A parolice do ano: o jornal ECO premiou o CEO da Impresa como Gestor do Ano
A crise da imprensa não é apenas uma crise de receitas, nem
sequer começa por sê-lo. Antes de chegar às
contas, aos despedimentos, às audiências, aos subsídios, às parcerias, aos
patrocínios e aos expedientes de sobrevivência, começa por uma coisa mais
simples e mais grave: uma crise de exigência.
Exigência perante o jornalismo, que deixou demasiadas vezes
de se medir pela independência, pela investigação e pela capacidade de
incomodar, para passar a medir-se pela docilidade, pela circulação nos salões
certos e pela facilidade com que se confunde proximidade com relevância.
Mas também exigência perante a gestão das empresas de média,
onde se foi aceitando como normal aquilo que em qualquer outro sector seria
visto como sinal de falência estratégica: negócios cronicamente endividados, redações
emagrecidas, produtos editoriais desvalorizados, dependência crescente do
Estado, promiscuidade com marcas, fóruns, conferências, patrocínios e parcerias
que transformam o jornalismo numa extensão
cerimonial do mercado e do poder.
Nesse contexto, a atribuição pelo jornal ECO do prémio de Gestor do Ano a Francisco Pedro Balsemão, CEO da Impresa desde 2016, é mais do que discutível: é, a todos os títulos, absurda.
Não porque a Impresa não tenha melhorado alguns indicadores
em 2025. Melhorou, mas teria sido difícil igualar os 64 milhões de prejuízos de
2024.
Regressou, é certo, a um lucro, mas simbólico, com uma redução
ligeira da dívida (quatro milhões de euros, que representou um de acréscimo de
apenas 3.1%) e aumentou o EBITDA recorrente em cerca de 3,7 milhões de euros.
Mas distinguir como gestor do
ano o responsável executivo de uma empresa que, ao fim de quase uma década de
liderança, apresenta receitas estagnadas, dívida remunerada líquida de 126,9
milhões de euros e resultados financeiros negativos de 11,1 milhões é
transformar a fasquia da excelência numa linha pintada no chão.
A Impresa não é uma história de gestão exemplar; é uma
história de sobrevivência condicionada. O lucro de 1,2 milhões de euros em
2025, apresentado como regresso triunfal, representa menos de 1% das receitas.
A dívida continua a comer uma parte substancial da
capacidade operacional do grupo. O balanço permanece pesado. O goodwill
(que é ‘fumo’ para mais tarde dar origem a imparidades) pesa mais do dobro do
capital próprio. E a própria continuidade das operações é justificada, nas
contas, com referência a cash-flow esperado, plafonds de crédito, linhas
renováveis e aumento de capital posterior.
Isto não parece nada o retrato de um capitão de indústria a
abrir mares novos; é mais a imagem de alguém a manter o navio à tona depois de
o ter deixado navegar demasiados anos com água no porão.
Na verdade, a Impresa só não
foi ainda ao fundo porque acabará por ser adquirida pela MFE, a multinacional
italiana controlada pela família Berlusconi.
O aspeto mais grotesco do prémio atribuído pelo ECO, porém,
não está apenas nas contas. Está na perda completa da noção do ridículo. Um jornal económico atribuir o prémio de Gestor do Ano ao
líder de um grupo de média familiar, estruturalmente endividado, com receitas
praticamente paradas e resultados líquidos anémicos, diz muito sobre o estado
do jornalismo económico em Portugal.
A exigência desapareceu até dos prémios. Já não se distingue
a criação de valor; distingue-se a resistência ao colapso. Já não se celebra a
excelência; celebra-se o facto de a empresa ainda respirar.
E talvez seja esse o retrato mais cruel da imprensa portuguesa: um sector que pede confiança aos leitores enquanto se habituou a viver de expedientes; que proclama independência enquanto se aproxima demasiado do Estado (o ministro Leitão Amaro esteve na entrega do prémio a botar faladura),
das grandes empresas e dos seus próprios pares; que se
queixa da crise do jornalismo enquanto aceita transformar o jornalismo numa
mercadoria de prestígio para vender em conferências, rankings, prémios e
jantares.
Quando a exigência desce ao ponto de fazer de Francisco
Pedro Balsemão o Gestor do Ano, o problema já não é apenas da Impresa. É do
próprio jornalismo que aplaude.
Fonte: PÁGINA UM, 3 de julho de 2026



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