Luís Neves defende-se. "Estou empoderado, muito motivado" e "sinto-me muito apoiado"
O ministro da Administração Interna deu esta quarta-feira
oficialmente as primeiras explicações sobre os casos recentes que levantaram
dúvidas sobre o seu desempenho no cargo.
"Tomei decisões difíceis e assumi, sempre, as minhas
responsabilidades. Nunca me escondi", começou por dizer Luís Neves em
conferência de imprensa
"Nunca tive medo, não era agora", frisou,
lembrando "três décadas" de serviço ao combate ao crime.
"Associaram o meu nome ao tráfico de droga",
lembrou ainda. "São acusações de extrema gravidade, que atingem a minha honra",
acrescentou.
No encerramento da conferência de imprensa, o ministro
afirmou que nunca apresentou qualquer pedido de demissão e que se sente
"legitimado" para continuar no cargo.
"Estou empoderado, muito
motivado" para continuar a trabalhar, disse, acrescentando que
se sente "muito apoiado", não só pelo
primeiro-ministro como por quem lhe tem enviado mensagens de coragem.
"Tenho mais de 30 anos de serviço público, nunca
trabalhei para interesses particulares. Trabalhei sempre e apenas para o
Estado, para as pessoas, para o país. [...] Agi sempre na minha vida com total
independência e sentido de dever. Nunca utilizei cargos públicos para
beneficiar quem quer que fosse e rejeito qualquer insinuação nesse
sentido", defendeu Luís Neves.
"Estou completamente tranquilo", garantiu.
No centro da polémica está uma empresa contratada para
remodelar uma casa de Luís Neves, em Odemira, que tinha sido anteriormente
responsável por obras na Polícia Judiciária, quando o agora ministro era
diretor nacional das polícias.
O ministro contrariou e desmentiu
narrativas, que têm vindo a ser referidas na comunicação social,
sobre as obras feitas na propriedade que a sua família possui em Odemira,
afirmando que foram feitas "pequenas remodelações", durante "não
mais de 10 fins-de-semanas, a maior parte das vezes com
a minha própria mão-de-obra e do meu filho". "Falamos de
pequenas remodelações no interior de casas já existentes", sem nunca
alterar a integridade estrutural do edifício "nem aumentar a área
original", afirmou.
Luís Neves disse ainda que outras partes, divididas em
partilhas, foram sendo adquiridas "nos termos das minhas posses e com o
meu trabalho".
Todas as operações, referentes a duas parcelas, se
realizaram "a preços de mercado", garantiu Luís Neves, "nenhuma
a preço de saldo como maldosamente se insinuou".
O ministro acrescentou que, para isso, fez um empréstimo à
banca, que pode ser "verificado na minha declaração entregue à entidade
para a transparência, e é bom que a vejam porque ninguém lá foi ver".
"Tinha uma hipoteca de 90 000 euros na minha casa de
família que é hoje, para adquirir estes imóveis, de 315 000 euros",
revelou. "Está na declaração".
"O meu único rendimento
foi e é, do meu trabalho e da minha mulher, as obras ocorreram
apenas numa propriedade e não em várias", afirmou também, tendo as obras
"começado em novembro de 2024".
Sobre as obras do exterior, para construir um alpendre e
empedrar uma área para estacionamento, Luís Neves disse ter pensado usar
solipas dos caminhos de ferro, fora de uso, tendo-se informado sobre a forma e
local de as adquirir, "não junto de um administrador" mas numa
ocasião informal, com um trabalhador "que conheço há muitos anos".
"Ele informou-se e, passado algum tempo, as solipas
foram entregues na minha propriedade. Ao contrário do que foi alegado, não
foram oferecidas pelas Infraestruturas de Portugal", garantiu, "não
foram desviadas, não foram furtadas, nem muito menos adquiridas e transportadas
pelo senhor João Carvalho", dono da ConstruBarcelos, empresa contratada
para as obras.
As solipas "foram pagas à IP", afirmou.
O "tanque" e a ConstruBarcelos
Sobre a polémica do tanque que afinal era uma piscina, de
acordo com imagens da propriedade de Odemira captadas por drone e amplamente
difundidas, o ministro reconheceu que a
estrutura mandada construir "acabou por se transformar numa piscina média-familiar".
"Não pedi licenciamento pois eram intervenções de pouco
impacto na estrutura já existente", justificou, referindo desconhecer o
facto da propriedade se encontrar numa zona condicionada, nunca tendo sido
informado deste pormenor.
"Com humildade",
acrescentou, "já solicitei à Câmara Municipal de Odemira uma reunião com carácter
de urgência, para esclarecer e regularizar a situação que tiver de ser
regularizada", revelou, acrescentando que vai cumprir a lei com rigor.
