‘Varão de roupa usada’ por 80 mil euros abre polémica na cultura
Crítico
de arte Alexandre Pomar põe em causa o preço das obras incluídas na Coleção de
Arte Contemporânea do Estado e atinge uma das mais importantes galerias de arte
do país. Ministério da Cultura admite que aceita qualquer valor que lhe
proponham
Sem papas na língua, o jornalista e crítico de arte Alexandre
Pomar, filho do falecido artista plástico Júlio Pomar, veio remexer no tabu dos
preços da arte contemporânea. «Quem está a roubar?», questionou Pomar no
Facebook, dias depois da divulgação do relatório de 2025 da Comissão Para
Aquisição de obras destinadas à Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE),
num total de 58 peças e 780 mil euros.
Em vários posts, entre os dias 19 e 21 de maio, o crítico
falou em «escândalo» e «caso de polícia». «Obras relevantes ou indigentes, de
artistas com notoriedade ou só ‘famosos’, aparecem com números empolados e
injustificados». A ainda: «É roubo! Pergunto se o júri aprovou estes preços de
compra ou se apenas votou as obras».
A principal obra visada foi a
instalação The Tea Room, da dupla João Pedro Vale e Nuno Alexandre
Ferreira, adquirida por 79 950 euros. Pomar chamou-lhe «varão de
roupa usada», por consistir num conjunto de blusões de cabedal expostos num
cabide metálico.
Aparentemente, os artistas não foram o alvo direto de Pomar,
antes a galeria que os representa e que vendeu a obra: Galeria Cristina Guerra, de Lisboa, considerada
uma das mais influentes do país no domínio da arte contemporânea.
As críticas têm sido ignoradas. Exceção feita para a
historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, antiga diretora do Museu do
Chiado e do Instituto Português de Museus.
Em artigo de opinião no jornal Público, na semana
passada, escreveu que a CACE, ao dispor de 800 mil euros anuais para
aquisições, «é um serviço escandalosamente privilegiado» em comparação com os
museus e monumentos públicos, cujo orçamento para compras é de 680 mil euros a
dividir por 34. Acrescentou que a CACE tem uma «atuação carregada de
subjetividades».
Contactados pelo Nascer do SOL, os dois artistas e a
galerista Cristina Guerra não quiseram fazer comentários. Mas é certo que Vale
e Ferreira, com mais de duas décadas de carreira, apresentaram uma exposição de
relevo no Museu de Serralves entre julho e novembro de 2024, meses antes da
venda do «varão», sendo voz corrente que a passagem por um grande museu de arte
contemporânea aumenta a cotação de qualquer artista.
RELATÓRIOS INCOMPLETOS
A CACE responde perante a empresa pública Museus e
Monumentos de Portugal, que por sua vez é tutelada pelo ministério da Cultura.
Quanto à Comissão de Aquisição, «funciona sob a dependência
do membro do governo responsável pela área da cultura», de acordo com o
despacho ministerial de 2019 que a criou. Atualmente é composta por Andreia
Magalhães, Francisca Portugal, Pedro Barateiro, Sandra Vieira Jürgens, Sérgio
Fazenda Rodrigues e Susana Lourenço Marques.
Enviámos perguntas por escrito àquelas quatro entidades e
apenas obtivemos resposta da Museus e Monumentos de Portugal, que defendeu o
trabalho e os membros da comissão - apesar de a comissão responder à ministra
Margarida Balseiro e não à Museus e Monumentos de Portugal.
De acordo com a porta-voz Ana Albuquerque, a Museus e
Monumentos de Portugal «mantém plena confiança no trabalho desenvolvido pela
curadora da CACE e pelos membros da comissão», reconhecendo-lhes «rigor,
competência técnica e elevado sentido de serviço público».
Disse que todos os procedimentos de compra de obras de arte
«decorrem no estrito cumprimento do enquadramento legal aplicável, com suporte
técnico especializado, respeitando critérios de interesse público e mecanismos
de validação e aprovação institucional».
