Roland-Garros: bandeira russa volta a aparecer na consagração de Andreeva, segurança intervém
Poucos
instantes após a consagração de Andreeva em Roland-Garros, a segurança do
Philippe-Chatrier interveio quando um espetador tentou desfraldar uma bandeira
russa nas bancadas
Um ligeiro incidente veio perturbar a cerimónia de entrega
dos troféus em Roland-Garros.
Depois de ter conquistado este sábado o primeiro título do
Grand Slam da sua carreira, Mirra Andreeva também
teve de lidar com um protocolo particular
devido à sua nacionalidade.
Como todos os jogadores e jogadoras russos inscritos no
circuito, a jovem russa de 19 anos compete sob bandeira neutra. A sua
consagração não foi, por isso, acompanhada do hino russo nem da subida da
bandeira nacional.
Um adepto impedido de desfraldar uma bandeira russa
Mas as medidas em torno desta neutralidade também se fizeram
sentir nas bancadas do court Philippe-Chatrier.
Segundo o Daily Express, um espetador tentou
desfraldar uma bandeira russa no momento de celebrar a vitória de Andreeva. O
serviço de segurança interveio rapidamente para o impedir e fazer cumprir o
regulamento em vigor.
As bandeiras russas estão, de facto, proibidas no recinto do
torneio, uma disposição implementada desde o início da guerra na Ucrânia para
preservar a neutralidade imposta aos atletas russos e bielorrussos nas
competições internacionais.
Fonte: Tennis Temple, 6 de junho de 2026
Aos 19 anos, Mirra Andreeva não quis saber da história
de encantar da 'underdog' e ganhou Roland-Garros
Prodígio
russo de 19 anos, nascida na Sibéria e desde os 15 no circuito, Mirra Andreeva
conquistou o seu primeiro Grand Slam ao vencer, em dois sets (6-3, 6-2), a
polaca Maja Chwalińska, sensação do torneio vinda do qualifying e que chegou a
Paris sem patrocinadores, a ter de ir comprar os próprios equipamentos e
preocupada com o dinheiro para pagar o hotel
A condição é crónica: quem vê desporto, com ou sem raquetes envolvidas, gosta de uma boa underdog. Enfaixada com ligaduras nas coxas, braços sem mangas a tapá-los, impossível era a história de Maja Chwalińska não encantar. Polaca de nascimento, obrigada a olhar lá para baixo do ranking (113.ª classificada) à entrada para Roland-Garros, portanto sem honras de quadro principal e obrigada a fazer pela vida no qualifying. Venceu três jogos nesse minitorneio para aceder ao Grand Slam, depois mais seis no torneio a sério até chegar à sua décima partida, este domingo, vinda pode-se dizer do nada.
A invulgar Chwalińska, canhota de braço e baixa nos seus 167
centímetros para uma tenista, entrou titubeante na final. Acertou uma dupla
falta na rede, duas bolas mansas. Não demorou a abstrair-se, tentando manipular
a compostura da adversária com o jogo variado que acentuou a sua faceta de ave
rara das últimas semanas de Paris: misturou bolas longas e curtas de direita,
cheias de top spin, com frequentes pancadas curtas, cortadas ou em amorti, para
fazer de Mirra Andreeva uma atleta e chamá-la à rede. A russa não se deixou
enredar nesta variabilidade exaustiva, roubando-lhe o serviço.
Mas a polaca devolveu a gentileza no jogo seguinte, troco
fiador que anteviu uma final renhida, cheia de bom ténis no Philippe-Chatrier,
court principal onde Chwalińska, chegada a
Roland-Garros sem patrocinadores, a ter de ir comprar os próprios equipamentos,
arreliada sobre como haveria de arcar com o custo do hotel que o torneio reembolsa, entrou com dois
logótipos de uma corretora de investimentos e de uma marca de bebidas
energéticas cozidos na blusa, já da Lacoste. Subida na pirâmide da terra batida
de Paris com o seu ténis cerebral, quase maquiavélico, subiu na atenção das
marcas.
Confortável a devolver bolas altas, quase em balão, como
antídoto para manter Andreeva no fundo do court e incomodar o maior poder de
fogo da russa, voltou a devolver um break na final onde apenas ao quinto jogo
uma tenista, Chwalińska, segurou um jogo de serviço. Incomparável na potência
das pancadas, capaz de mísseis que expunham o limitado alcance da polaca a
resistir aos momentos de troca de raquetedas em força, tão comum no ténis
atual, a russa, coqueluche do seu país, hoje com 19 anos e aparecida em Grand
Slams aos 15, sofria mais com o vento do que a polaca.
