A Alemanha já nem nos penáltis é Alemanha e, pelo terceiro Mundial seguido, vai para casa envolta em desilusão
Bridget Williams, modelo, influenciadora digital, praticante
de skate e surf vivendo em Melbourne
Surpresa em Boston: o Paraguai eliminou os tetracampeões,
vencendo nos penáltis após uma igualdade a um golo. Os
alemães perderam no desempate por castigos máximos pela primeira vez na
história de uma competição em que, recentemente, somam fracassos. A
estratégia defensiva dos sul-americanos sai premiada
O futebol eram 11 contra 11 e no fim ganhava a Alemanha. Já não. Últimos 10 jogos realizados em Mundiais, apenas quatro vitórias. Desde que ergueu o título no Maracanã, em 2014, não mais voltou a pisar os oitavos de final.
O futebol eram 11 contra 11 e, se a Alemanha não ganhava no
fim dos 90 minutos e do prolongamento, ganhava nos penáltis. Até hoje, quatro
desempates disputados em Mundiais, quatro vencidos. Até hoje, sim.
Na imensidão de um desafio eterno no Massachusetts, um duelo
que principiou com sol a cobrir todo o campo e se fechou com o relvado todo à
sombra, os alemães saíram, pelo terceiro Mundial consecutivo, de cabeça baixa
do cenário onde já foram campeões quatro vezes, ficaram em segundo quatro
vezes, fecharam o pódio quatro vezes. Fase de grupos em 2018, fase de grupos em
2022, 16 avos de final em 2026.
A eliminação, depois do 1-1 dos 120 minutos, deu-se nos
penáltis. Havertz e Woltemade remataram para defesas de Orlando Gill, novo
herói paraguaio. Os sul-americanos tiveram dois match points. Falharam
ambos, Sanabria sem pontaria, Balbuena com Neuer a fazer a (última?) defesa
pela equipa que representou em 128 compromissos. O Paraguai deu vida à
Alemanha, sim. E a Alemanha não aproveitou, não cheirou o sangue. Não foi
Alemanha.
Porque já não é Alemanha. Ou não é Alemanha. Regressará, que
o futebol tem respeitinho pelos estatutos. Mas não vive como Alemanha. Tah
tremeu. Penálti para as nuvens. O peso de um dos remates mais importantes da
história do futebol do seu país em José Canale, um central pouco amigo da bola.
Não vacilou. Este confronto cozinhado em lume brando a explodir na festa dos
protagonistas de uma grande surpresa nos Estados Unidos.
Julian Nagelsmann, que chegou
a treinador principal na Bundesliga antes de ter três décadas de existência,
sempre teve uma aura de menino prodígio dos bancos, de sobredotado, como aquela
criança de oito anos que sabe as capitais, as moedas e os regimes políticos de
todos os países de África. Agora, aos 38, Nagelsmann ganhou um aspeto
diferente, um ar de ginásio, está inchado, como um tech bro de Silicon Valley
que acorda às cinco da manhã e escreve no Linkedin sobre como o desconforto
pode levar ao êxito.
Ora, Nagelsmann chega a este momento como um animal rodeado
de possíveis predadores, de adversários prontos a morderem-no. A imprensa
questiona-o; os adeptos duvidam; Jürgen Klopp, detrás do sorriso e das boas vibes
que transporta para este Mundial enquanto comentador de televisão, assume-se
como uma sombra a pairar sobre o trabalho do atual selecionador. Será difícil
sair desta.
Apesar da juventude do timoneiro germânico, este não deixa
de ser um Mundial de alto protagonismo por parte de veteranos. Este desafio
traduziu essa tendência, expressa no eixo recuado alemão, com os 103 anos que
Neuer, Tah e Rüdiger somam entre si, ou nos 10 titulares trintões que entraram
em campo no conjunto de ambas as seleções.
O Paraguai veio para este torneio apostado em recuperar a
fórmula que, historicamente, deu mais êxito a este conjunto: defender,
aguentar, resistir, virtudes que levaram a que lhes chamassem a Itália da
América do Sul, nos tempos em que isso era um elogio. Os homens de Gustavo
Alfaro fizeram uma exibição que consistia em levar os alemães a transformarem o
muito em pouco e os paraguaios o pouco em muito: muita posse, pouco perigo,
pouca posse, perigo suficiente. Aguardam pela Suécia ou pela França na seguinte
ronda.
