Portugal rejeita vender 200 toneladas de urânio para ter reserva estratégica
Margarida Corceiro
Há mais
de 30 anos que Portugal armazenou 200 toneladas de concentrado de urânio após
fecho de mina. Executivo de António Costa quis
vender, mas nunca aconteceu. Apesar de não apostar no nuclear, governo
quer reserva para “salvaguardar opções futuras”
A mina portuguesa de urânio
da Urgeiriça trabalhou durante 80 anos até
parar a produção na década de 90. Foi desta mina em Nelas, distrito de Viseu,
que saiu minério radioativo para o laboratório da cientista franco-polaca Marie
Sklodowska-Curie, vencedora do prémio Nobel duas vezes e a primeira mulher a
receber a honra. Forneceu também o Reino Unido e os Estados Unidos da América
no pós-Segunda Guerra Mundial, numa altura em que as maiores potências mundiais
estavam numa corrida pela supremacia de armas nucleares na Guerra Fria contra a
União Soviética. Mais de 3700 toneladas de
concentrado de urânio foram produzidas ao longo de várias décadas.
O executivo de António Costa chegou a estudar a venda deste
urânio em 2018 – que está armazenado em barris num armazém no antigo couto
mineiro da Urgeiriça -, mas a intenção acabou por nunca sair da gaveta.
Agora, o governo de Luís
Montenegro rejeita vender este
concentrado de urânio considerando que é uma reserva estratégica de Portugal e
que deve ser preservado numa perspetiva de longo prazo.
“Não está em curso qualquer processo de venda da reserva de
urânio que constitui uma reserva estratégica nacional, permitindo salvaguardar
opções futuras, designadamente em função da evolução das políticas energéticas,
tecnológicas e do contexto internacional”, respondeu ao Jornal Económico
fonte oficial do ministério do Ambiente e da Energia.
Questionada se o material está armazenado em condições de
segurança, a tutela responde. “O concentrado de urânio está sujeito a um quadro
rigoroso de normas nacionais e internacionais, incluindo inspeções regulares
por parte da EURATOM e AIEA com obrigações de controlo e reporte. As condições
de armazenamento, segurança física e proteção radiológica cumprem todos os
requisitos legais e técnicos aplicáveis”.
Para que serve o concentrado?
Este produto está no “fundo da cadeia de valor”, disse ao JE
Bruno Soares Gonçalves, especialista em energia nuclear.
Após ser extraído, este urânio leva um banho de ácido no seu
primeiro tratamento químico, gerando o concentrado que depois tem de ser
enriquecido para poder ser usado como combustível para centrais nucleares. Se o
grau de enriquecimento aumentar, pode ser usado para construir bombas
nucleares, um tema abordado agora com as conversações entre os EUA e o Irão
para os acordos de paz, que visam, precisamente, que Teerão não consiga
enriquecer urânio de forma a construir uma bomba. Entre os países que têm capacidade para enriquecer urânio
estão Espanha, França, Estados
Unidos da América ou a Rússia.
Quanto vale o urânio?
A avaliação feita em 2012 pela estatal Empresa de
Desenvolvimento Mineiro (EDM) estima o seu valor
em mais de 13,7 milhões de euros, mas o número nunca foi atualizado.
O concentrado – conhecido por ‘yellowcake’ (na forma de pó amarelo) – é usado
na produção de combustível para centrais nucleares e também para armas
nucleares.
“É uma reserva interessante. Tem um valor comercial, mas
diria que não é um valor que, neste momento, valha a pena explorar”, afirmou o
professor Bruno Soares Gonçalves.
“Se Portugal um dia optar por ter nuclear, já tem uma base
para fazer combustível nuclear, embora não tenha o resto ainda da cadeia para o
transformar”, acrescentou o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear
– IPFN.
“Pode ser vendido, mas tem potencial para ser enriquecido
para uma central e termos uma reserva estratégica do ponto de vista nacional.
Faz sentido avaliar a possibilidade”, defendeu.
Desde que assumiu o cargo que a ministra do Ambiente e da
Energia tem rejeitado apostar no nuclear, considerando que essa não é a escolha
do país que deve continuar a apostar nas energias renováveis.
“Para a energia nuclear, é
preciso um investimento inicial bastante elevado. No nosso caso não faz
sentido. Temos muito potencial renovável, já investimos. A nossa aposta deverá
ser nas renováveis”, defendeu Maria da Graça Carvalho em março.
