Ódio online circula cada vez mais por códigos e insinuações. Há um novo manual sobre o tema
"Estou
farto destes googles inúteis #voltemparaafrica”, o uso do sapo “Pepe” e outros
códigos estão a ser amplamente utilizados em Portugal para “disfarçar” o
discurso de ódio. Esta é uma das conclusões do estudo
"Discurso de ódio: Manual de Apoio e Glossário”, lançado nesta
quinta-feira, 18 de junho, Dia Internacional de Combate ao Discurso de Ódio
O documento “esclarece conceitos-chave, explica como o
discurso de ódio se manifesta no seio de ecossistemas mais amplos de ódio e
reúne termos, expressões e referências simbólicas relevantes frequentemente
associados ao discurso de ódio”, lê-se no manual. No total, são 91 páginas.
Ironia, sarcasmo, perguntas
retóricas, metáforas, hipérboles e
desinformação são formas cada vez
mais observadas desta dinâmica no país. “A prevalência de expressões indiretas
e subtis torna particularmente importante compreender como é que o discurso de
ódio se manifesta além dos insultos ou ameaças explícitas”, destaca. Há, inclusive,
uma tabela que dá a conhecer os indicadores linguísticos, simbólicos e
contextuais em várias plataformas.
É o caso do código “14-88”, associado à ideologia da
supremacia branca. Segundo Rita Guerra, investigadora do CIS-Iscte e uma das
autoras do estudo, o manual “sublinha a
importância de compreender o discurso de ódio a partir de uma perspetiva
interdisciplinar e contextualizada”.
Com um sólido enquadramento teórico, mas de fácil
entendimento, o documento traz exemplos práticos e reais de discursos de ódio,
sendo que alguns são bastante diretos. “Racismo o c@ralho! se não fossem esses
parasitas da sociedade que não querem fazer nada, Portugal era um paraíso”, é
uma das frases citadas, retiradas das redes sociais. São explicadas várias das
estratégias utilizadas, como as chamadas “referências sócio-históricas”.
É o caso de “invocar a nostalgia colonial, a retórica
autoritária ou da era da ditadura, a negação ou distorção de acontecimentos
históricos bem documentados”. É deixado o alerta de que “ao ancorar o
preconceito em memórias aparentemente partilhadas ou na identidade nacional,
tais narrativas podem fazer com que a exclusão pareça justificada, inevitável
ou mesmo patriótica”.
Outra tática citada é a
teoria da conspiração, muitas vezes ancorada nesta narrativa de
exaltação do passado. É o caso do conceito de Remigração, bastante em alta no
momento (uma cimeira europeia sobre o tema foi realizada há poucos dias em
Portugal). Esta teoria “alega falsamente que as populações brancas estão a ser
deliberadamente substituídas por imigrantes não brancos, no contexto mais amplo
de um esquema orquestrado pelas elites”. O objetivo é “aumentar a polarização
social, explorando a retórica de invasão e a apresentação do ‘outro’ como uma ameaça
simbólica ou realista”.
Ódio online, mas na vida real
Engana-se quem pensa que o ódio online fica restrito ao
ambiente digital. Diversos teóricos citados no manual destacam que o ódio
online pode transferir-se para a vida real. As vítimas sofrem de um sentimento
de “insegurança” também offline.
Nos próprios agressores há igualmente um efeito sentido. “As
pessoas que emitem mensagens de ódio também são afetadas, apresentando níveis significativamente mais elevados de
raiva, ansiedade e emoções negativas”, o que pode, inclusivamente,
afetar “todos os que estão envolvidos, direta ou indiretamente, neste ambiente”.
Na sociedade como um todo, o ódio online também traz
repercussões. “Em alguns contextos, pode levar a “aumentos em comportamentos de
agressão no mundo real ou em crimes de ódio” e pode “influenciar atitudes e
normas sociais que tornam a violência mais aceitável”.
As consequências também são políticas. “A exposição ao
discurso de ódio também está relacionada com mudanças nas convicções políticas
e pode influenciar a disposição dos indivíduos para apoiar partidos políticos
radicais ou extremistas e incentivar a adesão a ideologias extremistas”, citam.
O manual foi desenvolvido no âmbito do projeto “COOPERHATE –
Abordagem de Cooperação Multidisciplinar para Prevenir e Combater os Crimes de
Ódio e o Discurso de Ódio”. O
financiamento é União Europeia (UE) e coordenado pela Associação
Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).

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