Vance desvaloriza Watergate e diz que Nixon foi uma vítima
O escândalo Watergate marca um antes e depois na política
norte-americana, com a inédita renúncia de um presidente dos EUA. A saída de
Richard Nixon da presidência, no dia 8 de agosto de 1974, na sequência do
envolvimento e encobrimento da intrusão em 1972 de elementos ligados à Casa
Branca no Comité Nacional Democrata, seria hoje,
porém, uma notícia menor e rapidamente esquecida, no entender de JD Vance.
“Se o Watergate acontecesse amanhã, seria uma notícia que
ocuparia 12 horas” do ciclo mediático e noticioso, afirmou o atual
vice-presidente norte-americano, citado pelo The Guardian, relativizando a gravidade dos
acontecimentos no caso Watergate: “A ideia de que isso deveria ter
derrubado uma presidência é uma loucura”.
A invasão do complexo Watergate, em Washington, no dia 17 de
junho de 1972, por cinco assaltantes com ligações à administração Nixon, com o
objetivo de instalar escutas na sede dos democratas e recolher informação
potencialmente comprometedora da oposição, enquadrou-se no contexto das
eleições presidenciais de 1972. Nixon estaria obcecado com a reeleição e com a
obtenção de uma vitória esmagadora, mesmo quando já era o indiscutível
favorito.
O presidente acabaria por somar um dos triunfos mais
expressivos sobre o democrata George McGovern, ao conquistar 49 dos 50 estados.
Contudo, à medida que foram sendo revelados procedimentos de encobrimento e
sabotagem política, o apoio popular a Nixon desapareceu, culminando na
resignação de 1974. Foi a solução escolhida pelo republicano quando já se
adivinhava o seu afastamento da presidência num processo de destituição
(“impeachment”).
Num discurso na biblioteca presidencial Richard Nixon, em
Yorba Linda (a terra natal de Nixon), Califórnia, a propósito do lançamento do
seu novo livro Communion, JD Vance mostrou uma visão mais positiva sobre
a presidência de Nixon, enaltecendo vários feitos políticos — designadamente, a
nível externo, com a abertura das relações com a China e a retirada das tropas
norte-americanas do Vietname — e considerando o antigo presidente uma vítima do denominado ‘deep state’. Ato
contínuo, traçou “um paralelo” entre Nixon e Donald Trump.
Se olharmos para a história de como o ‘Estado profundo’
derrubou Richard Nixon, não é assim tão diferente do que os mesmos grupos de
pessoas, as mesmas instituições, tentaram fazer a Donald Trump na primeira
legislatura. Há um paralelo”, frisou.
Recorde-se que Trump foi visado por dois processos de
destituição na primeira passagem pela Casa Branca, entre 2017 e 2020. Primeiro,
por alegado abuso de poder sobre Volodymyr Zelensky, devido às pressões para
investigar o rival democrata Joe Biden, e depois, pelo incitamento dos seus
apoiantes no dia 6 de janeiro de 2021 que levou à invasão do Capitólio, quando
colocava em causa — sem provas de fraude eleitoral — a validade da vitória de
Biden nas eleições presidenciais de novembro de 2020.
E se Trump já chegou a referir que Nixon “poderia” ter sido
culpado pelos acontecimentos em torno do caso Watergate, JD Vance enfatizou
“uma espécie de renascimento” do 37.º presidente dos EUA, descrevendo-o como um “génio político”.
De seguida, apontou às coincidências do seu próprio percurso
político com o de Nixon: “Jovem senador. Vice-presidente. Escreve alguns livros
bestsellers. É odiado pelos meios de comunicação. Parece-se um pouco com o JD
Vance”.

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