O “Louco” da Argentina: por dentro do mundo de Javier Milei
iCarly
(2007–2012) - Jennette McCurdy, Miranda Cosgrove, Nathan Kress, Jerry Trainor
A Otacon Party, um evento regular para fãs de anime e manga
realizado no Centro Galiza, em Buenos Aires, nunca foi conhecida por ser
explicitamente política. Os participantes compram banda desenhada e peluches do
Pikachu e cantam karaoke, muitas vezes vestidos com fatos coloridos.
Mas no evento de fevereiro de 2019, um cosplayer
destacou-se entre os demais.
“Eu sou o general Ancap”, declarou a figura mascarada com um fato de super-herói preto e amarelo, empunhando um cetro gigante.
“A minha missão é dar um pontapé no traseiro dos filhos da puta
keynesianos e coletivistas que querem arruinar as nossas vidas.”
Enquanto a maioria dos super-heróis se contenta em lutar
contra mutantes ou génios do mal com dispositivos apocalípticos, o general
Ancap (abreviatura de anarcocapitalismo) – ou, para usar a sua verdadeira
identidade, o economista radical Javier Milei – considerava o próprio governo
uma organização criminosa.
Quatro anos depois, o general Ancap tornou-se presidente da
Argentina.
Milei tende a ser teatral, e a sua aparência pública – com as suas longas patilhas e cabelo despenteado – não é menos icónica do que a do seu alter ego de super-herói. O comentador político que se tornou presidente, com a sua personalidade extravagante, tem fama de excêntrico, desde brandir uma motosserra em comícios até comunicar telepaticamente com os seus cães falecidos.
“Todos nós que o conhecemos sabemos que não é uma pessoa
equilibrada”, disse Mariano Fernández, economista da Universidade CEMA (UCEMA)
de Buenos Aires, à Al Jazeera. Fernández conhecia o presidente desde a
altura em que ambos estudavam juntos, em 2005, até Milei entrar na política por
volta de 2020.
“A sua relação com o poder, o seu exercício do poder, a sua
veemência e as suas oscilações de humor são o que representa o governo de
Milei”, afirmou. “Essencialmente, é um governo
autocrático, anárquico e paranoico.”
Eleito com a promessa de revitalizar a economia sul-americana em crise através de uma “terapia de choque” – uma estratégia controversa que envolve a desregulação das empresas e cortes drásticos no financiamento público – a agenda de Milei teve resultados mistos.
Os escândalos de corrupção também têm marcado o seu governo.
No ano passado, a irmã de Milei, Karina, a sua confidente mais próxima, foi
implicada num esquema de subornos que envolvia empresas farmacêuticas
estrangeiras.
Então, o que se passa na mente do líder mundial, apelidado
de “El Loco”?
A formação de um economista
Javier Gerardo Milei nasceu a 2 de outubro de 1970, em
Buenos Aires. O seu pai, Norberto, era taxista e, mais tarde, proprietário de
uma empresa de transportes. Norberto era também abusivo, batendo frequentemente no
pequeno Javier, chamando-lhe “lixo” e dizendo que morreria de fome.
“Foi atacado e humilhado pelo pai; teve uma vida muito,
muito difícil, e o Milei que vemos hoje é obviamente uma consequência disso”,
disse Juan Luis González, autor de “El Loco”, uma biografia do líder argentino,
à Al Jazeera.
Apenas Karina tentou protegê-lo, enquanto a mãe de Milei,
Alicia, dona de casa, não era violenta, mas tolerava os abusos ao tomar o
partido do marido. Certa vez, Karina assistiu a Norberto a espancar o irmão com
tanta violência que teve um ataque de pânico.
“A tua irmã está assim por tua causa”, disse Alicia ao
filho. “Se ela morrer, a culpa é tua.”
Embora mais tarde se tenha distanciado dos pais, chegando
mesmo a recusar-se a falar com eles, Karina manteve-se uma das suas confidentes
mais próximas.
Nessa altura, de 1976 a 1983, a Argentina esteve sob regime
militar, após um golpe de Estado com o objetivo de exterminar os chamados
“terroristas”. Os esquadrões da morte assassinaram até 30 000 alegados
simpatizantes comunistas durante a Guerra Suja, e muitos outros foram
torturados. O regime militar terminou pouco depois da vitória britânica na
Guerra das Malvinas de 1982 – travada por ilhas disputadas a 500 km a leste da
Argentina, no Atlântico Sul – e a democracia regressou com eleições no ano
seguinte.
