Casas de luxo e testas de ferro. Homem que abalou a banca irlandesa acabou acusado de lavar milhões de euros no Algarve

A sala estava cheia quando chamaram por Michael Thomas Lynn. Estávamos a 12 de dezembro de 2007 e num tribunal de Dublin, advogados, jornalistas, banqueiros e polícias esperavam que o antigo solicitador irlandês fosse finalmente confrontado, em público, com os seus negócios imobiliários. Na altura, o nome de Lynn era manchete na Irlanda: existiam bancos a reclamar milhões de euros e dezenas de pequenos investidores a denunciar perdas em apartamentos que nunca chegaram a receber.

Mas Michael Lynn não estava lá.

O efeito foi imediato. Os seus advogados pediram para deixar de o representar. O juiz ordenou que fosse detido e levado ao tribunal nessa mesma tarde. Só que já era tarde demais. Michael Thomas Lynn tinha deixado a Irlanda e só voltaria a responder perante a justiça irlandesa mais de dez anos depois, após ser encontrado no Brasil, detido e extraditado.

O escândalo que ficou para trás ajudou a transformar Lynn numa das figuras mais notórias da derrocada do Celtic Tiger, o nome dado aos anos de crédito fácil, construção acelerada e euforia imobiliária que antecederam a crise financeira de 2008. O antigo solicitador viria a ser condenado em 2024 a cinco anos e meio de prisão por burlar seis instituições financeiras em 18,1 milhões de euros.

No centro desse processo estava um esquema de fraude hipotecária que explorava as fragilidades do mercado imobiliário irlandês durante os anos do Celtic Tiger. Aproveitando a sua reputação como advogado e promotor imobiliário, Michael Lynn obtinha empréstimos junto de diferentes bancos para comprar propriedades, sem que cada instituição soubesse que outras também estavam a financiar os mesmos imóveis. Para convencer os bancos de que os empréstimos estavam protegidos, apresentava documentação que, segundo a acusação, continha informações falsas ou assinaturas falsificadas. Desta forma, conseguiu criar a imagem de um investidor imobiliário de enorme sucesso e obter cerca de 27 milhões de euros junto de sete instituições financeiras entre 2006 e 2007.

Mas à medida que essa rede foi sendo desmontada, tornou-se também claro que a história não se esgotava nos bancos irlandeses. Havia investidores a reclamar apartamentos que nunca tinham sido entregues, projetos imobiliários noutros países e um rasto financeiro que atravessava fronteiras: primeiro a Irlanda, depois a Hungria, a Bulgária, o Brasil e, segundo sustenta o Ministério Público português, também Portugal.

Quase duas décadas depois daquela ausência em Dublin, uma parte importante desse rasto vai agora ser julgada no Tribunal Central Criminal de Faro. Michael Thomas Lynn está acusado de ter usado empresas, contas bancárias e imóveis em território nacional para branquear cerca de 10 milhões de euros. As audiências deverão começar em novembro.

A forma como Lynn chegou a Portugal continua, contudo, a ser objeto de versões contraditórias. No julgamento realizado na Irlanda, o antigo solicitador rejeitou a ideia de que tivesse fugido para evitar a justiça. Perante o júri, afirmou que foi aconselhado a mudar-se para o estrangeiro durante "um ou dois anos", alegadamente por pessoas ligadas ao setor bancário com quem mantinha relações de negócio. Disse ainda que passou primeiro por Londres e depois por Portugal, onde continuou ligado a vários projetos imobiliários.

A acusação portuguesa conta uma história diferente. Segundo o Ministério Público, a mudança para Portugal aconteceu depois de Lynn ter obtido os financiamentos que estão na origem dos processos na Irlanda e na Hungria e numa altura em que começava a ser perseguido criminalmente nesses países. Foi então que, segundo os procuradores, organizou uma estrutura empresarial destinada a ocultar património e a integrar na economia legítima dinheiro proveniente dos crimes praticados no estrangeiro.

Durante esse período, terá montado uma rede de empresas, contas bancárias e alegados "testas de ferro" que lhe permitiram fazer entrar em Portugal o dinheiro obtido na Irlanda e na Hungria. Algumas das sociedades identificadas na acusação não teriam qualquer atividade real nas moradas declaradas às autoridades. Serviriam, segundo o Ministério Público, para receber fundos, movimentá-los entre contas, justificar transferências e afastar o antigo solicitador da origem dos montantes.

