Gastos com defesa ditados pela NATO abrem cenário de subida de impostos
O
quadro é traçado no Boletim Trimestral de Economia, com as chancelas do
Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do
Ministério das Finanças e da Direção-Geral da Economia.
Um reforço do investimento em “capacidades militares
essenciais” para um volume de 3,5 por cento do PIB pode
implicar, até 2035, um aumento de “imposto direto sobre as famílias” em 2,6
pontos percentuais, mesmo que esta via venha também a produzir
resultados “positivos” para o desempenho económico do país. É o que aponta o
Boletim Trimestral de Economia Portuguesa, documento do ministério das Finanças
conhecido esta quinta-feira.
“A despesa com defesa voltou a ocupar um lugar central na
agenda europeia. Na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia e da maior
pressão para que os países europeus da NATO assumam uma parcela superior do
esforço de segurança, a Cimeira da NATO de Haia, em 2025, definiu um novo
compromisso: até 2035, os Estados-membros
deverão investir cinco por cento do PIB em
defesa e áreas relacionadas, incluindo pelo menos 3,5 por cento do PIB em
capacidades militares essenciais. Para Portugal, este objetivo representaria
uma alteração significativa face à trajetória das últimas décadas”, lê-se no
Boletim Trimestral.
O cenário gizado pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia,
Avaliação e Relações Internacionais das Finanças aponta para que o acentuar da
aposta orçamental em defesa possa “apoiar a atividade económica”. Mas “o
impacto depende fortemente da composição da despesa”.
“Num cenário em que o esforço adicional é maioritariamente
orientado para investimento - equipamento, infraestruturas e I&D
[Investigação e Desenvolvimento] - o PIB real de Portugal situa-se cerca de 0,2
por cento acima do cenário base em 2025-2026 e cerca de 0,5 por cento acima do
cenário base no período 2027-2035”, escrevem os analistas do governo.
Os potenciais efeitos benéficos para o PIB “não são”,
contudo, “autofinanciados”. Ou seja, “a expansão
da despesa pública implica uma deterioração inicial das contas públicas e
exige, no médio prazo, ajustamento fiscal para assegurar a sustentabilidade da
dívida”. “No cenário de ação unilateral com maior peso do
investimento, a dívida pública portuguesa aumentaria cerca de 3,2 p.p. do PIB
em 2035 face ao cenário sem alteração de política. Em paralelo, a taxa de
imposto direto sobre as famílias aumentaria 2,6 p.p. em 2035, contribuindo para
uma redução do consumo privado no médio prazo”.
Na análise integrada no Boletim Trimestral de Economia, pode
ainda ler-se que, “quando várias economias aumentam simultaneamente a despesa
de defesa, Portugal beneficia de maior procura externa, com um ganho expressivo
nas exportações face ao cenário unilateral”.
Sem embargo, “a coordenação também gera condições
financeiras mais restritivas, dado o maior estímulo agregado na área do euro,
comprimindo componentes da procura interna mais sensíveis às taxas de juro, em
particular o investimento privado. O efeito líquido para Portugal é positivo,
mas modesto”.
O documento prescreve, assim, que “a despesa de defesa pode
apoiar o crescimento, mas o desenho da política é determinante”.
“Uma composição mais orientada para investimento gera ganhos
mais persistentes, ao reforçar a capacidade produtiva e estimular o
investimento privado. Pelo contrário, uma trajetória mais centrada em salários,
operações correntes e manutenção produz um multiplicador inferior e menor
impacto de médio prazo”.
“Estes resultados devem ser
interpretados como simulações e não como previsões. O exercício não
incorpora plenamente eventuais restrições de capacidade na indústria de defesa,
atrasos de contratação pública, dependência de importações, nem potenciais
ganhos adicionais associados a I&D, tecnologias de duplo uso, aprendizagem
produtiva ou criação de novos clusters industriais. Assim, a questão central
não é apenas quanto se gasta, mas como se gasta, como se financia e em que
medida o esforço é coordenado a nível europeu”, ressalva-se no mesmo boletim. “O
exercício distingue entre ação unilateral e coordenada, entre uma composição
mais centrada em despesa corrente e uma composição mais orientada para
investimento, e incorpora hipóteses sobre financiamento, política monetária e
formação de expectativas”.
A última cimeira da Aliança Atlântica, que se realizou este
mês em Ancara, quis carimbar o advento da “europeização" do bloco, uma
exigência do presidente norte-americano, Donald Trump.
Os líderes da NATO aprovaram um pacote de aquisições bélicas
na ordem dos 50 mil milhões de dólares - o equivalente a 44 mil milhões de
euros – e reiteraram a meta de investimento de cinco por cento do PIB, por
país-membro, em defesa.
Fonte: RTP Notícias, 23 de
julho de 2026

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