Junior Alonso, na sequência de um canto, até teve a primeira
oportunidade de golo da tarde de sol de Boston, mas depressa se viu o plano dos
menos favoritos. Tirar ritmo à contenda, criar disrupção, aumentar as dúvidas
do gigante em crise. Deu resultado. Ao intervalo, a mannschaft não
contava qualquer oportunidade de golo, o seu jogo cheio de bola (apenas 25%
para os sul-americanos) e nulo em chances para o 1-0.
Os tetracampeões batiam uma e outra vez no muro. Gustavo
Gómez e José Canale formam uma dupla de centrais vinda dos anos 80, que quer
ter pouco a bola e bater muito nos avançados e iam desfrutando da insistência
sem prémio dos europeus. Num desempate por penáltis com cinco remates que não
foram convertidos em golo, nenhum dos dois desperdiçou.
O Paraguai até chegou aos quartos de final do Mundial 2010,
mas jamais apontara um golo numa fase a eliminar da prova. Sem os alemães
conseguirem alterar a sua velocidade de cruzeiro, o momento histórico chegaria
aos 42', um golo de sorriso irónico, maléfico. Almirón tricotou a jogada,
Galarza cruzou atrasado e Julián Enciso, o mais baixo em campo (1,73 metros)
cabeceou. A segunda parte chegaria com a certeza de que, para evitar a
surpresa, os favoritos teriam de fazer bem mais e melhor.
Além do bloco defensivo, as esperanças paraguaias residiam
em Almirón e Enciso, os talentosos disponíveis. No recomeço, Enciso esteve
quase a dar nova machadada nas esperanças do opositor, mas, na sequência de
erro de Kimmich, não logrou superar Neuer.
Nagelsmann lançou Goretzka para assumir a nobre e clássica
função de Marouane Fellaini, o médio que não joga como médio e serve para
carregar a área. Foi beneficiando dessa nova presença perto da zona de penálti
que chegou o 1-1. Wirtz cruzou e Kai Havertz, exímio de cabeça, penteou a bola,
tirando-a do alcance de Gill para a igualdade. Apesar do domínio, era, aos 54',
o primeiro remate da mannschaft à baliza. Faria apenas seis, na
sequência de mais de duas horas de futebol.
O pedido popular para colocar Deniz Undav a titular foi
correspondido por Nagelsmann. Só que o atacante, autor de três golos e duas
assistências nas duas primeiras jornadas da fase de grupos como suplente, não
correspondeu à aposta. Musiala, que rendeu o homem do Estugarda aos 63', não
fez muito melhor, os efeitos daquela maldita lesão ainda sentindo-se, um corpo
já não tão ágil, as pernas não correspondendo ao que o cérebro pedia, como se
vindo do filme “Space Jam”, os seus poderes fugindo de si. Veria um
amarelo, frustrado com a agressividade alheia.
Outra figura intrigante aqui é Leroy Sané. Longe dos tempos
áureos, vai mantendo a titularidade, apesar de jogar como se espera que joga
uma antiga estrela da Premier League que já rumou à via turca. Tentou sete
dribles, teve êxito em zero. Fez oito cruzamentos, zero encontraram um
companheiro. Disputou nove duelos, venceu um.
O 1-1 não alterou a aposta do Paraguai. O golo não embalou a
Alemanha. A tarde ia avançando em Boston, surgiam algumas sombras, o mundo
avançava, a partida não. Chegou o primeiro prolongamento do Mundial.
Sem Almirón, sem Enciso e com cansaço, a equipa de Alfaro
deixou, praticamente, de sair da toca. Do outro lado a aposta residia, em
grande parte, na força aérea, juntando Havertz, Tah, Rüdiger, Woltemade, Anton
e Goretzka, todos com 1,89 metros para cima. Foi assim que, aos 103', Tah
apontou o que seria o 2-1, antes de o VAR entrar em ação e descobrir uma
alegada falta de Anton sobre o guarda-redes.
O prolongamento não modificou o marcador. Quando o árbitro apitou para dar fim ao tempo extra e abrir lugar aos penáltis, o banco do Paraguai festejou, como se a missão estivesse cumprida. Ouvia-se Guns N Roses em Foxborough, perto de Boston, a terra dos Aerosmith. Seria o Paraguai a entrar na sua Paradise City.
Fonte: Expresso, 30 de junho de 2026
Longe vão os orgulhosos tempos em que os alemães exigiam aos madraços do sul que pagassem as suas dívidas ao Deutsche Bank e ao Commerzbank. Se os alemães não apostarem forte no rearmamento para impor a economia pela força militar – como os americanos – irão ficar tão irrelevantes no mundo quanto os kosovares. Já o são.

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