Liderança global. É cada vez mais provável tomar medicamentos feitos na China
A China passou de grande produtor a maior criador de inovação na área
do medicamento.
Pequim delineou um plano, executou-o e está a revolucionar o mercado dos
fármacos. Estados Unidos e Europa têm a liderança histórica em risco. Há quem
preveja mesmo que seja deste setor que saia um segundo momento
"Deepseek" chinês. Que consequências tem esta mudança estrutural para
a Europa?
Quando compra um novo medicamento sujeito a receita médica,
há uma probabilidade cada vez maior de que este tenha sido desenvolvido num
laboratório na China.
Pequim está cada vez mais
perto de se tornar líder mundial na indústria farmacêutica. Na área da
produção, já há décadas que é dominante à escala global, mas os últimos anos
marcaram o salto. É dos laboratórios chineses que está a surgir a maior parte
da inovação nesta área, o que está a roubar protagonismo aos
anteriores blocos dominantes: a Europa e os EUA.
O país tornou-se mesmo uma das maiores fontes de novos
candidatos a medicamentos que entram em ensaios clínicos em seres humanos a
nível global.
De acordo com a Goldman Sachs Research, 46% das novas
moléculas farmacológicas que entraram em ensaios clínicos em pessoas em todo o
mundo provinham de empresas biofarmacêuticas chinesas, no primeiro semestre de
2025.
Uma tendência que é confirmada à Renascença pelo
Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Hélder Mota Filipe, que descreve a
evolução supersónica na indústria daquele gigante asiático.
“A China passou, em pouco
mais de uma década, de um produtor típico de medicamentos genéricos para uma
potência mundial de inovação terapêutica, e em áreas muito inovadoras e que
fazem verdadeiramente a diferença, como na oncologia ou na área dos anticorpos
monoclonais [funcionam como "mísseis teleguiados" que reconhecem,
bloqueiam ou atacam alvos específicos no corpo — como vírus, bactérias ou
células cancerígenas]”, ilustra.
Aliás, esta área do tratamento do cancro é paradigmática
nesta história. De acordo com a GlobalData, o licenciamento de tratamentos na
área oncológica atingiu os 30 mil milhões de dólares (26,25 mil milhões de
euros) em 2024. Um valor três vezes maior do que os laboratórios
norte-americanos.
Dados que levaram recentemente o diretor comercial
internacional da Pfizer, Alexandre de Germay, a afirmar que a China ultrapassou
a Europa na inovação farmacêutica e no desenvolvimento de medicamentos.
"Hoje em dia, 40% de todos os estudos clínicos em
oncologia no mundo são realizados na China", disse de Germay.
Números que impressionam
O volume de inovação que está a surgir da biotecnologia na
China, afirma o responsável da Pfizer, é “simplesmente incrível". "Em
2024, dos 81 medicamentos inovadores lançados, 28 vieram da China e apenas 18
da Europa", acrescentou.
Valores que não deixam indiferente António Portela, líder da maior farmacêutica nacional, a Bial, que considera “fantástico” este trabalho chinês de passar de grande produtor a inovador de referência do setor. Uma operação que afirma que começou há pelo menos 25 anos e da qual aquele país agora colhe os frutos.
“E esse é o trabalho que nós estamos a ver, que vai muito
além da parte industrial, dos princípios ativos e produção de genéricos, que
obviamente têm muito menos valor, para uma aposta muito maior na inovação”,
sinaliza.
Portela descreve também o “processo chinês” de assalto ao
domínio do setor a nível mundial. Foi marcado por uma aposta na regulamentação,
para a proteção de patentes e de proteção da propriedade intelectual, e na
criação de um ecossistema empresarial que pudesse atrair investimento para a
inovação.
“E isso foi feito, quer com o investimento internacional,
das grandes multinacionais, quer com o investimento local”, concretiza.
Uma ascensão que não é um acaso
A ascensão da China na indústria farmacêutica não é um acaso
— é o resultado de políticas e investimentos estratégicos. O Healthy China 2030
acelerou o crescimento deste setor com subsídios, isenções fiscais e
incentivos.
“Desde o início do 14.º Plano
Quinquenal (2021-2025), um total de 204 medicamentos inovadores, 387
medicamentos pediátricos e 147 medicamentos para doenças raras foram aprovados
para comercialização, atendendo eficazmente às necessidades de medicamentos de
grupos populacionais importantes”, afirmou Yang Sheng, vice-diretor
da Administração Nacional de Produtos Médicos chinesa.
Factos que, na opinião do Bastonário da Ordem dos
Farmacêuticos, fizeram com que a China tenha “um conjunto de condições que lhe
permite ganhar a dianteira a nível da inovação terapêutica, a nível da
indústria farmacêutica inovadora. E, portanto, neste momento temos empresas
chinesas que são parceiras de grandes farmacêuticas mundiais”.
