Mundial 2026. Avançado haitiano fugiu da guerra no Irão

 

O jogador estrela do Haiti, Duckens Nazon, que joga no Esteghlal FC — um dos clubes mais populares do Irão — esteve a 100 metros de bombas a cair no dia 28 de fevereiro, quando os ataques israelitas e norte-americanos ao país começaram.

“Eu estava prestes a apanhar um avião para Istambul ou Paris, quando o comissário de bordo disse a todos para desembarcarem”, explicou à BBC. O seu primeiro instinto foi fugir, mas o clube garantiu transporte para os jogadores e Nazon teve de voltar para a cidade de Teerão, como relata a Reuters. Lá, após horas de espera, partiu numa longa viagem de carro em direção ao Azerbaijão. “No total, passei talvez 20 horas na estrada”, disse.

Duckens Nazon partilhou a sua experiência no Snapchat e a publicação foi republicada por um utilizador no X. No vídeo, Nazon filma um veículo antigo e diz: “Vejam o que ele tirou da garagem para mim. Prefiro encarar o que vai acontecer aqui do que conduzir oito horas nesta coisa… Nem sei se vou chegar vivo”.

Na fronteira, as autoridades recusaram-se a deixá-lo passar e exigiram documentação adicional. Nazon ficou preso entre o Irão e o Azerbaijão durante 48 horas. “Mas tive muita sorte, porque, antes de a guerra começar, comprei um eSIM. Isso salvou a minha vida“, afirmou, citado pela BBC.

Foi assim que o jogador conseguiu falar com a embaixada francesa, que o ajudou a recuperar o seu passaporte: “Eles conversaram com as forças azerbaijanas e então consegui sair”. Enquanto isso, a sua esposa e os seus quatro filhos estavam em segurança em França, onde o ex-atacante do Coventry City nasceu. “Imagina ter a tua esposa e os teus filhos ao teu lado nessa situação. Se tu estás sozinho… Não diria que não me importo com a minha vida, mas fica-se mais relaxado e toma-se decisões de forma mais fácil e rápida”, referiu.

Como o futebol nacional no Irão ficou suspenso devido ao conflito, o avançado teve de seguir um programa de treino individual para se preparar para o Mundial. Esta é a primeira vez desde 1974 que o Haiti se qualifica para a competição.

“Somos embaixadores do nosso país e sabemos que temos uma responsabilidade”, afirmou. “Sabemos que os jovens também nos veem como exemplos. Mas não precisamos de nos pressionar ainda mais e, quando jogamos pelo nosso país, é mais uma missão e fazemos isso com paixão e amor”, explicou.

O primeiro jogo do Haiti será contra a Escócia, no sábado. Nazon já teve uma experiência no país adversário, quando foi emprestado ao St. Mirren pelo clube belga Sint-Truiden, para o segundo semestre da temporada 2018/19. O avançado disputou 12 jogos, marcando dois golos, mas disse que não estava preparado para a garra do futebol escocês. Além disso, Nazon teve dificuldades em adaptar-se ao clima do país. “Lembro-me de um jogo em que tivemos sol, neve e chuva”, recordou. “Depois disso, pensei: ‘Ok, chega para mim'”.

Um assunto que preocupa o jogador é o preço dos bilhetes para o Mundial. “Espero que isso não afete a quantidade de pessoas que vêm ao estádio, porque queremos essa atmosfera. Queremos essa energia ao nosso redor. Estou ansioso por ver escoceses e haitianos nos estádios”, mencionou.

O jogador de 32 anos é o maior marcador da história do Haiti, com 44 golos em 78 jogos. Na sua publicação mais recente no Instagram, Nazon publicou uma foto de equipa com a legenda “(Estamos) prontos”.

Fonte: Observador, 12 de junho de 2026

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