Homem inglês encontrou frasco de perfume e deu-o à namorada. Mas era, afinal, o veneno mortal usado para envenenar ex-espião russo
iCarly
(2007–2012) - Jennette McCurdy, Nathan Kress, Mary Scheer, Bil Dwyer, Aubree
Knight
Na
pacata vila de Salisbury, no Reino Unido, homem encontrou em 2018 o que achava
ser frasco de perfume. Ofereceu-o à namorada. Mas era, afinal, o mesmo veneno
usado para tentar matar ex-espião russo
O que um homem inglês julgou ser um simples frasco de
perfume, que encontrou num caixote de artigos oferecidos por caridade e decidiu
dar como presente à namorada, transformou-se numa tragédia pessoal com ligações
a um dos mais mediáticos casos de espionagem entre o Reino Unido e a Rússia.
O caso, que foi mediático na altura e agora foi recuperado
num documentário da CNN Internacional, remonta a uma tarde de junho de
2018. Charlie Rowley estava a remexer num contentor de doações – algo que fazia
habitualmente, à procura de objetos oferecidos à caridade com algum valor. Foi
aí que encontrou um frasco da luxuosa marca Nina
Ricci – ainda embalado.
Achando que tinha acabado de ter um enorme golpe de sorte,
decidiu oferecê-lo à namorada, Dawn Sturgess, sem imaginar que aquele frasco
continha, na realidade, Novichok, o
agente neurotóxico que as autoridades britânicas acreditam que tinha sido
usado, três meses antes, na tentativa de assassinato do antigo espião russo Sergei Skripal, na mesma vila de Salisbury.
O meu objetivo era oferecer-lhe um presente especial. Ela
ficou contente quando o recebeu, mas tudo correu terrivelmente mal”, recorda
Rowley, em declarações feitas para o documentário da CNN.
Dois dias depois de encontrar o frasco, entregou-o à
companheira, que vivia numa casa para pessoas sem-abrigo mas que estava a
preparar-se para ir viver com o namorado, Charlie. Assim que abriu a embalagem,
a mulher, de 44 anos, estranhou que o pulverizador estivesse separado do
frasco, tendo que ser acoplado manualmente.
Charlie Rowley lembra-se disso. Mas não se lembra de muito
mais. Dawn aplicou o líquido no pulso e aproximou-o do nariz, para sentir o
cheiro, mas os dois repararam que não tinha, afinal, qualquer aroma.
Minutos depois, a mulher começou a sentir-se mal e
rapidamente perdeu os sentidos. Em pânico, o namorado chamou uma ambulância que
a transportou para o hospital. Foi a última vez que a viu.
Sem suspeitar de um envenenamento, após a namorada ser
levada, Rowley permaneceu em casa durante algumas horas, mas acabaria, também
ele, por desenvolver sintomas graves e pedir ajuda. No hospital, entrou em coma
e assim permaneceu durante várias semanas.
Quando saiu do coma, sofreu um acidente vascular cerebral
que lhe deixou sequelas com as quais ainda hoje vive – incluindo a perda de
mobilidade num dos braços. Dawn Sturgess morreu dez dias depois de ter sido
exposta àquele veneno letal, quando Rowley estava ainda em coma – foi um médico
que informou o namorado que a mulher tinha morrido.
Segundo um antigo responsável pela luta antiterrorista no
Reino Unido, que dá o seu testemunho no documentário, aquela pequena embalagem continha quantidade suficiente
de Novichok para matar mais de 10 mil pessoas.
Envenenamento ocorreu meses após caso de Sergei Skripal
O caso ocorreu poucos meses depois de Sergei Skripal, antigo
oficial dos serviços secretos militares russos que colaborara com o MI6
britânico, e a filha, Yulia, terem sido envenenados em Salisbury. A
investigação britânica concluiu que dois operacionais dos serviços militares
russos aplicaram Novichok na porta da casa de Skripal antes de regressarem a
Moscovo.
Porém, ambos sobreviveram ao ataque, apesar de terem estado
em grave perigo de vida. Hoje, vivem noutro local sob proteção e identidades
falsas.
O Kremlin sempre rejeitou qualquer envolvimento no caso,
tendo Vladimir Putin classificado as acusações como “absurdas”. Os dois
suspeitos identificados pelas autoridades britânicas nunca foram detidos e
alegaram que estavam em Salisbury apenas como turistas.
Mas oito anos depois, Rowley continua a viver com as
sequelas físicas e psicológicas do envenenamento. Além do braço cuja mobilidade
perdeu, diz sofrer de problemas de equilíbrio e dificuldades de memória. O
pior, porém, é o sentimento de culpa que carrega, pela morte da companheira.
Fiquei em choque. Era o presente que eu lhe tinha dado.
Senti-me terrivelmente culpado e continuo a lidar com esse sentimento até
hoje.”
Apesar de ter chegado a reunir-se com o embaixador russo em
Londres na esperança de obter respostas, Charlie afirma ter perdido a
expectativa de que alguém venha a ser responsabilizado pela morte de Dawn
Sturgess. “Já não está nas minhas mãos. Não há nada que eu possa fazer”,
lamenta.
Fonte: Observador, 11 de julho de 2026

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