Na adolescência, Milei
cantava numa banda de covers dos Rolling Stones e teve uma breve passagem como jogador de futebol
semiprofissional, atuando como guarda-redes no Chacarita Juniors, onde era
apelidado de “El Loco” pelo seu temperamento explosivo.
“Ele não tinha medo de nada”, recordou um colega de equipa
ao jornal La Nación.
“Treinávamos em campos muito irregulares. Faça chuva ou faça
sol, treinávamos de qualquer maneira. Nada importava. E ele fazia coisas que
nos faziam pensar… porque é que ele faz isso?”
Mas os interesses do jovem Milei cedo se viraram para a
economia; matriculou-se na universidade e obteve
dois mestrados. Durante os seus estudos de pós-graduação, na década
de 1990, Milei deparou-se com a obra do economista britânico do início do
século XX, John Maynard Keynes.
Observando como o capitalismo desenfreado tinha conduzido à
Grande Depressão dos anos 30, Keynes defendeu que os governos deveriam intervir
para criar empregos, combater a inflação através de impostos e estimular a
economia durante as recessões com a redução das taxas de juro. As ideias
keynesianas, notavelmente, estiveram na origem dos fortes Estados de bem-estar
social que surgiram na Europa após a Segunda Guerra Mundial.
Milei não era fã de Keynes. O argentino sentia-se muito mais
atraído pelos economistas libertários, especialmente Friedrich Hayek e Milton Friedman. Hayek argumentava contra a
intervenção estatal, acreditando que esta entrava em conflito com a liberdade
individual e a propriedade privada, enquanto os alunos mais brilhantes de
Friedman, os chamados "Chicago Boys", aconselhavam o ditador chileno
Augusto Pinochet. A sua ideologia, conhecida como neoliberalismo, inspirou
Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Milei descreveu, em tempos, a
primeira-ministra do Reino Unido como "uma das grandes líderes da
humanidade".
Esta reverência não é apenas retórica; reflete a profunda
convicção ideológica de Milei sobre o papel do mercado.
"É precisamente isso que distingue Milei do liberalismo
convencional", disse o politólogo Juan Bautista Lucca, do Conselho
Nacional de Investigação Científica e Técnica (CONICET), à Al Jazeera.
"Para ele, o mercado não é simplesmente eficiente; é
justo. Esta é uma questão moral."
Outra inspiração foi Murray
Rothbard, o pai do anarcocapitalismo.
Rothbard rejeitava qualquer forma de autoridade estatal,
acreditando que os impostos e os programas de assistência social deveriam ser
abolidos. Em vez disso, a sociedade deveria estar organizada puramente em torno
de contratos privados.
“Não haveria monopólio da violência, nenhum Estado a tomar a
lei nas suas próprias mãos para decidir todos os conflitos”, explicou o
economista alemão Phillip Bagus, autor do livro A Era Milei e apoiante
do presidente.
“Tudo seria privado. Haveria ruas privadas, hospitais
privados, escolas, universidades, saúde pública, polícia. Tudo seria baseado na
cooperação voluntária.”
Numa entrevista de 2024 à revista The Economist,
Milei revelou que foi a leitura dos livros de Rothbard em 2013 que o converteu
ao anarcocapitalismo. No entanto, Milei reconhece as dificuldades de pôr em
prática estas ideias e considera-se um
minarquista: alguém que reduz as funções do governo ao mínimo
necessário para garantir a segurança (policiamento e defesa).
“É um ótimo comunicador de ideias, mas o seu conhecimento
teórico é bastante fraco, contraditório e dogmático”, opinou Fernández, que
conheceu Milei em 2005 depois de ter revisto e dado feedback sobre um dos seus
artigos académicos.
Em 2016, Milei fez a sua primeira aparição televisiva aos 45
anos no talk show noturno Loose Animals, onde foi questionado sobre
Keynes. Milei enfureceu-se, criticando não só os socialistas, mas também o
então governo conservador de Mauricio Macri. A partir daí, Milei tornou-se uma
figura constante na televisão argentina, protestando contra a ineficiência do
governo e denunciando o que descreveu como a
“casta” corrupta dominante de políticos, jornalistas, sindicalistas e
académicos.
“O Estado é o pedófilo no jardim de infância, com as
crianças acorrentadas e besuntadas de vaselina”, disse num
programa televisivo em 2018, comparando o Estado a um predador.
