Europa: milhões com quartos a mais agravam crise da habitação
Bridget Williams, modelo, influenciadora digital, praticante
de skate e surf vivendo em Melbourne
A Europa enfrenta ao mesmo tempo um problema de espaços
vazios e uma grave crise da habitação.
Apesar da falta de habitação a preços acessíveis em todo o
bloco, uma
em cada três pessoas na UE vive em casas com quartos a mais, segundo
o Eurostat. Os números evidenciam o desfasamento entre a oferta de alojamento e
as necessidades dos agregados familiares, bem como diferenças marcadas nos
padrões de habitação na Europa.
Subocupação designa
habitações maiores do que aquilo de que os moradores necessitam,
geralmente por terem mais quartos do que o necessário. É o oposto de
sobrelotação e está muitas vezes associada a pessoas mais velhas que continuam
a viver na casa de família depois de os filhos saírem de casa.
Embora as condições habitacionais inadequadas continuem a
ser um desafio em quase todos os países da UE, a dimensão da crise e as suas
causas profundas variam de forma significativa, de acordo com o Conselho
Europeu.
Quais são, então, os países
com taxas mais elevadas de subocupação? No conjunto da UE, 33,4 %
das pessoas vivem em habitações subocupadas, mas a percentagem varia entre 8,1
% na Roménia e 69,4 % em Chipre.
Europa de Leste regista as taxas mais baixas de
subocupação
A subocupação é, em geral, muito menos comum na Europa de
Leste e do Sudeste do que no resto do continente.
Após a Roménia (8,1 %), a proporção de pessoas que vivem em
casas subocupadas mantém-se abaixo dos 15 % na Sérvia (8,2 %), Turquia (10,3
%), Letónia (10,5 %), Grécia (12,5 %) e Croácia (14,7 %).
A percentagem de pessoas que vivem em casas subocupadas é
também relativamente baixa na Bulgária (15,8 %), Eslováquia (15,9 %), Macedónia
do Norte (17 %), Polónia (17,9 %), Lituânia (18 %) e Itália (18,2 %).
Em conjunto, estes países formam o grupo com valores mais
baixos na Europa, seguido da Estónia, Chéquia e Hungria, onde as taxas rondam
os 27 %.
Onde a subocupação é mais frequente
Chipre regista a taxa de subocupação mais elevada da Europa,
com 69,4 %, seguido da Irlanda (66 %) e de Malta (63,2 %). Importa notar que os
três são países insulares.
A proporção de pessoas que vivem em casas com quartos a mais
também supera 50 % nos Países Baixos (58,5 %), Bélgica (57 %), Espanha (54,3
%), Luxemburgo (52,2 %) e Noruega (51 %).
Entre os países nórdicos, a Finlândia (46,6 %) e a Dinamarca
(42,4 %) situam-se igualmente muito acima da média da UE.
O quadro diverge claramente entre as quatro maiores
economias da UE.
A Espanha tem uma das taxas de subocupação mais elevadas, de
54,3 %, contra apenas 18,2 % em Itália. A França situa-se nos 40,4 %, enquanto
a Alemanha está praticamente em linha com a média da UE, com 33,3 %.
Sul da Europa mostra duas realidades habitacionais
distintas
Embora a taxa seja bastante mais baixa em grande parte do
sudeste e do leste da Europa, o próprio sul da Europa está dividido. Chipre,
Malta e Espanha apresentam valores elevados, enquanto Itália, Grécia, Turquia e
grande parte dos Balcãs registam taxas reduzidas. Isto sugere que a tendência
não se explica por uma simples clivagem norte-sul.
Podem as políticas públicas reduzir a subocupação?
A Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham
com Sem-abrigo (FEANTSA) sublinha que a questão essencial é saber se o parque
habitacional, e em especial a nova oferta, responde à crescente procura de
casas mais pequenas.
"Essas casas mais pequenas existem de facto e são
acessíveis?", disse um porta-voz da FEANTSA à Euronews Business.
Ao referir-se à "bedroom
tax", introduzida no Reino Unido em 2013, a organização afirmou
que a medida foi ineficaz, porque muitas vezes não existiam casas com a
dimensão adequada, o que levou a perdas de rendimento para agregados que pouco
mais podiam fazer senão ficar onde estavam.
A organização defendeu que recuperar habitações devolutas
para arrendamento acessível e habitação social poderá ser mais eficaz do que
focar a subocupação.
“Penalizar a subocupação sem abordar as causas mais
estruturais que conduzem à habitação inacessível, como o subinvestimento em
verdadeira habitação social e a financeirização e especulação imobiliária,
representa um erro de diagnóstico", afirmou o porta-voz.
O efeito da propriedade da habitação
Segundo o Eurostat, a proporção de pessoas que vivem em
habitações subocupadas é de 14,2 % entre inquilinos, contra 40,5 % entre
proprietários.
O professor Sebastian Kohl, da Universidade Livre de Berlim,
afirmou que as diferenças entre países são fortemente condicionadas pelos
enquadramentos institucionais, sobretudo pelas taxas de propriedade de
habitação e pela composição demográfica.
"Estruturas institucionais como o regime de ocupação
têm um papel decisivo. Nos nossos modelos, a propriedade da habitação é o fator
isolado que melhor prevê a subocupação objetiva", disse à Euronews
Business.
Quem tem maior probabilidade de viver numa casa
subocupada?
Um estudo de Jonas Lage e colegas concluiu que o tipo de
agregado familiar está intimamente ligado à subocupação.
A maioria dos quartos subocupados encontra-se em agregados
de uma ou duas pessoas. As taxas são também, em geral, mais elevadas nos
agregados sem crianças.
Na UE, 41 % das habitações subocupadas situam-se em cidades,
com cerca de 30 % em zonas rurais e outros 30 % em vilas e pequenas cidades.
Na maioria dos países, e em média na UE, os agregados com
rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de viver em casas subocupadas
e representam uma fatia maior dos quartos subocupados.
O que conta como divisão depende do país
Kohl destaca também a dificuldade de harmonizar as medições,
decorrente das diferentes definições nacionais do que é uma divisão.
Sublinha que Espanha, Irlanda e Finlândia contam
explicitamente as cozinhas como divisões nos respetivos inquéritos.
Chama ainda a atenção para o forte desfasamento entre os
indicadores objetivos e a perceção subjetiva das pessoas. Os investigadores
verificaram que apenas duas em cada cinco pessoas consideravam a sua casa
demasiado grande, embora fosse classificada como subocupada segundo os
critérios oficiais.
Fonte: Euronews, 30 de junho de 2026

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