As falsas alegações de Trump aos jornalistas durante a cimeira da NATO

 

Das eleições norte-americanas ao petróleo: as declarações falsas de Trump analisadas pela CNN

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a fazer uma série de alegações falsas durante a conferência de imprensa de quarta-feira, à margem da cimeira da NATO, em Ancara.

Entre os comentários, repetiu algumas das afirmações há muito desmentidas e que também já tinha feito na véspera, durante o encontro com o presidente da Turquia. Eis a verificação de factos de algumas das declarações feitas nesta quarta-feira.

De biliões para milhões

Trump voltou a repetir a alegação falsa de que os Estados Unidos receberam 19,2 biliões de dólares (cerca de 16,4 biliões de euros) em investimentos durante apenas um ano do seu atual mandato.

O número é fictício, como a CNN já tinha assinalado quando o presidente fez a mesma afirmação na terça-feira e em diversas ocasiões anteriores.

Na altura em que Trump fez a declaração, o próprio site da Casa Branca indicava que tinham sido anunciados 10,6 biliões de dólares (cerca de 9 biliões de euros) em "grandes anúncios de investimento" durante este mandato, e mesmo esse valor representava uma grande sobrestimação do investimento real.

Uma análise detalhada da CNN, publicada em outubro, concluiu que a Casa Branca estava a contabilizar biliões de dólares em promessas vagas de investimento — incluindo compromissos relacionados com "comércio bilateral" ou "intercâmbio económico", e não propriamente investimento nos Estados Unidos — bem como declarações genéricas que nem sequer constituíam verdadeiras promessas.

O valor divulgado pela Casa Branca inclui compromissos assumidos tanto por empresas norte-americanas como por entidades estrangeiras. No entanto, dados federais publicados no mês passado mostram que o novo investimento direto estrangeiro nos Estados Unidos atingiu cerca de 232 mil milhões de dólares (aproximadamente 198 mil milhões de euros) em 2025.

Construção de fábricas

"Temos o maior número de fábricas em construção, representando o maior investimento de sempre na história do nosso país — fábricas de automóveis, de inteligência artificial, farmacêuticas e de todos os tipos", afirmou Trump.

Contudo, os dados federais mostram que a despesa com construção industrial nos Estados Unidos tem diminuído de forma consistente durante o segundo mandato de Trump, depois de um forte crescimento registado ao longo da maior parte da presidência de Joe Biden, tendência que já tinha começado a abrandar nos últimos meses desse mandato.

A taxa anual ajustada sazonalmente da despesa com construção industrial situava-se em cerca de 174,8 mil milhões de dólares (cerca de 149 mil milhões de euros) em maio de 2026, menos 28% do que em maio de 2024, o último mês de maio da presidência de Biden, e também menos 28% do que em dezembro de 2024, o último mês completo do seu mandato.

O valor representa ainda uma descida de cerca de 26% face a fevereiro de 2025, o primeiro mês completo do segundo mandato de Trump, e de cerca de 22% em relação a maio de 2025.

Trump e as eleições

Trump voltou a mentir sobre as eleições presidenciais de 2020, afirmando: "Tenho estado certo em tudo, e já há muito tempo. Foi assim que cheguei a presidente três vezes. Foi assim que ganhei três eleições."

Prosseguiu dizendo que venceu as eleições de 2020, mas que estas foram "viciadas".

Na realidade, Trump foi eleito presidente duas vezes e venceu duas eleições. Perdeu legitimamente as eleições presidenciais de 2020 para Joe Biden.

Quanto à afirmação de que "tem estado certo em tudo", a CNN considera tratar-se de uma hipérbole.

Venezuela, prisões e migrantes

Ao falar sobre o antigo líder venezuelano Nicolás Maduro, Trump repetiu a alegação habitual de que Maduro "encheu o país de pessoas vindas das prisões; abriram as prisões e deixaram-nos vir".

No entanto, Trump nunca apresentou provas de que o governo venezuelano tenha aberto prisões com o objetivo de incentivar a migração.

Durante os anos de Maduro registou-se uma emigração em larga escala devido à crise económica, à violência e à instabilidade política.

Apesar dos repetidos pedidos de provas feitos pela CNN e por outros meios de comunicação, Trump e a sua equipa nunca sustentaram a alegação de que Maduro esvaziou prisões para enviar cidadãos considerados indesejáveis para os Estados Unidos.

Roberto Briceño-León, fundador e diretor do Observatório Venezuelano da Violência, afirmou à CNN, em junho de 2024: "Não temos qualquer prova de que o governo venezuelano esteja a esvaziar as prisões ou instituições psiquiátricas para enviar essas pessoas para o estrangeiro, seja para os Estados Unidos ou para qualquer outro país."

Também Helen Fair, especialista em sistemas prisionais da Universidade de Birkbeck, em Londres, disse à CNN em 2024 que não tinha visto "absolutamente nenhuma prova" de que qualquer país tivesse esvaziado prisões para enviar reclusos para os Estados Unidos.

Imigração durante a presidência de Biden

Ao abordar a imigração, Trump voltou a afirmar falsamente que, durante a presidência de Joe Biden, "entraram 25 milhões de pessoas, talvez até mais".

O número não corresponde à realidade. Mesmo a anterior alegação de Trump, de 21 milhões, já constituía uma enorme sobrestimativa.

Até dezembro de 2024, o último mês completo da administração Biden, o governo federal tinha registado menos de 11 milhões de interceções de migrantes em todo o país, incluindo milhões de pessoas que foram rapidamente expulsas.

Mesmo somando os chamados "gotaways" — migrantes que escaparam às autoridades e conseguiram entrar sem serem intercetados — estimados pelos republicanos da Câmara dos Representantes em cerca de 2,2 milhões, o total continua muito distante dos números apresentados por Trump.

Preços do petróleo

Ao falar sobre a guerra com o Irão, Trump afirmou: "E podem ver que os preços do petróleo estão mais baixos do que quando tudo começou."

O presidente não esclareceu se se referia ao início do seu segundo mandato ou ao início da guerra com o Irão, no final de fevereiro.

Se estava a referir-se ao conflito, a afirmação não é correta.

Na tarde de quarta-feira, tanto o Brent — referência internacional — como o West Texas Intermediate (WTI), referência norte-americana, estavam a ser negociados acima dos níveis registados imediatamente antes do início da guerra, embora o Brent estivesse ligeiramente abaixo de alguns dos valores atingidos no final de fevereiro, ainda esta segunda-feira.

Os preços do petróleo caíram de forma acentuada após o cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irão, alcançado na primavera e mantido durante parte do verão. No entanto, voltaram a subir nas últimas 24 horas, na sequência de uma nova troca de ataques entre os dois países, da retoma das sanções norte-americanas às exportações de petróleo iraniano e depois de Trump ter afirmado que considerava o cessar-fogo "terminado".

Fonte: CNN Portugal, 9 de julho de 2026

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