Reformular o sistema de pensões, flexibilizar contratos sem termo, pôr fim ao IRS Jovem. A visão do FMI para a política portuguesa
Há
muitas recomendações no relatório económico do FMI. Muitas são
"velhas", mas continuam a bater na mesma tecla. Muitas das medidas do
governo chumbam no FMI
Os alertas do FMI não são de hoje. Mas na análise à economia
portuguesa, divulgada esta quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional volta
a criticar algumas das medidas tomadas pelo governo.
O governo indica, genericamente, concordar com a maioria das
recomendações do FMI, mas não com todas. Uma
delas, já repetida várias vezes, é acabar com o regime para os jovens que lhes
permite menores taxas de IRS. Já em maio o FMI tinha feito essa
sugestão, e agora retoma-a. Deve ser revertida, diz mesmo, já que não há
evidência de que tenha travado a emigração dos jovens, conforme defende o governo,
além, diz o FMI, de aumentar os custos fiscais e a complexidade tributária.
O governo não concorda, por isso, com o fim do IRS Jovem.
O FMI indica ainda que “uma redução adicional nas taxas de
IRS [gerais], conforme pretendido, só deverá ocorrer quando estiverem
implementadas medidas orçamentais de compensação concretas”, além disso “a tributação preferencial dos rendimentos de capital é
dispendiosa e regressiva, devendo ser mais bem alinhada com os
rendimentos do trabalho”. O governo diz ao FMI que uma descida adicional do IRS
só quando houver folga orçamental para isso. O ano de 2026 começou com um
défice de 0,7% nas contas públicas, conforme anunciado pelo INE.
Quanto ao IRC, o FMI também considera que o governo devia
optar pela sua simplificação — já que é um imposto “complexo e fragmentado,
incluindo uma taxa base, uma derrama estadual, derramas municipais e taxas
reduzidas baseadas na dimensão e na localização” –, nomeadamente eliminando as
taxas pela dimensão das empresas. Também aqui leva um rotundo não do governo
que diz que dado que o tecido empresarial português é baseado em PME, tal não
está previsto. O FMI ainda considera a necessidade de direcionar melhor os
“incentivos fiscais à I&D (investigação e desenvolvimento), com um foco
mais forte em empresas mais pequenas e mais jovens, e substituí-los por
subsídios diretos à I&D, sempre que apropriado, também aumentará a
eficiência”.
Baixar IVA na construção beneficia construtoras
Já nos impostos sobre o património, o FMI volta a sugerir um desvio do foco nas transações para a propriedade. O FMI considera que “os impostos periódicos sobre a propriedade são baixos, em parte devido a avaliações desatualizadas do valor dos imóveis. Combinado com uma utilização limitada de taxas de imposto mais elevadas sobre habitações devolutas ou subutilizadas, isto resulta em receitas mais fracas, desencoraja a mobilidade residencial e beneficia principalmente os proprietários mais abastados”.
A redução dos impostos sobre as transações e a atualização
da fórmula do valor patrimonial tributável são para o FMI bem-vindas (tal como
para a Comissão Europeia), mas deveriam “ser complementadas com aumentos
graduais na tributação periódica sobre a propriedade e uma tributação mais
eficaz dos imóveis subutilizados”.
Sobre a descida do IVA na construção, o FMI considera que
embora possa ajudar a redirecionar a oferta para habitação de custos médios, no
entanto, e “dada a muito baixa elasticidade-preço da oferta”, “é improvável que aumente os volumes de construção, sendo
mais provável que eleve as margens de lucro das empresas de construção”.
A redução dos impostos sobre as transações poderá até
aumentar as vendas de imóveis e a oferta de arrendamento poderá ser promovida
pela redução de impostos sobre rendimentos prediais. No entanto, salienta o
FMI, “estes novos incentivos fiscais aumentam as despesas fiscais, que já são
elevadas, devendo, por isso, ser cuidadosamente ponderados face aos ganhos
esperados na acessibilidade da habitação”.
O FMI é crítico dos apoios dados à compra de casas pelos
jovens, nomeadamente à garantia pública e à isenção de imposto de selo e IMT. “Estas medidas terão provavelmente contribuído para
empurrar os preços das casas em alta, não tendo levado a um aumento
estatisticamente significativo das transações”.
As propostas para a segurança social. Mudar regras de
atualização, diminuir taxa de formação e reduzir pensões de sobrevivência
“Conter as pressões decorrentes das despesas relacionadas
com o envelhecimento da população continua a ser fundamental”. É assim que o
FMI começa a descrição das recomendações para a segurança social na análise à
economia portuguesa. O Fundo Monetário analisa, neste campo, as propostas que
foram inscritas no Livro Verde e que mereceu críticas da atual ministra do
Trabalho que encomendou um outro estudo cujo relatório final deveria chegar ao governo
até ao final de junho.
