Jornalistas britânicos estão a autocensurar-se em temas como a imigração, Trump e a direita. Temem pela própria segurança, apura investigação
Muitos jornalistas do Reino Unido estão a praticar
autocensura na cobertura de protestos de apoio à direita, em artigos sobre
Donald Trump e reportagens sobre os direitos trans por terem pela sua própria
segurança, com as redações do país a serem acusadas de “normalizar” os riscos
que os profissionais de média enfrentam atualmente.
Os dados foram apurados numa investigação apoiada pelo
governo britânico com base em entrevistas com centenas de jornalistas de todo o
Reino Unido, cujos resultados foram divulgados este domingo pelo The
Guardian e outros jornais.
Sob anonimato, os entrevistados relataram uma crescente
apreensão quanto à sua segurança no contexto da profissão, com alguns a
assumirem que evitam ou alteram a cobertura de determinados tópicos por temerem
intimidações, o que resulta em autocensura e num “estreitamento do debate
público”, ressaltam os investigadores.
A investigação foi conduzida perante a crescente hostilidade contra os média ditos tradicionais
em todo o Ocidente e os riscos
para a segurança dos profissionais de média, que levaram as autoridades
governamentais a encomendarem este estudo à consultora Alma Economics. É uma
das avaliações mais abrangentes sobre a segurança de jornalistas algum dia
produzidas no Reino Unido, envolvendo 531 profissionais e 55 entrevistas
aprofundadas.
Quase metade dos entrevistados diz que as preocupações com a
sua segurança influenciam a sua disposição para cobrir determinados assuntos,
enquanto cerca de um terço diz ter alterado a forma como realiza a cobertura ou
os assuntos que decide abordar.
"Houve, sem dúvida, momentos em que nos deparamos com
uma história – talvez de interesse público, talvez que valesse a pena noticiar
– no âmbito da qual tivemos discussões francas sobre se 'valia a pena'
abordá-la", refere um jornalista. Outra profissional diz que, no contexto
de matérias que cobriu, ficava “definitivamente a olhar para trás, para me
certificar de que não estava a ser seguida e de que as pessoas não iam começar
a gritar-me coisas”.
Os investigadores apuraram que existe uma crença
generalizada de que os abusos na sequência do trabalho jornalístico aumentaram,
sobretudo online, e que a cultura de redação trata este aumento como algo
“inevitável”, dado o atual clima político altamente polarizado. O estudo também
constatou que a transição para o jornalismo online e vídeo tornou os
jornalistas mais identificáveis.
As jornalistas mulheres são as que mais sofrem com estes abusos, com as entrevistadas a relatar
assédio sexista e sexual, ameaças explícitas, mensagens inadequadas e comentários online focados na sua aparência.
Uma das pessoas ouvida no estudo diz ter visto uma
jornalista ser alvo de insultos misóginos durante uma manifestação organizada
pelo movimento nacionalista “Unite the Kingdom”, com imagens dela a serem
posteriormente publicadas nas redes sociais.
Questionados sobre os temas cuja cobertura gera mais
preocupação quanto à sua própria segurança, os jornalistas enumeraram protestos
anti-imigração, a administração Trump – incluindo manifestações contra a
agência de controlo de fronteiras norte-americana (ICE) – e questões
relacionadas com pessoas transgénero.
“Os protestos anti-imigração foram os mais citados pelos
jornalistas, tanto em relação aos riscos presenciais ao cobrir as manifestações
quanto à reação negativa a qualquer reportagem subsequente”, é apontado na
investigação.
Na Irlanda do Norte há “inúmeros relatos de jornalistas que
sofreram intimidação por parte de homens mascarados” enquanto cobriam protestos
contra imigrantes, casos esses que foram comunicados ao Sindicato Nacional de
Jornalistas do Reino Unido.
Um jornalista que cobriu um desses protestos viu fotografias
suas postas a circular num grupo de Facebook onde os utilizadores colaboraram
para o identificar e localizar.
Resultados semelhantes ao desta investigação britânica foram
observados nos EUA, onde a International Women’s Media Foundation constatou que
os jornalistas estão a atuar num cenário de intensa polarização política, queda
da confiança pública nos média e uma crescente exposição dos seus profissionais
a riscos físicos e psicológicos.
Fonte: CNN Portugal, 26 de julho de 2026

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