformas estruturais que
aumentem a produtividade, a competitividade e a diversificação dos parceiros
comerciais".
Para amortecer os impactos no crescimento, o FMI sugere que
"os estabilizadores automáticos devem ser ativados em primeiro lugar e, em
caso de recessão severa, pode ser necessário um relaxamento orçamental
temporário, mantendo", mas observando sempre que o excedente público
primário [saldo sem contar com a despesa em juros] é "compatível com a
redução da dívida" portuguesa.
A fragilidade da dívida é, aliás, um assunto recorrente
neste estudo do Artigo IV pois, embora o FMI reconheça os avanços do país nesta
matéria, o peso do endividamento público "continua elevado". Está na
casa dos 80% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e no próximo, mas devia
estar mais perto de 60%, como manda o Pacto, defendem instituições como o FMI,
a Comissão Europeia, o Banco de Portugal ou a OCDE.
3. Preços das matérias primas
Terceira ameaça: a volatilidade dos preços das
matérias-primas e a exposição a este tipo de bens constitui outro risco global
do país com "elevada probabilidade" de se materializado, como prova a História recente deste ano, desde
que começou a guerra contra o Irão e no Médio Oriente.
Para a missão que segue Portugal, "os desequilíbrios
entre oferta e procura, motivados por tensões geopolíticas, decisões
coordenadas de produção, alterações nas preferências dos investidores ou
mudanças estruturais na procura, podem provocar oscilações nos preços,
ampliando pressões externas e orçamentais, tensões sociais e instabilidade
macroeconómica".
Ainda que, nesta fase, o impacto esperado na economia
nacional seja considerado "médio", o
FMI alerta que mais guerras e conflitos tenderão a trazer sempre "mais
inflação, menos investimento e crescimento mais fraco" a
famílias, empresas e sector público.
Aqui, o Fundo admite mesmo que pode haver "um cenário
de choque severo que afete a procura interna ou externa, nomeadamente no
mercado imobiliário", algo que levará os preços das casas a "cair
acentuadamente, agravando a desaceleração [da economia como um todo]".
Como resposta, o país e o governo devem voltar a considerar
"a reintrodução de apoios temporários e dirigidos a famílias e empresas
viáveis em dificuldades, condicionando o apoio empresarial a metas de
eficiência energética, bem como acelerar a transição para energias renováveis
através de maior investimento".
4. Dívida e taxas de juro
Outra ameaça (a quarta da matriz) com elevada probabilidade
tem a ver com "as vulnerabilidades orçamentais e o aumento das taxas de
juro" do país.
"Níveis elevados de dívida e défice público exercem
pressão ascendente sobre as taxas de juro de longo prazo, apertando as
condições financeiras globais, aumentando a volatilidade cambial e reduzindo o
consumo e o investimento, o que agrava a dinâmica da dívida", indica a
instituição.
Há uns anos não era assim, mas agora o FMI defende que
"o impacto é considerado médio em Portugal, dado o reforço recente da
posição orçamental, que mitiga aumentos acentuados dos prémios de risco. Ainda
assim, o nível de dívida permanece elevado e qualquer aumento das taxas de juro
soberanas elevaria os custos de refinanciamento, limitaria a margem orçamental
e abrandaria o processo de desalavancagem, além de travar a recuperação do
investimento".
Portanto, sem surpresa, o antigo credor insiste que é
preciso "manter a disciplina orçamental para preservar a confiança dos
mercados e reorientar a despesa pública para o investimento, mitigando os
efeitos do aperto financeiro sobre o investimento privado".
Ameaças que vêm de dentro
Até aqui foi o desfile das maiores ameaças externas. Em cima
destas, o FMI identificou as ameaças internas, os chamados "riscos
específicos de Portugal".
5. Ciber-ameaças
Entre os perigos com "elevada probabilidade" de
ocorrerem estão as "ciber-ameaças", por exemplo. É a quinta grande
ameaça.
Por enquanto, o FMI considera que o impacto na economia
destes ataques ainda pode ser "baixo", mas aconselha vivamente que o
país siga e aplique as recomendações do novo Programa de Avaliação do Sector
Financeiro (FSAP, na sigla inglesa) que o Fundo entregou esta semana.
A prioridade, defende, é garantir "a resiliência das
instituições financeiras" e "a proteção e resiliência de outras
entidades críticas, como serviços públicos, organismos governamentais e
empresas de transporte".
6. Barreiras à imigração e envelhecimento
Como referido, outro dos avisos encarnados (sexta grande
ameaça, mas uma das mais relevantes) é por causa das recentes barreiras à
imigração impostas por iniciativa do atual governo do PSD-CDS, com apoio do
Chega.
Para o FMI, "políticas migratórias mais restritivas
agravam a escassez de trabalhadores em economias envelhecidas, como Portugal,
reduzindo o produto potencial, pressionando a inflação e afetando as finanças
públicas através de menores receitas", como os descontos para a Segurança
Social e os impostos pagos pelo número crescente de imigrantes que marcou os
últimos anos até muito recentemente.
O FMI considera que o impacto destas novas barreiras em
Portugal "é elevado", dada "a dependência crescente da imigração
para sustentar a oferta de trabalho, pelo que restrições adicionais diminuiriam
o crescimento potencial e aumentariam a inflação".
Como resposta, o Fundo recomenda que o país alivie
restrições; "promova a participação no mercado de trabalho e aumente a
flexibilidade laboral por
via de reformas estruturais adequadas".
E também pediu ao governo e aos políticos uma nova reforma do sistema de pensões. O que
existe é insustentável no médio longo prazo, na opinião do antigo credor.
Outras ameaças, mas menos iminentes
O sétimo risco, mas cuja probabilidade de impacto na
economia é considerado, para já, menos elevada, diz respeito às alterações
climáticas.
"Representam um risco de probabilidade média", na
avaliação do FMI.
"Eventos climáticos extremos e o aumento das
temperaturas podem causar perdas humanas, danos em infraestruturas, insegurança
alimentar, perturbações nas cadeias de abastecimento e maior instabilidade
económica e financeira", mas o impacto esperado em Portugal "é
médio", sendo de considerar, em todo o caso, "fenómenos como
tempestades, cheias e incêndios a perturbar a atividade económica, como os
registados nos últimos anos", recorda o FMI.
Como respostas possíveis, o Fundo indica "apoio
orçamental direcionado a famílias e empresas afetadas e reforço do investimento
público em infraestruturas de adaptação, bem como reformas que aumentem a
resiliência das atividades produtivas".
Finalmente, o oitavo grande risco, também considerado
interno. "A persistência da inflação
subjacente constitui um risco de probabilidade média" combinado
com "um crescimento dos salários reais superior ao da produtividade pode
manter a inflação acima da média da Zona Euro".
Para o FMI, o impacto esperado é igualmente
"médio", uma vez que expectativas de inflação mais elevadas
"podem pressionar salários e abrandar a descida da inflação, afetando
negativamente a competitividade externa e reforçando efeitos de segunda ordem
associados a aumentos dos preços das matérias-primas".
Neste caso, a "resposta política, na ausência de
política monetária autónoma, passa por calibrar cuidadosamente a política
orçamental, equilibrando objetivos de crescimento e inflação, e continuar a
promover a participação no mercado de trabalho".
Fonte: Dinheiro Vivo, 25 de junho de 2026

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