O FMI não tem dúvidas de que “a maioria das recomendações do
livro verde ajudaria a melhorar o sistema de pensões”, embora “os seus impactos
precisos necessitem de uma análise aprofundada”, salientando em particular as
alterações propostas para as reformas antecipadas (eliminação das reformas
antecipadas para desempregados de longa duração e a indexação da idade mínima
de reforma antecipada à idade normal e legal de reforma que está ligada à
esperança de vida), a racionalização das taxas de contribuição reduzidas para
grupos específicos e um maior retorno dos investimentos do FEFSS (Fundo de
Estabilização Financeira da Segurança Social). Estas medidas resultariam em
poupanças. Já as alterações ao complemento solidário para idosos melhoraria a
sua atribuição, mas sem poupanças visíveis.
Já em relação à proposta de criar uma contribuição sobre o
valor acrescentado líquido para substituir gradualmente parte da contribuição
da entidade patronal, o FMI tem sérias dúvidas, devido à volatilidade, e aos
seus custos.
O FMI vai mais longe e faz sugestões nomeadamente em relação
à chamada taxa de formação da pensão. Esta varia entre 2% e 2,3%, mas o FMI diz
que deveria ser uniforme. O que mexeria no valor da pensão, mas para o Fundo
Monetário tal poderia ser colmatado de outra forma: “Os objetivos distributivos
poderiam ser alcançados de forma mais eficiente através de um CSI bem
direcionado”. Além disso, o FMI admite mesmo que a taxa de formação seja
reduzida. E explica: “a maioria dos sistemas de pensões públicos europeus tem
uma taxa de formação de pensão inferior a 1,7%”, a de Portugal está acima, além
disso, diz ainda, “a taxa de substituição das pensões está entre as duas mais
elevadas da UE”. A taxa de substituição é a relação entre o último salário
recebido e a pensão.
O FMI sugere ainda a simplificação do mecanismo de indexação
das pensões, que varia em função do PIB e da inflação. “A fórmula pode conduzir
a ajustamentos reais das pensões imprevisíveis e indesejáveis incluindo, em
alguns casos, perdas significativas de poder de compra real. Esta fórmula
deveria ser substituída por um mecanismo mais simples baseado no IPC
[inflação], tal como acontece em muitos outros países europeus”.
O FMI propõe ainda uma reforma nas pensões de sobrevivência,
possíveis de serem atribuídas a quem enviúve a partir dos 35 anos, para as
cortar. Ora, segundo o FMI, “a soma da pensão de velhice própria do
sobrevivente com a pensão de sobrevivência, em relação ao rendimento conjunto
total das pensões antes do falecimento, é uma das mais elevadas entre os países
da UE, situando-se em cerca de 80%”. Por isso, “a redução dos benefícios, o
aumento da idade mínima de elegibilidade ou a aplicação de condições de recursos
baseadas no rendimento (como na Áustria e na Alemanha) poderiam ajudar a diminuir os elevados custos do sistema
de pensões de sobrevivência, que atualmente representam 1,9% do PIB,
ocupando o terceiro lugar mais elevado na UE”.
Sem se comprometer, o governo diz ao FMI que nas pensões
“são necessários mais estudos para fundamentar eventuais novas reformas”,
acrescentando que, na saúde, “não está planeada a reintrodução de taxas
moderadoras nesta fase”.
Prestação social única “simplifica” apoios sociais e
“reforça incentivos ao trabalho”
Já sobre a prestação social única, que vai ser aprovada esta
semana no Parlamento com a “ajuda” do PS, Riccardo Ercoli, diretor executivo do
FMI para Portugal, e David Taylor Pereira, conselheiro do diretor executivo,
elogiam a proposta do governo. “A Prestação Social Única, recentemente proposta
pelo governo, deverá simplificar o acesso aos apoios sociais, reforçar os
incentivos ao trabalho e proporcionar uma maior proteção às pessoas em
situações de vulnerabilidade”. E é essa a tónica deixada pelo FMI: simplificar
e garantir acesso a quem precisa.
Jean-François Dauphin, chefe da missão para Portugal do FMI,
admite que num Parlamento fragmentado as reformas possam não ser fáceis, mas
acredita que há alinhamento das diferentes forças políticas em torno da
responsabilidade orçamental e do crescimento, pelo que admite que tal possa
prevalecer. Horas depois desta declaração o PSD conseguia um acordo com o PS
para fazer aprovar a prestação social única.
O que não foi conseguido na reforma laboral.
A produtividade é um dos problemas identificados pelo FMI na
economia portuguesa — está em 79% da média europeia, praticamente inalterada
desde 1990. Além de propor medidas fiscais e de desburocratização, o FMI volta
a referir-se às reformas laborais.
“As reformas para melhorar a eficiência do mercado de
trabalho e o reforço da qualificação da população ativa devem continuar a ser
uma prioridade”, advogando “uma maior flexibilidade do mercado de trabalho”. O
FMI recomenda que se reduza “a dualidade do mercado de trabalho, tornando os
contratos sem termo mais flexíveis para incentivar a sua utilização em
detrimento dos contratos a termo certo”. O governo pretendia aumentar a duração
dos contratos a prazo. Tornar os contratos sem termo mais flexíveis significa,
nas palavras de Jean-François Dauphin, facilitar despedimentos, o que poderia
ser um incentivo para escolher fazer contratos sem termo em vez de optar pelo
curto prazo.
Fonte: Observador, 24 de junho de 2026

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