Lavar roupa e tirar nódoas? Cientistas criam spray que poupa 80% de água, energia e tempo

 

Pariya Carello, influenciadora digital e criadora de conteúdo canadiana vivendo em Toronto, Ontário

Investigadores desenvolveram um revestimento aplicado por pulverização em tecidos naturais e sintéticos que permite remover manchas, bactérias e fungos apenas com uma passagem de água, sem detergente

Primeiro, as boas notícias: a investigação, publicada esta quinta feira na revista Communications Chemistry, do grupo Nature, aponta para reduções de cerca de 82% em água, eletricidade e tempo face a um ciclo convencional de lavagem de roupa na máquina. Agora, as menos boas: ainda é demasiado cedo para calcular o custo e a viabilidade da aplicação à escala industrial desta nova solução.

Mas, afinal, do que estamos a falar? Trata se de um novo revestimento em camadas finas, aplicado por spray sobre tecidos naturais e sintéticos, que cria à superfície da roupa uma “película de hidratação” tão densa que impede a adesão de sujidade e microrganismos, permitindo que estes saiam com uma simples passagem por água da torneira. Resta saber, no entanto, quando — e quanto — o consumidor poderá vir a pagar por isto.

“As práticas modernas de lavagem de roupa consomem grandes quantidades de água e energia e requerem detergentes para remover manchas. Estes detergentes aumentam frequentemente a libertação de microplásticos da roupa e podem poluir os cursos de água. A maioria dos esforços para tornar a lavagem de roupa mais sustentável tem-se centrado, até agora, na redução do consumo de água e energia”, contextualiza o comunicado de imprensa.

Esta nova solução, composta pela combinação de dois polielectrólitos — polímeros que são macromoléculas formadas pela repetição de unidades estruturais menores —, foi desenvolvida por uma equipa das universidades Southeast (Nanjing) e Jilin (Changchun), na China. A equipa de cientistas pulverizou dois produtos químicos — cloreto de polidialildimetilamónio (PDADMAC) e ácido polivinilsulfónico (PVS) — sobre a roupa em ciclos alternados para produzir cinco camadas duplas finas (camadas duplas de moléculas muito próximas umas das outras).

Um ciclo em vez de cinco

Nas experiências realizadas em laboratório, o método igualou ou superou as lavagens com detergente em algodão, poliéster e seda, incluindo manchas difíceis como óleo de motor e molho de soja. “Também superou os métodos convencionais no que diz respeito ao desempenho antibacteriano e antifúngico”, refere o comunicado de imprensa sobre este trabalho.

Teste de remoção de manchas em condições reais realizado numa t-shirt de algodão branca — o lado direito (na foto) foi revestido com o material. As fotos mostram como um corante solúvel em óleo é completamente removido após uma única lavagem com água, enquanto o lado esquerdo, sem revestimento, apresenta uma mancha dispersa persistente após a lavagem com detergente

“A camada ultradensa atrai e retém água à superfície, enfraquecendo a adesão de óleos, proteínas e microrganismos; assim, a limpeza faz se com um simples enxaguamento”, escrevem os autores no artigo.

O estudo descreve, com ambição, uma mudança de paradigma. O artigo científico demonstra que o revestimento permite substituir o ciclo tradicional (1 lavagem + 4 enxaguamentos) por uma única passagem de água sem detergente, o que conduz a cerca de 82% de redução de água, eletricidade e tempo por carga. Além disso, ao eliminar detergentes, deixa de ser produzida água residual com surfactantes e microplásticos dispersos, reduzindo emissões para linhas de água.

Higiene e mofo: o teste do algodão

Além da remoção de gordura e alimentos, o revestimento terá demonstrado repelência a proteínas, bactérias (E. coli, S. aureus, P. aeruginosa) e fungos (C. tropicalis), impedindo o aparecimento de bolores após o uso. Nos ensaios com peças reais — como metade de umas calças tratadas e a outra metade não —, as manchas e o mofo surgiram na Em testes de biocompatibilidade, extratos do tecido revestido revelaram segurança para contacto com a pele. Este desempenho manteve se após mais de 100 ciclos de uso e passagem por água, exposição solar e variações químicas de pH. Por outro lado, em peças de poliéster, a libertação de microplásticos foi significativamente menor nas amostras revestidas e apenas enxaguadas do que nas lavadas com detergente, sugerindo um efeito de “retenção” de microfibras. perna sem revestimento, mas não na parte revestida.

Demonstração da remoção de manchas em tecidos revestidos e enxaguados, em comparação com tecidos não revestidos enxaguados apenas com água ou lavados com detergente

“Os testes em células de rato sugerem que o revestimento é seguro para contacto prolongado com a pele; a libertação de microplásticos a partir de fibras sintéticas reduz se face a métodos convencionais”, resume o comunicado de imprensa. Em experiências com feijão-vermelho (Vigna umbellata) os resultados também sugerem que a nova solução não afeta o crescimento das plantas.

O caminho até às nossas casas

Há, porém, como referimos no início, uma pedra no caminho: contas feitas, o custo inicial do revestimento é, hoje, “substancialmente superior” ao dos detergentes domésticos. Ainda assim, os autores afirmam que acaba por compensar após entre 15 e 50 lavagens (dependendo da marca de detergente), graças às poupanças em água e energia e à durabilidade da película. O artigo científico especifica que a equivalência de custos ocorre ao fim de aproximadamente 48 ciclos face a detergentes comuns e 15 ciclos face a detergentes premium.

Se este spray chegar às prateleiras dos supermercados, vai ser preciso esperar. “A aplicação industrial — o cenário mais provável, segundo os investigadores — exigirá validações e processos de escala que não estão definidos”, refere o comunicado de imprensa. O método de pulverização parece simples, mas os autores consideram que a aplicação terá provavelmente de ocorrer durante o fabrico da roupa, e não em contexto doméstico.

Um teste de desempenho antimofo em condições reais realizado num par de calças — a perna esquerda (na foto) recebeu o revestimento. Após ter sido usada durante um dia, lavada, secada na máquina e guardada num ambiente quente e húmido, a perna sem revestimento das calças apresenta um crescimento visível de bolor branco, enquanto a perna revestida permanece limpa 

Mas há mais obstáculos. O artigo agora publicado foi aceite a 5 de fevereiro de 2026 e descreve resultados de laboratório e ensaios piloto com máquinas e peças reais. Falta cumprir o decisivo passo de transição do laboratório para a indústria e demonstrar o desempenho em cadeias de produção têxtil, a resposta a ciclos prolongados de uso doméstico com águas de dureza variável e a compatibilidade com tingimentos e acabamentos comerciais.

Ou seja, como tantas outras vezes acontece na ciência, estamos perante uma promessa: uma solução potencialmente mais eficiente, menos poluente e que, a longo prazo, poderá traduzir se numa poupança. Falta, porém, retirá-la do laboratório, levá-la à escala industrial e só depois, se tudo correr bem, até às prateleiras do supermercado.

Entre a eficiência anunciada e a realidade do cesto da roupa falta ainda um percurso longo, cheio de etapas técnicas e económicas. Até lá, ficamos entregues às máquinas de sempre, aos detergentes do costume e aos métodos caseiros, enquanto a ciência promete — mas ainda não entrega — uma “mudança de paradigma” na forma como lavamos roupa.

Fonte: Público, 19 de março de 2026

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