Empreiteiro que fez obras da PJ trabalha para Luís Neves

 

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O ministro da Administração Interna, Luís Neves, contratou o mesmo empreiteiro que fez construções para a Polícia Judiciária para realizar obras de remodelação no seu monte em Odemira, avança o jornal Nascer do Sol. Entre 2020 e 2025, a Construbarcelos, de João Carvalho, terá faturado 1,9 milhões de euros através de vários contratos públicos para dois projetos específicos: a remodelação do edifício-sede da PJ na Guarda e a renovação da sede da PJ em Évora.

A primeira obra da Construbarcelos para a PJ foi na Guarda, onde foram feitas cinco adjudicações entre 2020 e 2023, sendo algumas sem concurso, e pelo menos duas assinadas pelo então diretor nacional, Luís Neves. Já o projeto de Évora não consta no PortalBase, mas de acordo com o Nascer do Sol, terá sido entregue a João Carvalho. O empreiteiro confirma à publicação que a sua empresa “candidatou-se a vários concursos na PJ” e “foi selecionada para duas empreitadas, na Guarda e em Évora”.

Ao jornal, Luís Neves confirma que contratou João Carvalho para realizar “algumas intervenções apenas num monte em que sou proprietário”, justificando que escolheu a empresa por esta ser “credenciada pelo Gabinete Nacional de Segurança (GNS) — requisito exigido para os concursos na Polícia Judiciária”. “Tratando-se de uma intervenção em domínio familiar, deixou-me mais confiante do que, em alternativa, estar a chamar uma empresa desconhecida e sem esta validação superior”.

O ministro da Administração Interna nega, entretanto, que tenha contratado a Construbarcelos por manter uma relação de amizade prévia com o empreiteiro — o jornal alega que ambos serão “amigos pessoais”. “Desde 2019 que esta empresa se candidatava a procedimentos concursais da PJ, tendo o meu conhecimento pessoal com o empreiteiro João Carvalho acontecido vários anos após essa data”, responde Luís Neves, que assegura ainda que “todas as decisões” que tomou “enquanto dirigente da PJ visaram sempre salvaguardar o interesse público da instituição”.

O jornal ainda avança que a Construbarcelos terá processos judiciais pendentes no Porto e em Braga, alguns por dívidas a fornecedores, e que João Carvalho terá sido investigado pela PJ em 2017 por alegada falsificação de documentos e insolvência dolosa de outra empresa. Entretanto, tanto o empreiteiro quanto o ministro dizem desconhecer a existência de quaisquer processos-crime.

Fonte: Observador, 9 de julho de 2026

Luís Neves. Empreiteiro da PJ faz obras em casas do MAI

João dos Santos Carvalho é amigo de Luís Neves e empreiteiro de obras em dois montes alentejanos do ministro. A sua pequena empresa, Construbarcelos, trabalhou para a PJ de 2020 a 2025

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, escolheu para fazer obras de remodelação em dois montes de família, no concelho de Odemira, o empreiteiro João dos Santos Carvalho, de Barcelos, o mesmo que já tinha contratado para obras na Polícia Judiciária quando era diretor nacional.

A empresa de João Carvalho é a Construbarcelos, uma unipessoal criada há 11 anos e com menos de 30 empregados, classificada por analistas de informação comercial como de elevado risco em termos de crédito e de litigância, devido a processos judiciais pendentes nas comarcas do Porto e de Braga, alguns dos quais por dívidas a fornecedores.

O próprio empreiteiro, que é amigo pessoal de Luís Neves, foi investigado em 2017 pela Polícia Judiciária por alegados crimes de falsificação de documento e insolvência dolosa de uma outra empresa que detinha para exploração de pastelarias.

Apesar deste histórico, Luís Neves, que é licenciado em Direito, tem recorrido a João Carvalho para este lhe fazer obras nos seus montes alentejanos e não terá visto qualquer problema em lhe entregar vários contratos com o Estado para obras de norte a sul do país, incluindo nas sedes distritais da PJ na Guarda e em Évora.

Em seis anos, de 2020 a 2025, a Construbarcelos faturou ao erário público cerca de 1,9 milhões de euros, por via das adjudicações da PJ, algumas das quais aconteceram sem concurso.

O melhor ano foi o de 2024, com 750 mil euros a saírem dos cofres da Judiciária para a conta do empreiteiro. De resto, mais nenhuma outra entidade do Estado alguma vez contratou a empresa de João dos Santos Carvalho.

A primeira obra da Construbarcelos, quando Luís Neves era diretor nacional, foi a remodelação do edifício-sede da PJ na cidade da Guarda. Em vez de um só contrato, com todas as intervenções já previstas, foram feitas cinco adjudicações em separado: a primeira em abril de 2020 e a última em dezembro de 2023. O próprio Luís Neves assinou pelo menos dois dos cinco contratos.

Seguiu-se a renovação da sede da Judiciária em Évora. No entanto, ao contrário do que sucedeu com as obras da Guarda, esta outra empreitada não consta no Portal Base, a plataforma online onde as entidades do Estado são obrigadas a divulgar os contratos.

Segundo uma porta-voz da PJ, o dever de publicitar no Portal Base não se aplica a «contratos cuja execução deva ser acompanhada de especiais medidas de segurança ou cuja divulgação seja suscetível de comprometer interesses essenciais de segurança do Estado».