Ainda de acordo com a mesma porta-voz, as críticas de
Alexandre Pomar são «opiniões pessoais não fundamentadas», até porque os
relatórios anuais da Comissão para Aquisição «identificam os elementos
legalmente exigidos, incluindo a fundamentação técnica para a proposta de
seleção de cada obra».
Na verdade, a todos os referidos relatórios, publicados no
site da CACE, falta um elemento que o despacho de 2019 exige: «Estimativa de
preço de cada obra de arte, com indicação dos pressupostos do respetivo
cálculo».
Outro aspeto transmitido por Ana Albuquerque é o de que, no
processo de escolha, a Comissão «solicita aos artistas ou aos seus
representantes legais o envio de um portfólio representativo da sua produção
artística, com indicação do preço base».
Depois, «as compras são feitas de acordo com os valores de
mercado e não abaixo destes, até porque a função da Comissão é selecionar os
artistas e as obras a incorporar e não entrar num processo negocial com os
artistas ou representantes».
Se ninguém regateia preços, pode aventar-se que o Estado
aceita acriticamente os valores propostos por galerias ou representantes de
artistas e que, afinal, é irrelevante a obrigação da comissão de explicar o
cálculo dos preços, pois estes são fixados unilateralmente. Se isso significa
que os preços são empolados, fica por esclarecer.
Fonte: Nascer do Sol, 31 de maio de 2026
Em 2025 o Estado adquiriu 58 obras de arte
contemporânea por cerca de 780 mil euros
Das obras que agora irão ser incorporadas na Coleção de Arte Contemporânea do Estado, a mais cara é The Tearoom, de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira
O Estado comprou no ano passado 58 obras de arte
contemporânea de 35 artistas, para integrar a Coleção de Arte Contemporânea do
Estado, num investimento global de cerca de 780 mil euros, com valores
unitários que vão desde os 4722 aos 79 950 euros.
De acordo com o relatório de 2025 da Comissão para a
Aquisição de Arte Contemporânea (CAAC), divulgado esta sexta-feira pela empresa
pública Museus e Monumentos de Portugal (MMP), trata-se de um conjunto de obras
de artistas de várias gerações.
Entre as aquisições com valores mais elevados destaca-se The
Tearoom (2024), de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, por 79 950
euros, que consiste numa peça composta por blusões de cabedal, cabides,
estrutura metálica e espelho, tendo feito parte da exposição antológica
apresentada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves em 2024.
Um conjunto de 34 pinturas a óleo sobre madeira, sem título
e datado de 2023, de Miguel Branco, adquirido por 57 195 euros; três pinturas
de Pancho Guedes (Família vegetal, de 1974, um A força do seu olhar,
de 1996, e Um navio aborígene, de 2005, no valor de 41 032 euros; Festas
das cruzes (1974), de Maria José Aguiar, por 40 mil euros; e O Colecionador
de Belas-Artes (1970), de António Areal, por 35 mil euros, são as outras
obras com valores mais elevados.
O relatório da CAAC, estrutura criada em 2019 e integrada na
MMP, reúne propostas de aquisição que abrangem uma diversidade de linguagens,
incluindo cinema, pintura, escultura, desenho, fotografia e instalação.
A seleção inclui artistas de várias gerações, portugueses e
estrangeiros, como Ana Léon, Diogo Pimentão, Filipa César, Gabriela Albergaria,
Joana Escoval, Mónica Baptista, entre outros, refletindo uma estratégia de
alargamento da coleção do Estado a diferentes contextos artísticos.
De acordo com o documento, as obras foram escolhidas com
base na sua relevância artística, técnica e histórica, bem como pela
contribuição para a diversidade temática e formal da coleção, abordando
questões como identidade, memória, ambiente e política.
As propostas visam igualmente reforçar a representação de
diferentes regiões e culturas, com a inclusão de artistas ligados a países como
Brasil, Angola, Moçambique ou Alemanha, e promover o diálogo entre práticas
contemporâneas e obras de natureza histórica.
A CAAC tem como missão identificar e selecionar obras que
contribuam para o enriquecimento da Coleção de Arte Contemporânea do Estado,
devendo apresentar anualmente um relatório com a fundamentação das aquisições.
Fonte: Público, 15 de maio de 2026


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