Casas de luxo e várias contas

O dinheiro terá entrado em Portugal em várias fases. Segundo a acusação, por determinação de Michael Thomas Lynn foram transferidos do estrangeiro para contas tituladas em território nacional 9 517 911,04 euros. A maior parte chegou entre outubro de 2006 e setembro de 2007, período em que terão entrado mais de 6,5 milhões de euros. Antes disso, em 2006, já tinham sido transferidos quase 928 mil euros. Mais tarde, entre julho de 2008 e julho de 2012, entraram mais de dois milhões.

Foi no Algarve que parte desse dinheiro ganhou forma mais visível. No processo foram arrestados oito imóveis, incluindo apartamentos e moradias de luxo em Tavira, Cabanas de Tavira, Quarteira e Vilamoura. Entre os bens identificados estão propriedades na Quinta das Salinas, na Urbanização Costa de Cabanas e na Avenida Tivoli, em Vilamoura.

No relatório final, os investigadores da PJ descrevem uma sequência “típica” de branqueamento, referindo que o esquema passava por “criar empresas, colocar terceiros a figurar como representantes, abrir contas, movimentar fundos, justificar operações e transformar dinheiro suspeito em património, crédito e despesas aparentemente normais”. Segundo a PJ, tratava-se de um “processo estruturado e continuado de dissimulação da origem dos fundos”, em que “as operações eram fragmentadas e distribuídas por várias entidades para dificultar a sua rastreabilidade”.

Segundo a PJ, a estrutura montada em Portugal também terá ajudado Lynn a obter crédito junto da banca portuguesa. O dinheiro que circulava pelas contas das sociedades dava aparência de atividade económica e permitia apresentar pedidos de financiamento a bancos portugueses.

Esses créditos terão sido depois usados para comprar imóveis, mas também suportar um “regime de vida faustoso e absolutamente de luxo”, segundo a PJ, que aponta para a compra de residências, viaturas e viagens através desse património. Refere ainda que alguns funcionários ligados às sociedades do grupo recebiam salários entre 30% e 50% acima do valor de mercado, o que, para os investigadores, ajudava a garantir fidelidade e a evitar perguntas sobre a verdadeira atividade das empresas.

Em Portugal, o Ministério Público acusou Michael Thomas Lynn, a ex-mulher e a irmã, mas também outros três alegados "testas de ferro" de um crime de branqueamento, imputado a cada um. De acordo com os procuradores, “ao agir como agiram, os arguidos bem sabiam que os fundos envolvidos em cada um dos atos em que participaram tinham tido origem em atividade punida criminalmente no estrangeiro” praticada por Lynn. Além disso, também os imóveis adquiridos em território nacional “tiveram” origem em fundos criminosos.

No processo que corre no tribunal de Faro, a defesa de Lynn e dos restantes arguidos rejeita a acusação de branqueamento, sublinhando que nunca procuraram esconder a origem de qualquer dinheiro nem o tentaram integrar na economia legítima através das sociedades portuguesas. Contestam ainda a própria construção jurídica do caso, defendendo que os factos praticados na Irlanda e na Hungria não podem servir de base à acusação apresentada pelo Ministério Público português.

Além disso, a defesa argumenta que uma parte relevante das provas que estão na origem da acusação portuguesa continua a ser discutida nos tribunais irlandeses. Os advogados referem que o caso ainda se encontra pendente de apreciação no Supremo Tribunal da Irlanda e sustentam que, enquanto não existir uma decisão definitiva, os alegados crimes praticados naquele país não podem servir de base à acusação de branqueamento deduzida pelo Ministério Público português.

A questão surge também refletida na correspondência trocada entre as autoridades dos dois países. Numa comunicação enviada através da Eurojust, as autoridades irlandesas informaram as congéneres portuguesas de que Michael Lynn iria recorrer para o Supremo Tribunal e que, por esse motivo, "a condenação demorará a tornar-se definitiva".

As autoridades irlandesas continuam também a acompanhar de perto o processo português e, numa outra comunicação enviada para Portugal, referem que "mantêm interesse na apreensão de bens” ligados a este processo. O caso deu recentemente lugar a uma série documental emitida pela RTÉ, intitulada “Michael Lynn: The Fugitive” (O Fugitivo). Realizado por Trevor Birney e produzido pela Fine Point Films, o documentário detalha a investigação do jornalista Michael O'Farrell, do Irish Mail on Sunday que perseguiu obstinadamente o rasto de Lynn logo após a sua fuga em 2007 antes de o rasto terminar na sua detenção no Brasil.

Fonte: CNN Portugal, 6 de julho de 2026

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