No entanto, a mesma fonte não quis esclarecer se as obras da Construbarcelos em Évora eram um desses casos de «especiais medidas de segurança», nem disse o motivo pelo qual as empreitadas na PJ da Guarda não precisaram de ser ocultadas.

Além do mais, no Portal Base encontra-se um contrato da PJ com uma empresa de fiscalização da obra em Évora. Ou seja, consta quem fiscalizou, mas não quem executou a obra fiscalizada.

Não restam dúvidas de que foi a empresa de João dos Santos Carvalho a renovar as instalações da PJ em Évora. Fotografias que a própria Judiciária incluiu na sua página oficial no Facebook em 10 de abril do ano passado, um dia depois da cerimónia de inauguração das novas instalações, revelam a presença de João dos Santos Carvalho junto ao então diretor nacional, Luís Neves, enquanto este cortava uma fatia de bolo sob o olhar da ministra da Justiça.

Um documento a que tivemos acesso, com o esquema dos lugares que cada pessoa ocuparia na cerimónia, mostra que na fila mais atrás teria assento o «construtor» e a «esposa do construtor». De facto, João dos Santos Carvalho e a sua mulher aparecem nas fotos sentados naquelas cadeiras.

Enquanto ainda trabalhava para a PJ, o empreiteiro minhoto começou a remodelar os montes alentejanos de Neves. Tem sido uma longa empreitada, que ainda prossegue.

Questionado pelo SOL sobre a existência de faturas, o gabinete do ministro remeteu um registo de duas faturas no Portal da Finanças: ambas de 2.500 euros e de fevereiro de 2025, emitidas pela Construbarcelos à unipessoal ALCampos, da mulher de Luís Neves.

Resposta do empreiteiro

A empresa Construbarcelos candidatou-se a vários concursos na PJ, na medida em que possui requisitos legais e as especificações técnicas exigidas, sendo que, todos os procedimentos concursais a que se apresentou, apenas foi selecionada para duas empreitadas, na Guarda e Évora. Não foi selecionada em outros procedimentos concursais.

Conheci pessoalmente o dr. Luís Neves na fase posterior, quando a empreitada da Guarda estava quase concluída, em finais de 2023.

Prestei um serviço referido de forma legal, mediante o pagamento respetivo, cujas faturas apresentei, estando ainda em falta de outras despesas. Acredito que pesou nessa decisão do dr. Luís Neves o facto de a minha empresa possuir a credenciação de segurança do Gabinete Nacional de Segurança.

Um alto dirigente de uma instituição como a PJ, no caso o dr. Luís Neves, cujo passado foi no combate ao crime e na deteção de centenas de criminosos, para quem conta salvaguardar a sua segurança e a da sua família. Em relação aos processos-crime que refere, a esta data desconheço essa situação.

Resposta de Luís Neves

Confirmo que o empreiteiro João Carvalho efetuou algumas intervenções apenas num monte de que sou proprietário.

O facto de ser uma empresa credenciada pelo Gabinete Nacional de Segurança (GNS) - requisito exigido nos concursos para a Polícia Judiciária (PJ) - ofereceu-me garantias, uma vez que se tratava de uma empresa validada por um organismo independente do Estado, com responsabilidades em matéria de segurança.

Tratando-se de uma intervenção em domínio familiar, deixou-me mais confiante do que, em alternativa, estar a chamar uma empresa desconhecida e sem esta validação superior.

Não foram “obras” de dimensão a exigir um projeto ou um contrato. Foram intervenções casuais, faseadas mediante a minha disponibilidade e a da empresa, cujos pagamentos foram sendo feitos à medida que me foram apresentadas as faturas, estando ainda a aguardar o envio das faturas finais.

Como é óbvio, tenho na minha posse as faturas destes pagamentos, bem como as de diversos materiais utilizados.

Esta situação acima descrita não teve, nem podia ter, qualquer influência na relação profissional do empresário João Carvalho com a PJ, a qual se rege, como no que diz respeito a todas as empresas candidatas, a parâmetros pré-definidos, sob princípios de livre concorrência, transparência e imparcialidade.

Um diretor nacional da PJ não tem qualquer participação nos processos de seleção de candidatos a concursos que decorrem na instituição. Essa responsabilidade é dos serviços competentes da instituição, que trabalham com base em critérios técnicos e legais.

O diretor nacional da PJ apenas intervém quando o procedimento concursal passou todos os trâmites técnicos e legais e se encontra finalizado.

Desde 2019 que esta empresa se candidatava a procedimentos concursais da PJ, tendo o meu conhecimento pessoal com o empreiteiro João Carvalho apenas ocorrido vários anos após essa data.

Todas as decisões que tomei enquanto dirigente da PJ visaram sempre salvaguardar o interesse público e da instituição. Não existiu qualquer tratamento preferencial a esta empresa, o que pode ser demonstrado pelas larguíssimas dezenas de contratos que foram sendo celebrados neste período com outras empresas, sujeitos a auditorias regulares e que podem facilmente ser escrutináveis através dos mecanismos legais existentes, designadamente através do Tribunal de Contas.

Quanto à alegada existência de processos-crime, desconhecia e continuo a desconhecer essa situação.

Volto a frisar que se tratava de uma empresa credenciada pelo GNS, o que exige apresentar todas as certificações legalmente exigidas, sem as quais não pode ser efetuado qualquer contrato, e demonstram o preenchimento de critérios técnicos e objetivos que sustentam a decisão final.

Fonte: Nascer do Sol, 10 de julho de 2026

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