O estranho caso da implosão do PIB irlandês
Sam &
Cat (2013–2014) - Jennette McCurdy, Victoria Oscar
No
primeiro trimestre, a riqueza da Irlanda caiu mais de 12% e atirou a média da
Zona Euro para uma contração. Mas esse número está longe de explicar como está
a evoluir a economia do país
É uma evidência que as economias aceleram e desaceleram ao
sabor de inúmeros fatores. Nos últimos anos, tem
sido habitual que os valores dos indicadores económicos, nomeadamente o Produto
Interno Bruto (PIB) reflitam toda a instabilidade internacional,
desde a pandemia à guerra na Ucrânia ao conflito no Médio Oriente, com surtos
inflacionistas pelo meio. E depois, no meio de
tudo isto, há o caso da Irlanda, que é toda uma montanha russa de volatilidade
que praticamente não tem comparação próxima.
Os últimos números são disso sinal. No primeiro trimestre
deste ano, o PIB daquele país caiu 12,1%, uma forte revisão
em baixa face aos inicialmente reportados 2%, numa estimativa rápida anunciada em
abril. A dimensão foi tão severa que isso influenciou até o sentido da própria
média da Zona Euro, que entrou surpreendentemente no vermelho. Esta registou
uma contração homóloga de 0,2% no primeiro trimestre, uma significativa revisão
em baixa face ao crescimento de 0,1% inicialmente estimado pelo Eurostat.
Esta é a primeira contração desde o quarto trimestre de 2022 e a queda mais acentuada desde meados de 2020. Entre as principais economias da Zona Euro, Espanha liderou com um crescimento de 0,6%, enquanto a Alemanha e a Itália registaram uma expansão de 0,3% cada, e os Países Baixos cresceram 0,1%. Portugal estagnou (0%).
Mas afinal, o que explica tal queda no PIB irlandês, e
sobretudo tamanha diferença de escala face aos restantes países? É mesmo a
estrutura da economia irlandesa e, sobretudo, da particularidade de estar muito
dependente e muito exposta ao comportamento das multinacionais. Um dos elementos
do chamado “milagre irlandês”, a forte recuperação económica após a crise
financeira, foi a definição de condições fiscais muito agressivas e
competitivas para grandes empresas estrangeiras. Estas passaram a procurar a Irlanda
para sede de operações e, mesmo que não vendam ou produzam muito naquele país,
são fundamentais em termos de receita fiscal e criam muita volatilidade
contabilística. Para além disso, a Irlanda acaba por ser uma base ou
uma ponte de passagem de grandes fluxos financeiros destas empresas, acabando
por mexer com as contas do país mesmo que sem um verdadeiro impacto real no dia
a dia da economia.
Segundo os analistas e o próprio banco central da Irlanda, o fenómeno do
início deste ano deveu-se a um relativamente pequeno grupo de multinacionais da
área farmacêutica, cuja atividade ficou muito abaixo do esperado. A queda
“refletiu apenas um pequeno número de empresas multinacionais do setor
farmacêutico. A história por trás é que a explosão de exportações em 2025,
antes das temidas tarifas dos Estados Unidos, está agora a cair no início de
2026“, segundo um boletim do banco central.
A mesma leitura tem Stefan Gerlach, economista-chefe do EFG
Bank e antigo vice-governador do Banco da Irlanda. Em declarações ao ECO,
Gerlach explica que “estas empresas parecem ter aumentado as exportações para
os Estados Unidos no ano passado antes de possíveis aumentos de tarifas,
puxando pelo PIB na altura. Agora que tal efeito desaparece, as exportações
caíram, produzindo um efeito negativo grande sobre o PIB medido”.
Esta situação tem levado a um debate já com anos, na
Irlanda, sobre a utilidade de continuar a olhar para o PIB como o indicador de
referência. Por lá, mais do que noutros países da Europa, cada vez se olha mais
para outros indicadores, nomeadamente aqueles mais aptos a excluir o efeito
volátil das multinacionais.
“A economia irlandesa apresenta um contraste muito marcado
no primeiro trimestre. Enquanto o PIB caiu
12,1%, o rendimento nacional bruto cresceu 1,5%. Estes dois números
contam histórias muito diferentes acerca do estado da economia”, acrescenta
Gerlach.
Também por isso, os economistas têm encontrado outros
indicadores de referência, sendo o mais aceite o Modified
Domestic Demand, traduzido à letra por Procura Doméstica Modificada,
que tem apresentado um comportamento mais estável e considerado mais
proximamente relacionado com o andamento da economia, trimestre a trimestre.
Relacionado com esse existe também o Rendimento Nacional Bruto, que procura
medir a mesma coisa e retirar o efeito volátil que se viu no primeiro
trimestre, ou pelo menos parte dele.
“Este episódio ilustra a razão pela qual o número simples do
PIB é muitas vezes um guia pobre para as condições económicas de base na
Irlanda. As atividades das multinacionais podem ter um grande impacto no PIB
sem os efeitos correspondentes nas receitas, emprego ou gastos domésticos. Por
essa razão, muitos economistas irlandeses preferem medidas como o Gross
National Income, que retira muito do setor multinacional”, explica Gerlach ao
ECO.
A utilização do PIB como medida de medição de criação de
riqueza tem perto de 100 anos e, apesar das suas limitações, não parece estar
em risco de ser destronada. O facto de o PIB (e indicadores relacionados, como
o PIB per capita) se ter afirmado internacionalmente e se ter tornado a base de
comparação entre países e blocos económicos torna muito difícil qualquer
processo de abandono desta referência, apesar de não faltarem sugestões de
economistas e académicos que pretendem medir outras coisas, como o bem-estar e
o desenvolvimento social, por exemplo. Ainda assim, em países em que o PIB se
tem mostrado menos útil, como a Irlanda, têm surgido estas alternativas.
O próprio banco central irlandês tem feito estudos e relatórios
alertando para a importância de olhar mais de perto para componentes
específicos do PIB. Ficou famoso, aliás, um relatório de 2021 no qual a
instituição procurou desmistificar a questão do PIB, que colocava a Irlanda
como um dos países mais prósperos da Europa, quando os seus habitantes, na
verdade, não o sentiam no seu dia a dia.
Mas esta queda de 12% no PIB é apenas um acidente
contabilístico e pode ser ignorado ou há algo de útil, para a análise, a
retirar destes dados?
Para Stefan Gerlach, “estes desenvolvimentos não devem ser
ignorados apenas como um tema contabilístico. O setor multinacional é
enormemente importante para a Irlanda e representa uma grande parte dos
impostos sobre as empresas. Assim, as finanças
públicas continuam expostas a um súbito choque nesta fonte de receitas, a maior
parte da qual depende de um número relativamente pequeno de grandes empresas
multinacionais”.
Fonte: ECO, 14 de junho de 2026


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