Muitas das primeiras aparições de Milei na televisão foram
nos canais A24 e América TV, pertencentes ao magnata multimilionário
do setor aeroportuário, Eduardo Eurnekian. Milei trabalhou para a Eurnekian de
2008 a 2021, chegando a ser o economista-chefe da Corporación América, a
empresa do magnata.
Segundo Lucca, a exposição mediática de Milei foi o
resultado deliberado de uma “estratégia metapolítica” destes poderosos
interesses: “A ideia da batalha pela hegemonia
cultural não se faz através da estrutura partidária [política], mas sim pela
arena mediática e pelas redes sociais”.
“Por isso, digo desde o início que ele não segue o caminho
clássico de um político tradicional ou de um outsider. É um outsider atípico”,
afirmou Lucca.
A retórica de Milei em relação àqueles que considerava
inimigos da liberdade era abertamente hostil.
“Não se pode dar a mínima
hipótese a estes esquerdistas imbecis”, declarou numa entrevista
televisiva que foi para o ar em outubro de 2023.
“Se pensares de forma diferente deles, eles vão destruir-te.
Esse é o ponto. Não se pode dar a mínima hipótese a estes esquerdistas imbecis.
Se lhes deres a mínima hipótese, eles vão usá-la para te destruir.”
“[Isto] diferencia-o do resto dos políticos na Argentina – o
Milei que se vê é o Milei que existe”, disse González.
“Ele não está a interpretar nenhuma personagem. Ele estava
realmente muito zangado, e naquele momento, a sua raiva, a sua forma de
insultar todos [os seus adversários]… combinava com a raiva que muitas pessoas
na Argentina sentiam em relação à pandemia, à crise económica, à inflação ou ao
mau governo que tínhamos antes. Milei era o homem certo no momento certo.”
Em 2021, Milei foi eleito para o Congresso, inicialmente
como membro de uma coligação libertária, mas cedo fundou o seu próprio partido,
La Libertad Avanza (A Liberdade Avança). Enquanto congressista, Milei declarou,
de forma teatral, que o seu salário era "dinheiro roubado ao povo pelo
Estado" e que o distribuiria mensalmente num sorteio transmitido pela
televisão nacional. Poucas horas depois do anúncio, 250 mil
argentinos já se tinham inscrito.
Milei cumpriu a sua promessa, doando o seu salário de
congressista todos os meses.
No ano seguinte, anunciou a sua candidatura à presidência.
Tornar a Argentina grande novamente
Durante a sua campanha presidencial de 2023, Milei descreveu
a Argentina do início do século XX como “a nação mais rica da Terra”, graças às
suas vastas exportações de carne de bovino e cereais, transportadas por navios
a vapor para todos os cantos do planeta. Mas, na viragem do milénio, a economia
estava em crise.
Havia várias razões para os problemas financeiros da
Argentina, mas, acima de tudo, Milei culpou o peronismo. Juan Domingo Perón era
um coronel do exército argentino que chegou ao poder pela primeira vez num
golpe militar em 1943, tornando-se tão popular entre os sindicatos que, quando
foi deposto e preso dois anos depois, um movimento de massas se uniu em sua
defesa. Foi libertado e candidatou-se à presidência no ano seguinte,
conquistando mais de metade dos votos. Perón foi forçado a exilar-se em 1955,
mas regressou em 1973 para ser reeleito presidente, vindo a falecer um ano
depois, deixando para trás a sua ideologia: o peronismo.
Embora Perón se tivesse
inspirado na Itália fascista, a característica definidora do
peronismo foi transformar a Argentina num dos maiores Estados de bem-estar
social do mundo, financiado pelos governos peronistas simplesmente imprimindo
mais dinheiro. A inflação passou a fazer parte do quotidiano na Argentina.
Entre 2000 e 2021, o país entrou em incumprimento da sua dívida nacional por
três vezes. No início da década de 2020, dois em cada cinco argentinos viviam
na pobreza.
“O país foi arruinado pelo peronismo”, disse Bagus, o
economista.
“Totalmente não competitivo. Protecionismo. Basicamente,
nada podia ser importado. E havia uma corrupção enorme”, explicou. “Um
establishment político, juntamente com empresários ligados à política, aos
sindicatos e aos média, todos a trabalhar em conjunto para se enriquecerem à
custa dos trabalhadores argentinos. Totalmente regulado em excesso. O mercado
de trabalho totalmente disfuncional. Uma moeda praticamente sem valor. Sem
credibilidade no governo...”
