No México, os preços dos bilhetes fazem com que o Mundial pareça um evento para a alta sociedade
Muitos
dos 80 mil presentes no jogo de abertura do Mundial 2026, México-África do Sul,
na Cidade do México, eram norte-americanos de
origem mexicana, com um maior poder de compra que os habitantes do
país. A própria presidente do México, Claudia Sheinbaum, decidiu não
comparecer, oferecendo o seu bilhete a Yolett Cervantes Cuaquehua, uma jogadora
de futebol amadora indígena
Marcelo Gonzales observou a parede verde e enérgica que se
movia na sua direção enquanto se dirigia para a entrada do Estádio Azteca, na
Cidade do México, pensando em quem compunha a multidão vestida com camisolas de
futebol no início do Campeonato do Mundo.
“O verdadeiro México? Não”, disse Gonzales, de 26 anos,
rindo ao ver dezenas de milhares de compatriotas, muitos deles com camisolas da
seleção nacional recém-compradas.
Com o início do torneio na tarde de quinta-feira, o mundo
teve um primeiro vislumbre das multidões que lotam aquela que é, de longe, o Mundial mais caro em quase um século de história do
evento.
A subida acentuada dos preços dos bilhetes tem sido uma das
maiores controvérsias a abalar o torneio de 48 equipas, que o México está a
coorganizar com o Canadá e os Estados Unidos. A FIFA, entidade organizadora,
justificou os preços afirmando que necessita dessas receitas para cumprir os
seus compromissos de financiamento para com o futebol mundial.
Os custos suscitaram não só a indignação dos adeptos, mas
também ações judiciais nos Estados Unidos. Gonzales e um amigo tinham comprado
os bilhetes apenas três dias antes e, na opinião deles, fizeram um bom negócio,
comprando-os a um amigo
por 3500 dólares cada (cerca de 3 mil euros).
Ao observar a multidão de adeptos que começava a encher a
enorme arena de betão de um dos estádios mais emblemáticos do futebol, Gonzales estimou que a maioria dos presentes pertencia à
alta sociedade mexicana, incluindo muitos políticos. “Já vi uns dez”,
disse ele.
Foi nesse contexto — um torneio para a elite — que a presidente mexicana Claudia Sheinbaum decidiu, há meses, que não assistiria ao jogo de abertura, um momento de alcance mundial que coloca o México no centro das atenções. Sheinbaum ofereceu o seu bilhete, que lhe teria garantido um lugar ao lado do presidente da FIFA, Gianni Infantino, a Yolett Cervantes Cuaquehua, uma jogadora de futebol amadora indígena de 21 anos, natural de Veracruz.
Sheinbaum, por sua vez, juntou-se aos adeptos numa exibição
pública na cidade. O jogo decorreu no meio de semanas de protestos por parte de
grupos que iam desde sindicatos de professores, que se queixavam dos salários e
das pensões, até agricultores e mães de pessoas desaparecidas.
Um pequeno grupo no exterior do estádio entrou em confronto
com agentes da polícia de intervenção. “Na verdade, estou um pouco triste
porque a situação no México não é das melhores, e temos este grande evento no
nosso país, o que me deixa com sentimentos contraditórios”, disse Alfonso
Asevez, de 40 anos, que assistia ao jogo. “Estamos aqui pelo futebol, mas a
verdadeira situação do país não se resume a este jogo.”
Dentro do estádio, os adeptos
estavam alheios a tudo, bebendo alegremente cervejas de 20 dólares enquanto
a sua equipa goleava a África do Sul, estreando-se no Mundial com uma vitória.
Muitos dos presentes eram norte-americanos de ascendência mexicana que viajaram
para dar o seu apoio — e contribuir com o seu poder de compra— à etapa mexicana
do torneio.
Entre eles estava Francisco Orozco, de 51 anos, que veio de
Los Angeles e gastou quase
10 000 dólares (cerca de 8,6 mil euros) em dois bilhetes. “As únicas
pessoas que vêm assistir ao jogo são aquelas que têm muito dinheiro ou que
pedem crédito para comprar bilhetes”, afirmou ele, especulando que o elevado custo dos bilhetes — entre três e dez vezes
superior ao do último Mundial — tem como objetivo atrair adeptos
mais abastados e bem-comportados.
Infantino participou numa conferência de imprensa no estádio
no dia anterior e foi questionado sobre a estratégia de preços da FIFA, que tem
sido alvo de escrutínio por parte dos procuradores-gerais de Nova Jérsia e Nova
Iorque e criticada por grupos de adeptos e políticos de todo o mundo.
“Cada dólar que entra é revertido para o desenvolvimento do futebol”,
afirmou
Infantino, que ganha cerca de 6 milhões de dólares por ano como presidente da
FIFA, uma organização sem fins lucrativos suíça.
“Realizamos uma competição de quatro em quatro anos. Nos
restantes 47 dos 48 meses, estamos a investir estas receitas no crescimento.
Mais ninguém está a fazer isso.”
Mas o México é o coração do futebol norte-americano — este
desporto domina acima de qualquer outro e transcende todas as classes sociais.
Ramon Barbosa, de 37 anos, que assistiu ao jogo de estreia com a irmã, não
precisou de recorrer às poupanças. Os bilhetes foram-lhe oferecidos por um
parceiro de negócios.
“Estes não são os fãs típicos”, disse ele. “Esta é uma
região privilegiada do nosso país”, acrescentou, referindo que muitas das
pessoas presentes no jogo ficaram impressionadas com a dimensão do evento.
O jogo foi precedido por uma cerimónia de abertura
grandiosa, que incluiu fogos de artifício nas cores da bandeira mexicana, uma
exibição aérea de jatos militares e a participação de estrelas internacionais,
incluindo a cantora pop Shakira e a atriz Salma Hayek.
O México é o segundo país da América Latina com maior número de
milionários, a seguir ao Brasil, mas também sofre de graves
desigualdades económicas. Um relatório da organização humanitária Oxfam,
publicado em março, revelou que 1% da população detinha 40% da riqueza do país.
Omar Pernas, um homem de 35 anos que se mudou de Espanha
para o México há oito anos, afirma que a estratégia de preços é contrária à
cultura do futebol. “Acho que o Mundial é para todos”, disse Pernas, que
trabalha na Amazon e conseguiu bilhetes gratuitos através de um cliente.
“Acho que não é a forma ideal para todos se divertirem.”



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