Recentemente, o secretário de Estado da Energia admitiu que
o país até poderia começar a discutir a energia nuclear, mas somente para o
longo prazo.
“Podemos hoje começar a discutir o nuclear, mas não vai
resolver o problema desta crise nem da próxima”, disse Jean Barroca no
Parlamento no final de maio. “É uma conversa interessante para se começar a
discutir, mas não e uma solução imediata nem estrutural para o sistema”,
acrescentou o governante.
Empresa pública defendeu este ano a sua venda
A estatal Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) chegou a
defender ainda este ano a venda deste urânio, considerando que existe uma
“tendência de valorização e retoma progressiva dos preços” no mercado nos
últimos anos a que se deve o isolamento da Rússia após a invasão da Ucrânia.
“Verifica-se desta forma a existência de condições
favoráveis para a alienação do stock de concentrado de urânio, contudo para a
sua concretização será necessária assegurar a implementação de um conjunto de
ações com vista à caracterização do concentrado à luz nas especificações
técnicas atuais, a análise de oportunidades de mercado, tendo em consideração
as limitações e requisitos legais associados à transação, transporte e
exportação deste tipo de materiais”, segundo o Plano de Atividades da EDM para 2026.
Preço do urânio subiu 70%
As 200 toneladas de concentrado de urânio foram avaliadas em
13,7 milhões de euros pela estatal Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) em
2012.
Contas feitas pelo JE tendo em conta as cotações nos
mercados internacionais, os preços do concentrado dispararam quase 70% no
espaço de 14 anos. O preço spot do urânio rondava os 50 dólares por libra em
meados de 2012, quando foi publicado o decreto-lei que transferiu o concentrado
para a EDM. Feitas as contas com base nestas cotações, as 200 toneladas
valeriam então cerca de 22 milhões de dólares (19 milhões de euros). Com os
preços atuais, as 200 toneladas valem agora 37 milhões de dólares (32 milhões
de euros).
O concentrado de urânio não é vendido em mercado aberto como
outras matérias-primas, com os contratos a serem negociados diretamente entre
as partes.
A EDM já gastou 3,5 milhões de euros desde 2012 na
manutenção, vigilância e cumprimento de obrigações legais para manter o
concentrado de urânio.
Reservas alimentam central durante um ano
As 200 toneladas de concentrado de urânio têm a capacidade
para fornecer entre 20-25 toneladas de combustível, o suficiente para alimentar
uma central nuclear com 1 gigawatt de potência durante um ano, segundo a
estimativa feita pelo professor Bruno Soares Gonçalves.
O especialista é um defensor de que Portugal deveria apostar
em energia nuclear.
“O nuclear tem de ser considerado, tem de ser feito uma
avaliação estratégica. Tem de ser feita a análise de custos totais de sistemas
tendo em conta aquilo que queremos: os objetivos, a segurança, a resiliência
para o sistema elétrico e também a procura por eletricidade que esperamos que
aumente, porque queremos crescimento económico”, segundo o especialista.
Nas suas contas, Portugal poderia apostar numa central com
um a dois gigawatts de potência que custaria entre 8/9 a 16/18 mil milhões de
euros.
Mas também destaca os novos pequenos reatores modulares, com
menos potência, mas custos mais baixos, incluindo um da Rollys-Royce com 400
megawatts. “A grande vantagem é sobretudo o investimento inicial, o capital
necessário para iniciar o processo. Num país pequeno como o nossos, também há
vantagem de ser um reator menor”, afirmou.
Venda ou transferência para instalações militares
Os ex-trabalhadores da mina da Urgeiriça defendem uma de
duas medidas: ou a transferência do concentrado para instalações militares ou a
sua venda com as receitas a reverterem para projetos na região.
“Entendemos que as reservas devem sair para uma instalação
militar, não devem estar na Urgeiriça”, disse ao JE António Minhoto, presidente
da ATMU – Associação dos Ex-Trabalhadores das Minas de Urânio.
Trabalhador na mina da Urgeiriça durante 14 anos, rejeita
que haja “impactos diretos” na saúde, mas considera que não faz sentido manter
material radioativo junto da população.
“Caso venha a ser vendido, esperamos
que a receita seja aplicada na Urgeiriça
e na região”, defende António Minhoto, adiantando que a ATMU já
transmitiu diretamente a sua opinião ao secretário de Estado da Energia Jean
Barroca.
Fonte: O Jornal Económico, 20 de junho de 2026
Para enriquecer, em Portugal, o urânio terá de filiar-se num partido político e percorrer as etapas protocolares.

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