“Era uma confusão total”, acrescentou.
Em 2003, foi eleito o presidente peronista Néstor Kirchner,
seguindo-se a sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner, por mais dois
mandatos. Entre 2015 e 2019, os eleitores deram ao empresário de centro-direita
Mauricio Macri a oportunidade de governar de forma diferente, mas também não
conseguiu revitalizar a economia, e Cristina Kirchner regressou à
vice-presidência ao lado de Alberto Fernández, outro peronista.
Na altura da pandemia de COVID-19, o público tinha perdido a
fé nos partidos políticos tradicionais, e começou a formar-se uma profunda
cisão na sociedade argentina, segundo Lucca.
“É o que os analistas chamam ‘la grieta’ em espanhol – uma
clivagem, ou uma profunda trincheira social e política que esgota os cidadãos
de ambos os lados”, explicou.
Para a geração mais nova, metade da qual vivia na pobreza, o
“Louco” parecia um salvador que iria fazer cortes no governo.
Numa ação de campanha em agosto de 2023, Milei colocou-se ao
lado de um quadro de avisos com os nomes dos ministérios do governo,
arrancando-os um a um e gritando “Afuera!”
Um mês depois, uma multidão gritava “Motosserra!
Motosserra!” num comício em La Plata, a uma curta distância de carro a sudeste
de Buenos Aires, enquanto Milei subia ao palco com um blusão de cabedal preto,
brandindo a ferramenta elétrica. A motosserra – uma metáfora para dizimar o
governo inchado – tornou-se um símbolo da sua campanha.
O slogan de campanha de Milei não era menos assertivo: “Viva
la libertad, carajo!”
Milei conquistou o apoio de muitos setores da sociedade
argentina que estavam fartos do status quo ao insurgir-se contra a elite
política e económica entrincheirada, à qual se referia como a “casta”.
“Muita gente na Argentina dizia: ‘Ele está zangado, como
eu’”, explicou González.
“Uma frase que ouvia muito naquela altura era: ‘Precisamos
de um homem para consertar este país’”.
Em outubro de 2023, Milei venceu com 57% dos votos contra o
seu adversário, o ex-ministro das Finanças Sergio Massa. Na sua tomada de
posse, uma multidão de apoiantes reuniu-se em frente ao Congresso usando bonés
com a inscrição “MAKE ARGENTINA GREAT AGAIN” – uma brincadeira com o slogan
político do presidente norte-americano Donald Trump – e um deles segurava uma
enorme réplica de cartão de uma motosserra.
“Cristina vai para a cadeia!”, gritavam quando Cristina Kirchner apareceu ao lado de Milei para simbolizar a transição de poder. Kirchner respondeu mostrando o dedo do meio.
Após a cerimónia, Milei juntou-se à irmã, Karina, no palco e
fez um discurso sobre os problemas económicos que assolavam o país. Após 40
minutos de jargão económico, a assistência parecia estar a ficar inquieta, até
que Milei terminou o seu discurso com: “...um país onde o Estado não controla
as nossas vidas”. Nesse momento, a plateia irrompeu em gritos de “Motosserra!”.
Terapia de choque
Tal como prometido, Milei fez um corte drástico no
orçamento, encerrando 10 dos 19 ministérios do governo por decreto executivo
assim que assumiu o cargo. Entre o final de 2023 e 2025, as despesas sociais
foram reduzidas em 17%, enquanto os programas ambientais foram completamente
desmantelados, de acordo com uma análise do Projecto Bretton Woods. Milei defendeu o negacionismo da crise climática,
promovendo a ideia de que o aquecimento global faz parte de um ciclo natural
não relacionado com a atividade humana.
Ao mesmo tempo, em consonância com a crença de Milei de que
o Estado deve providenciar proteção, o orçamento
da segurança foi enormemente inflacionado.
As reformas radicais de Milei conseguiram abrandar a
hiperinflação, reduzindo-a de 211% em 2023 para 31,5% no final de 2025, segundo
dados oficiais. No entanto, isto teve um enorme custo social. Os direitos laborais foram eliminados e mais de 110 mil
argentinos com deficiência perderam os seus benefícios. Embora a
taxa oficial de pobreza tenha caído quase para metade desde 2024, os críticos
afirmam que os dados são distorcidos pelo encerramento de organizações que
recolhem esta informação. Ao mesmo tempo, os dados oficiais mostram que o
número de pessoas sem-abrigo aumentou cerca de 57% em Buenos Aires, a cidade
mais rica do país.