As mudanças que estão a acontecer neste setor não são
abstratas, são bem reais. A transformação está em movimento e a solidificar-se.
Mota Filipe conta que se “numa primeira fase as empresas americanas e europeias
davam licenças à China para produzir os seus produtos localmente, neste momento
estamos a assistir a uma inversão da tendência. As novas empresas inovadoras
chinesas fazerem parcerias com a indústria europeia e americana para
licenciarem produtos chineses às indústrias europeias e americanas”.
“Estamos numa nova realidade, não há dúvida de que a China
se tornou um dos principais centros globais da indústria farmacêutica, dos
ensaios clínicos, curiosamente também, criou condições para que os ensaios
clínicos pudessem ser competitivos quando realizados na China. E portanto,
neste momento, estamos nesta condição que nos põem europeus e americanos cada
vez mais, digamos assim, na dependência da própria inovação chinesa e da
indústria farmacêutica chinesa”, conclui.
Pharma Valley
O CNA, canal noticioso de Singapura, ilustra como no terreno
isto está a acontecer. Grande
parte desta atividade decorre em Zhangjiang, um distrito de Xangai onde as ruas
têm nomes de cientistas famosos, como Thomas Edison e Cai Lun.
Outrora conhecida principalmente como um polo tecnológico, a
zona ganhou uma nova denominação nos últimos anos — “Pharma Valley” — devido ao
grande número de empresas de biotecnologia aí sediadas.
Na mesma publicação desvenda-se um outro fator de sucesso
para o crescimento chinês: o da velocidade e custos, que são algumas das
principais razões por detrás da rápida ascensão como potência farmacêutica. Não
esquecer que o desenvolvimento de um novo medicamento demora 10 a 20 anos,
custa aproximadamente 1,5 mil milhões a dois mil milhões de dólares e apresenta
taxas de insucesso entre 90% e 99% ao longo do processo.
"É muito importante para nós ter pacientes suficientes
para testar um medicamento específico. Devido ao enorme mercado interno, o
recrutamento de pacientes para ensaios clínicos é muito rápido", afirmou
ao CNA Rei Lim, fundador da Pharminex, uma plataforma de networking para
profissionais das ciências da vida na região Ásia-Pacífico.
Segundo o que António Portela diz à Renascença, a
China conseguiu também criar outra coisa importantíssima: um ecossistema. “Têm
muitas startups, muitas empresas chinesas que se têm desenvolvido e que hoje
estão a apostar na inovação, como as empresas ocidentais o fazem, fazendo
ensaios clínicos, cumprindo as regras da FDA [Agência Federal dos Estados
Unidos responsável pela proteção da saúde pública] ou da EMA [Agência Europeia
do Medicamento] na Europa, fazendo ensaios clínicos nos Estados Unidos, fazendo
ensaios clínicos na Europa”, relata.
“Novo momento Deepseek”
Um caldo que leva alguns especialistas a dizer que se houver
um segundo momento Deepseek, em que a China surpreenda o mundo com um salto
tecnológico inesperado, ele pode acontecer no setor farmacêutico.
William Ma, fundador e diretor global de investimentos do
GROW Investment Group, citado também pela CNA, afirma que, há uma década,
muitas empresas de capital de risco chinesas e internacionais já estavam a
investir avultadamente em biotecnologia e produtos farmacêuticos, apostando no
potencial do setor.
“Se houver um segundo momento DeepSeek na economia chinesa,
será um avanço no setor da biotecnologia ou farmacêutico", acredita Ma.
António Portela, CEO da Bial, não acha impossível. Compara o
que está a acontecer na indústria farmacêutica com o que sucedeu na área dos
automóveis elétricos.
“Não havia automóveis chineses praticamente no mundo
ocidental, e eles investiram em, não sei, 40, 50, 60 startups que desenvolveram
veículos elétricos, e hoje estão a começar a dominar o mercado mundial”,
resume.
O declínio europeu
O que significa este salto de gigante chinês para a Europa?
O Bastonário dos Farmacêuticos, Hélder Mota Filipe, vê algumas nuvens
cinzentas.
“Quando nós estamos dependentes para áreas terapêuticas tão
importantes e tecnologia de ponta, depois entram os equilíbrios geopolíticos, e
parece-me que nunca é bom do ponto de vista europeu estar dependente nesta área
de países com os interesses que tem a República Popular da China”, afirma.
Ainda assim, se fosse só pela qualidade dos produtos, Mota
Filipe diz que nada havia a temer. “Não pode haver medicamentos comercializados
no espaço europeu que não cumpram as regras europeias, para os medicamentos
poderem ser aprovados na Europa”, explica.
A Europa, outrora dominante, foi perdendo o “momentum” na
área farmacêutica. Resultado de um conjunto de decisões erradas, segundo o
Bastonário. Ressalva que “não podemos ver isoladamente a indústria
farmacêutica”, mas temos de olhar para política industrial do continente, nos
últimos anos, como um todo.