Era só impressão. Acrescida em paciência após ver Chwalińska
aguentar o saque, a prodígio Andreeva, estreante em finais de Grand Slams como
a polaca, mas com dois títulos Masters no currículo e oito finais disputadas
contra nenhuma da esquerdina, atinou o seu jogo. Ganhou consistência a devolver
na potência o que Maja fazia por abrandar com o slice, as bolas-balão,
habituando-se aos truques com o seu martelo até levar o primeiro set, 6-3.
A polaca que ainda outro dia, em abril, conquistava o Oeiras
Open, torneio humilde do circuito feminino com palco no Jamor, logo abaixo das
provas de categoria WTA - sendo realistas, condigno com o nível do seu ténis
até esta quinzena -, regressou ao campo mais agressiva, disposta a arriscar na
força que pouca tem. Avançou uns passos, colou os pés à linha de fundo, atacou
a bola cedo, ajeitou a final ao pugilato tenístico: duas jogadores a trocarem
golpes na potência, sem os punhos em cima para se defenderem.
Era arriscado, esse é o jogo de Mirra Andreeva.
A russa que há muito se via estar embalada para ser assídua em finais de Grand Slams sobrepôs-se, aos poucos, à polaca que ninguém viu que aí vinha. A cada pancada de risco, a cada alternância na sequência de pancadas para tentar algo diferente, as bolas de Chwalińska caíam curtas demais, ou um pouco para lá dos limites do court. Obrigada a arriscar, a dela partir o fio condutor dos pontos, Maja errava mais vezes.
Treinada pela Inmaculada Concepción do ténis espanhol, mais
conhecida por ‘Conchita‘ Martínez, que apontava com um dedo à cabeça para
apelar à concentração da pupila, Andreeva canalizava a sua paciência ao esperar
pelo momento certo para disparar uma direita paralela ou uma das suas esquerdas
cruzadas, acumulando winners. Após as meias-finais, a russa dissera estar tão
focada que conseguia ver os pelos amarelos da felpuda bola quando esta vinha na
sua direção. Num semelhante estado de transe pareceu estar enquanto atropelou
Chwalińska no segundo parcial.
A final pareceu-se a um atropelamento quando o placard
marcava 5-0. Era um ver se te avias para a polaca lidar a frieza maquinal de
Andreeva. O público do Philippe-Chatrier ainda exultou quando Maja levou um
jogo de serviço nesse set, alentando a até há dias desconhecida, que há cinco
anos fugiu do ténis a contas com uma depressão, sentindo-se
sem vida sequer para sair da cama. O saque seguinte assemelhava-se
uma inevitabilidade, mas, com a final na sua raquete, a adolescente tremeu,
precipitando-se a querer fechar pontos. Foi quebrada.
Era um vislumbre das tremideiras da jovem, siberiana como Maria Sharapova, paralelismo geográfico que incentivou ainda mais comparações com a antiga vencedora de majors, mas pouco gélida a lidar com momentos de pressão na sua ainda curta carreira. Porém, ao periclitar, Maja Chwalińska imitou-a, abanando no seu serviço. Convertido o primeiro de três match points, Andreeva caiu sobre os próprios joelhos - uma nova rainha de Roland-Garros pousada no pó de tijolo.
Esta atípica edição maior dos torneios alaranjados que não
teve donas de majors nas meias-finais ficará como o da consagração primeira de
Mirra Andreeva, prodígio do ténis russa que já se sabia vir aí embalada para
estes momentos. Agarrou-se ao título com a sua esquerda a duas mãos, meio em
suspensão, imagem do seu potente ténis. Apressou-se a ir à bancada, rápida a
abraçar ‘Conchita‘ Martínez, finalista em Paris no ido 2000, procurando logo
depois o seu cão. Desbravado o seu primeiro Grand Slam, improvável é que seja o
último.
Roland-Garros não foi como o US Open de 2021, perdido de
amores pela história de Emma Raducanu, como Chwalińska vinda do qualifying e só
parando com o troféu de vencedora nas mãos. Desde então se tem visto como a
inglesa, apetrechada de marcas, bling-bling e patrocinadores, tem oscilado
entre a irrelevância nos resultados e a troca constantes de treinadores. Aos 24
anos, a polaca que amealhara 750 mil euros em prize money até este
Roland-Garros, valor gordo, também fingidor por ser rapidamente absorvido pelos
gastos de competir e viajar no circuito, será recompensada com €1,4 milhões.
Parece ter ténis para bastante mais. A sua história de
encantar não acabou com as mãos na Coupe des Mousquetaires, culpa de Mirra
Andreeva. A russa só quis saber do seu cão, não de underdogs. E de si própria.
“Também quero agradecer a mim própria”, disse, ao completar o seu discurso da
vitória, “por acreditar, por tentar ser uma melhor pessoa e jogadoras todos os
dias, e lutar contra os meus demónios”.
Fonte: Tribuna, 6 de junho de 2026







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