Nos arredores da capital, encontram-se as vilas misérias,
favelas precárias que, por vezes, carecem até de artigos essenciais, como
eletricidade e água canalizada. Nestes locais,
os cartéis de droga têm atuado para colmatar a ausência do Estado, financiando
cozinhas comunitárias que, de outra forma, teriam fechado sob as
medidas de austeridade de Milei. Os gangues têm-se tornado cada vez mais
ousados, como ilustra o triplo homicídio de três jovens mulheres, transmitido
em direto no ano passado, por terem roubado um pacote de cocaína.
O descontentamento com Milei tem crescido desde 2023, com
milhares de cidadãos de todas as camadas sociais a saírem repetidamente às ruas
de Buenos Aires para protestos contra as medidas de austeridade, batendo com
panelas e frigideiras em frente à fachada neoclássica do Congresso Nacional. Os
reformados que protestavam contra os cortes que os empurram para abaixo do
limiar da pobreza foram agredidos com bastões, enquanto os estudantes se
manifestaram contra os cortes de Milei no prestigiado sistema universitário
gratuito da Argentina.
Além de reduzir a dimensão do Estado, Milei prometeu
dolarizar a economia. Se o dólar norte-americano
se tornasse a moeda nacional, argumentou, o governo não teria de recorrer à
impressão de mais dinheiro. No entanto, esquivou-se a pôr isso em
prática, culpando as realidades do sistema político argentino por o terem
impedido.
Estas realidades de governar um país sem maioria no
Congresso fizeram com que Milei tivesse de fazer concessões. Para aprovar as
suas reformas radicais, Milei negociou tanto com a oposição peronista como com
o partido conservador do ex-presidente Macri.
“Mesmo que o seu partido e o Partido Conservador se unam,
não têm 50% dos lugares [no parlamento]”, disse Bagus.
“Portanto, para que qualquer lei seja aprovada, ainda
precisam que os peronistas moderados aprovem uma reforma do mercado de trabalho
[em 2026].”
Estes compromissos desiludiram alguns colegas libertários,
que acusam Milei de trair a sua visão.
Ainda assim, Bagus vê isto como um passo na direção certa.
“É claro que os libertários querem mais. Gostava de ter
visto ainda mais flexibilização do mercado de trabalho”, disse. “Mas é a
primeira reforma deste tipo na Argentina em 50 anos… É justo criticá-lo e
dizer: por favor, acelerem o processo, mas ele sempre disse que as restrições
para fazer política são muito, muito maiores do que imaginava antes de assumir
o cargo.”
“Os meus filhos de quatro patas”
Após a sua vitória nas eleições de 2023, Milei subiu ao
palco para dedicar o seu triunfo às pessoas que lhe eram mais próximas.
“Quem mais? Os meus filhos de quatro patas”, disse.
Milei possui uma alcateia de mastins ingleses, chamados
Murray, Milton, Robert e Lucas, em homenagem aos seus economistas favoritos:
Murray Rothbard, Milton Friedman e Robert Lucas. Todos
são clones criados a partir do ADN do cão original de Milei, Conan
(abreviatura de Conan, o Bárbaro). No seu livro, González escreveu que, quando
Conan morreu em 2017, Milei não conseguiu aceitar a sua morte e consultou uma médium para comunicar telepaticamente com o
cão falecido. Nas suas conversas, Conan terá revelado que se
conheceram numa vida passada como lutadores numa arena de gladiadores romana,
há 2000 anos, e disse a Milei para se candidatar à presidência.
“É verdade que tem conversas telepáticas com o Conan?”
perguntou um repórter do El País.
“Claro, e também dizem que os meus cães são os meus
conselheiros, e são fabulosos, porque vejam tudo o que conquistei em termos de
resultados”, respondeu Milei.
“Mas o senhor fala com o Conan?”, insistiu o repórter.
“O que faço dentro de casa é um problema meu”, respondeu o
presidente.
Um quinto cão, também chamado Conan, o presidente acredita
ser a reencarnação do original. A relação de Milei com os seus cães, vivos e
mortos, tem alimentado preocupações sobre a sua saúde mental.