“Nos anos 90 e no início dos anos 2000, teve prioridades e
políticas erradas quando transferiu a tecnologia para países com menor preço de
mão-de-obra, apesar de ter gente habilitada [para o fazer]”, refere.
Um quarto de século depois, segundo o Bastonário da Ordem
dos Farmacêuticos, “estamos a pagar essas decisões e, portanto, perdemos
competitividade relativamente a esses países — que, entretanto, evoluíram,
prepararam condições para poderem hoje transformar-se, não apenas em produtores
de mão de obra barata, mas em indústrias com capacidade de inovação”.
Mota Filipe assinala, ainda assim, que há, neste momento,
“uma tendência e uma vontade do ponto de vista da Comissão Europeia de mudar
esta realidade”. “A legislação farmacêutica europeia mudou também, no sentido
de tentar criar condições para que a Europa se torne mais apelativa para o
investimento”, acrescentou.
Estamos então condenados ao domínio chinês na produção e
inovação de medicamentos? António Portela defende que, quanto a novos
medicamentos, “aquilo que vai acontecer nos próximos anos é que vamos ser
completamente ultrapassados pela China, porque o investimento que está a ser
feito ao nível da investigação e desenvolvimento é muitíssimo grande e
obviamente terá de dar os seus frutos”.
E acrescenta que, atualmente, a Europa dá condições muito
menos atrativas do que os principais competidores, EUA e China, no setor da
inovação.
António Portela soma ainda outro fator nesta complexa teia.
A Europa, argumenta, tem um modelo social que é “muitíssimo interessante do
ponto de vista do cidadão”, porque procura disponibilizar os medicamentos a
baixo custo ou sem custo para os doentes.
“Mas isso implica um modelo social com uma carga e um peso
enorme nas contas públicas e, portanto, isso tem feito com que, nos últimos
anos, o orçamento disponível para a inovação vá sendo cada vez mais apertado.
Portanto, é mais difícil aprovar a inovação na Europa, demora mais tempo e os
preços também estão mais baixos. Há uma pressão enorme sobre os preços na
Europa”, enumera.
Mas não é só da China que vem a ameaça. As empresas dos
Estados Unidos, assegura o CEO da Bial, são muitíssimo mais rentáveis do que as
empresas europeias. E, por isso, tem-se assistido a um processo de aquisições
de empresas do Velho Continente que se diluem em grandes conglomerados globais.
O Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos reconhece este
enquadramento para a Europa, mas acha “que ainda não estamos condenados”, mas
se “não reagirmos ficaremos rapidamente, estamos condenados a ser relegados
para segundo plano”.
“Neste momento a ciência europeia ainda é uma ciência de
ponta a nível internacional”, considera Mota Filipe.
E como será o futuro?
O Bastonário diz que há conhecimento na Europa e ainda há
espaço para se diferenciar, “para criar condições para se tornar num espaço
inovador novamente e fazer a diferença a nível global”.
“Não será provavelmente nas áreas onde a China, entretanto,
ganhou terreno, mas com a revolução terapêutica que está a acontecer, com toda
a inovação que está a acontecer, há espaço suficiente para que a Europa volte a
criar uma dinâmica diferente do ponto de vista da inovação farmacêutica”.
António Portela soma ainda outra dimensão em que a
competição entre blocos não se joga com armas iguais. Conta que desde que se
descobriu o genoma humano “podemos ter acesso a muitíssimo mais dados que
permitem avanços científicos impressionantes”.
Mas há uma diferença clara. No continente europeu anda-se a
discutir se “podemos utilizar os dados, se não podemos, de quem é que são os
dados, como é que se utiliza, e andamos nestas voltas”, porque, defende o líder
da Bial, a Europa “primeiro está preocupada em regular, e depois é que andamos
para a frente”.
Na China este problema não existe. E porquê? “Porque estes
dados não são das pessoas, não pertencem às pessoas, são públicos”, responde.
“Anonimizados, mas são públicos”, acrescenta.
“Imagine a diferença que é ter uma base de dados com 40
milhões de dados anonimizados da descoberta que são genética, onde as empresas
podem ir lá e podem trabalhar sobre eles. Isto é uma vantagem competitiva
enorme”, resume.
O CEO da Bial, António Portela, prognostica o futuro. Não
tem dúvidas de que a China já tem feito um trabalho de “enorme qualidade”, com
“um volume brutal” e com uma “capacidade de investimento brutal em start-ups”.
Mas acredita que é dentro de alguns anos que os resultados vão ser ainda mais
visíveis com “o lançamento de produtos inovadores à escala mundial”.
Fonte: Rádio Renascença, 9 de julho de 2026
Enquanto isto, a América constitui-se como um velho rodeado de estarolas - são bons a rezar, mas mais nada.

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