Outra figura importante na sua vida é Karina, que descreve
como “o ser mais maravilhoso que existe no universo”.
“A única pessoa para além dele em toda a sua vida foi a
Karina”, disse González.
“Javier Milei nunca foi um ser humano funcional: não tinha
cozinha em casa, não sabia pagar impostos, não sabia cozinhar, não sabia
comprar roupa. A Karina fazia tudo isso por ele.”
Em adulta, Karina fazia leituras de tarot. Foi Karina, aliás, quem se formou em ocultismo para
comunicar com Conan e confortar o irmão enlutado.
“A Karina é a versão feminina da Milei”, disse Fernández.
“São pessoas com graves problemas psicológicos e, portanto, paranoia
– o pensamento mágico e místico a prevalecer sobre qualquer pensamento
racional. A Karina tem os mesmos problemas que o Javier. Antes de entrarem na
política, a Karina conversava com animais, e os animais respondiam.”
Mais tarde, Milei nomeou-a chefe da sua campanha
presidencial, responsável por gerir as suas contas bancárias e despesas e por
lhe levar pessoalmente bebidas energéticas Monster antes dos comícios. Após a
eleição, Milei nomeou Karina como chefe de gabinete presidencial e, embora se
mantenha discreta, a sua irmã é, sem dúvida, a segunda pessoa mais poderosa da
Argentina.
“A primeira vez que o encontrei, em outubro de 2022, ele
disse: ‘Vamos almoçar juntos’”, recordou Bagus sobre um evento em Madrid.
“Então fui ao hotel dele e ele disse: ‘Bem, o El Jefe também
está aqui. Quem é o chefe? A minha irmã’”.
De acordo com González, Karina pode ser ainda mais
importante do que o seu irmão em termos de governação.
“Na Argentina, dizemos que Javier Milei é a pessoa mais
importante no governo de Karina Milei”, afirmou.
“É ela que decide quem entra e quem sai do governo; quem se
candidata a deputado. A Karina decide.”
Fontes internas disseram ao The New York Times que
ela é incondicionalmente leal ao irmão e, na prática, controla os assuntos do
governo, com poder para despedir qualquer funcionário de quem não goste.
Segundo a própria, um membro da equipa foi despedido por falar de forma
desrespeitosa sobre Conan.
Numa entrevista televisiva no canal A24, Milei
descreveu a relação de ambos com uma analogia bíblica.
“Moisés foi um grande líder, certo? Mas não era um bom
comunicador. Então, Deus enviou-lhe Aarão para que ele pudesse, digamos,
comunicar. Kari é Moisés, e eu sou quem comunica. Nada mais.”
Os amigos descreveram Milei como um tanto solitário e
abstémio, que se energiza assim que fala para uma audiência, especialmente
sobre economia. Em conversas privadas, o presidente argentino contou à revista The
New Yorker que gosta de filmes sobre matemáticos, como O bom rebelde,
e que ainda é um grande fã dos Rolling Stones, tendo assistido a 14 dos 15
concertos que a banda deu na Argentina desde a década de 1990. Também aprecia
ópera e ainda canta, tendo atuado com uma banda de rock para uma plateia de 15
mil pessoas no lançamento de um livro no ano passado.
“Conversei com ele sobre música e percebi logo que todo o
seu conhecimento é superficial”, recordou Fernández.
“Diz que gosta de ópera, mas na verdade não sabe do que
gosta. A sua verdadeira paixão é a economia.”
Em conversas privadas, Bagus descreve Milei como gentil e
atencioso com os amigos.
“Quando ele me contacta pelo WhatsApp, começa sempre por
dizer: ‘Caro Phillip, desculpa incomodar-te, tens um minuto?’ Acho que é uma
forma muito simpática de o dizer, porque o tipo está sempre ocupado e toda a
gente quer algo dele.”
Deus e o capitalismo
Embora Milei seja frequentemente descrito como de direita,
não se enquadra perfeitamente no estereótipo de um conservador tradicional.
Libertador assumido, já se declarou defensor do
amor livre, do sexo tântrico e do prazer em ménage à trois.
O libertarianismo valoriza a liberdade individual, e Milei
distingue-se de outros líderes mundiais contemporâneos da direita política por
acreditar que o trabalho sexual, o consumo de
drogas e a sexualidade são assuntos privados entre adultos que consentem e nos
quais o Estado não deve interferir.
Ao mesmo tempo, Milei opõe-se ao aborto, considera a
educação sexual uma "lavagem cerebral" e vê a própria ideia de
justiça social como abominável. Acreditando orgulhosamente que está a travar a
guerra cultural ao lado da "liberdade", Milei
defende que qualquer redistribuição de riqueza é imoral, que os benefícios
tornam os beneficiários preguiçosos e que as universidades são focos de
doutrinação progressista.
"O politicamente correto é o cancro que deve ser
erradicado", disse no Fórum Económico Mundial de 2025, em Davos.
“Colonizou as nossas instituições, as nossas universidades,
os nossos meios de comunicação social e até as nossas organizações
supranacionais.”
Milei identifica-se por vezes como um paleolibertário – um
libertário de direita.
“O libertário conservador ou de direita acredita que, para o
florescimento da sociedade, é necessário algo mais do que a liberdade, e estes
valores são certos princípios”, explicou Bagus.
“Enquanto o libertário de esquerda diz: ‘Bem, os valores não
importam’ – pode-se ser totalmente hedonista, por exemplo – o libertário de
direita acredita que o trabalho árduo, o sacrifício, a poupança e as
instituições tradicionais que evoluíram livremente na sociedade, como as
igrejas ou a família, são muito importantes para o bom funcionamento da
sociedade.”
Ao mesmo tempo, diz Bagus, Milei é adepto do liberalismo
clássico e respeita “o projeto de vida dos outros”, por exemplo, em relação à
homossexualidade. Mas o discurso de Milei em Davos – no qual associou a
homossexualidade ao abuso infantil e criticou tanto a “agenda LGBT” como a
ideologia de género – sugere que pode estar a adotar uma postura mais
conservadora e religiosa.
Embora tenha sido educado como católico, como a maioria dos
argentinos, Milei nutre uma admiração declarada
pelo judaísmo e planeia converter-se. A Argentina possui a maior
comunidade judaica da América Latina, representando 0,5% da população. Durante o seu
discurso de tomada de posse, Milei invocou a história dos Macabeus, antigos
guerreiros judeus, como um “símbolo da vitória dos fracos sobre os poderosos”.
Posteriormente, Milei viajou para Nova Iorque para visitar o túmulo do
influente líder espiritual hassídico Menachem Mendel Schneerson, conhecido como
“o Rebe”, e nomeou o seu rabino pessoal, Axel Wahnish, como enviado a Israel.
A aproximação de Milei ao judaísmo complementa e contradiz a
sua ideologia. Por um lado, o presidente argentino apoiou incondicionalmente a
guerra genocida de Israel contra Gaza e a guerra contra o Irão. Por outro lado,
enfurece-se contra o “marxismo cultural”, uma teoria da conspiração antissemita
que acusa os intelectuais judeus de esquerda de minarem a civilização
ocidental.
“Milei interessa-se por judaísmo, por evangelismo e tem uma
aliança política com a ACIERA, uma organização que reúne igrejas evangélicas na
Argentina. Tem um pastor privado”, disse González.
“É como uma salada de várias religiões.”
González referiu que Milei deu crédito a uma profecia de
1971 de Benjamín Parravicini, um vidente apelidado de “Nostradamus argentino”,
que previu o 11 de setembro, prevendo que um “homem de cinzento” salvaria a
Argentina. Alguns dos apoiantes mais devotos de Milei acreditam que ele é o
"homem de cinzento", e o presidente e a sua irmã já hospedaram a
sobrinha-neta de Parravicini no gabinete presidencial.
Nos últimos anos, Milei tem-se envolvido cada vez mais com o
mundo espiritual e místico. Em abril, visitou o Muro das Lamentações, em
Jerusalém, e fez um discurso na Universidade Bar-Ilan, no qual descreveu o capitalismo como "a lei de Deus",
afirmando que Karl Marx era satanista.
"Penso que o rótulo de anarcocapitalista é apenas uma
estratégia de marketing", disse Fernández.
"Acho que ele também não compreende que não é um
anarcocapitalista. Penso que estas ideias libertárias se transformaram da
posição verdadeiramente anarcocapitalista de Ayn Rand numa espécie de
conservadorismo retrógrado. Eu chamar-lhe-ia
neofascismo delirante."
A direita internacional
Em fevereiro de 2025, os ideólogos de direita reuniram-se na
Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) em Washington, D.C. O multimilionário
da tecnologia Elon Musk subiu ao palco usando óculos escuros e um boné preto
com o slogan "Make America Great Again" (MAGA) e informou o público
que Milei tinha um presente para ele. O argentino apareceu então e presenteou
Musk com uma motosserra gravada com o slogan de Milei: "Viva a liberdade, carajo!"
"Esta é a motosserra para a burocracia", declarou
Musk.
A presença de Milei na CPAC ilustrou como o dissidente
argentino se está a posicionar ativamente numa coligação global de líderes de
direita, que inclui também Trump, o primeiro-ministro israelita Benjamin
Netanyahu, Nayib Bukele de El Salvador e José Manuel Kast do Chile. Em março,
Milei, Bukele, Kast e outros presidentes latino-americanos reuniram-se em Miami
para alistar os seus países no Escudo das Américas, uma aliança militar
liderada por Trump contra os gangues criminosos.
A chamada “guerra contra a droga” e o crime organizado, no
entanto, parece ficar em segundo plano em relação a outras considerações. No
final do ano passado, Juan Orlando Hernández,
ex-presidente das Honduras condenado por tráfico de cocaína em grande escala
para os EUA em 2024, foi perdoado por Trump, uma decisão
inconsistente com os esforços agressivos de Trump no combate ao narcotráfico.
Mas, em abril, uma série de gravações que foram divulgadas, obtidas pelo canal
de TV espanhol Canal Red, expuseram um esforço financiado por Israel para
perdoar Hernández e trazê-lo de volta ao poder em troca da utilização das
Honduras como base para os interesses israelitas e americanos.
As mesmas gravações implicaram Milei no cofinanciamento de uma campanha
difamatória liderada por Hernández contra os presidentes do México e da
Colômbia, com o objetivo de fazer com que os líderes de esquerda destes países
parecessem fracos e corruptos. Isto quase levou a Colômbia e os EUA a um
conflito aberto.
“Penso que a estrutura da sua política diplomática é
ideológica, e não pragmática”, disse Juan Bautista Lucca, do CONICET, sobre
Milei.
“É por isso que a Argentina deve alinhar-se com aquilo a que
Milei chama de ‘mundo livre’, e este alinhamento é entendido principalmente em
termos civilizacionais, não meramente estratégicos... Milei posicionou-se como
um combatente numa guerra ideológica.”
Insultar os líderes do México, da Colômbia e do Brasil é
“uma posição internacional que reflete, em termos de política externa, a mesma
lógica de confronto entre civilizações”, acrescentou Lucca.
Em 2024, Milei chamou “terrorista assassino” a Gustavo
Petro, o ex-rebelde que se tornou presidente da Colômbia.
Para Trump, no entanto, Milei só tem elogios constantes.
“Felicito o presidente eleito Donald Trump pela grande
vitória nas eleições realizadas ontem. Sabe que pode contar com a Argentina
para tornar a América grande novamente”, disse num vídeo do TikTok após as
eleições presidenciais norte-americanas de 2024.
Uma semana depois, os dois falaram ao telefone, e Trump
chamou a Milei “o meu presidente favorito”. No ano passado, com a economia
argentina ainda em dificuldades, Trump recompensou a lealdade de Milei com um
pacote de resgate de 20 mil milhões de dólares para apoiar o peso argentino.
González descreveu Milei como uma espécie de "fã
incondicional" de Trump.
Milei "confunde estas relações internacionais com
amizades e insiste que são seus amigos pessoais", disse Lucca.
Noutro contexto, Milei trabalhou com a Fundação Disenso, o
braço ideológico e intelectual do partido de direita espanhol Vox. Milei
assinou a Carta de Madrid de 2020 da Fundação, denunciando a expansão do
comunismo em Espanha, na América Latina e nos Estados Unidos.
No seu país, apesar da desaceleração da inflação, muitos
cidadãos ainda sentem que a sua qualidade de vida está a deteriorar-se. Mas,
faltando quase um ano e meio para o final do seu mandato, ainda há tempo para
ver o quão bem-sucedida (ou desastrosa) será a experiência libertária de Milei.
O economista de cabelo despenteado e língua afiada está a
considerar candidatar-se à reeleição em 2027. Resta saber se os eleitores
tolerarão um excêntrico que afirma implementar a lei de Deus por um segundo
mandato.
Fonte: Al Jazeera, 6 de junho de 2026




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