Sobre João Carvalho, Luís Neves afirmou que, "não favoreci esta pessoa, não favoreci a sua
empresa, não recebi qualquer benefício". "Não poupei nem ganhei um
cêntimo", sublinhou. "Foi um contrato com uma pessoa que trabalha bem
e com a qual tinha confiança", explicou, garantindo ter provas
documentais.
O ministro garantiu nunca ter conhecido João Carvalho antes
de 2023, altura em que a empresa deste já tinha celebrado "11 contratos
com a Polícia Judiciária", que seguiram os procedimentos legalmente
previstos e sujeitos ao controlo, sendo "correspondentes a cerca de 70 por
cento do valor total de todos os contratos que viria a celebrar com a
instituição até 2025".
Luís Neves lembrou que a PJ contratou 232 empreitadas entre
2019 e 2025, "no valor global de 27 milhões de euros", dos quais
apenas oito por cento corresponderam aos contratos com a ConstruBarcelos.
Já entre 2024 e 2025, após o
início da "relação pessoal" entre
o agora MAI e João Carvalho, a ConstruBarcelos apenas foi contratada para
trabalhos que corresponderam a "cerca de quatro por cento das empreitadas
contratadas" pela PJ naquele período, indicou Luís Neves, tendo
"correspondido a obras complementares de contratos que já se encontravam
em execução".
"O diretor-nacional não elabora cadernos de encargos,
projetos de engenharia ou de arquitetura, não integra júris, não escolhe
concorrentes, não analisa as propostas, não responde a reclamações e não propõe
a adjudicação", lembrou Luís Neves, em relação às suas responsabilidades
no cargo, contrariando alegações de favorecimento e desmentindo que tenham
existido "atropelos à lei", mencionando os "inúmeros vistos do
Tribunal de Contas" aplicados.
Caso do atrelado foi "um ato de gestão" que
voltaria a adotar
Além do caso das obras, a 17 de julho a PJ anunciou a
abertura de um inquérito sobre um atrelado, apreendido num processo de tráfico
de droga que foi encontrado atracado a um camião da empresa contratada para as
obras na propriedade de Odemira.
Sobre o caso, Luís Neves garantiu que "não foi desviado
qualquer bem", congratulando-se com o facto de as acusações estarem a ser
alvo de inquérito criminal.
"É nessa sede que os factos serão integralmente
apurados", referiu, garantindo a colaboração "integral" com os
investigadores, "com tudo o que me venha a ser, eventualmente,
solicitado".
"Posso desde já afirmar, de forma absolutamente
inequívoca. Nunca foi desviado qualquer bem. Não foi comprometida qualquer
prova, não foi beneficiado quem quer que fosse e não há aqui qualquer ligação
ao tráfico de droga", garantiu o responsável pela Administração Interna.
"Concordei com uma forma
de armazenamento que me foi apresentada por um alto quadro da Polícia
Judiciária, cuja competência e integridade mereciam então, e continuam
a merecer, a minha total confiança", acrescentou o ministro.
Aos jornalistas, o MAI referiu que o atrelado usado para
armazenar material sensível teria de sair das instalações da Autoridade
Marítima.
O diretor financeiro, segundo Luís Neves, comentou o caso
com o construtor de Barcelos, uma vez que estava numa fiscalização de obra com
o dono da construtora, a Construbarcelos. "Esta
pessoa ofereceu-se para os
guardar [o atrelado e os bidões]". O então diretor nacional da PJ aceitou
a proposta do diretor financeiro e "o Estado deixou de pagar uma
renda".
"Não houve qualquer pagamento pelo transporte, pelo
acondicionamento, pela guarda do material em questão", assegurou.
A aceitação da forma de armazenamento foi, contudo,
"uma decisão minha e não dele", frisou, afirmando que "não havia
outra opção e que essa foi a solução "adequada" face às
circunstâncias.
"Voltaria hoje a tomar" a decisão, defendeu,
referindo que esta "foi um puro ato de boa gestão".
"Pediam 150 000 euros para destruir este
material", revelou, acrescentando que, devido à falta de verbas, era
necessário "tempo para baixar o preço desta ação".
A opção de armazenamento em armazém também iria demorar
"meses" devido ao processo burocrático, defendeu, acrescentando que
"esta foi uma decisão que poupou ao Estado
muito dinheiro" e "sempre em segurança".
Luís Neves defendeu ainda que "as insinuações [sobre o
caso do atrelado] ultrapassaram todos os limites da decência",
considerando que estão em causa "acusações de extrema gravidade.
"A verdade é forte, é sempre forte", afirmou.
"Não vejo mínimo motivo para ser constituído arguido", respondeu
depois Luís Neves, questionado pelos jornalistas.
O primeiro-ministro disse que mantém a confiança em Luís
Neves e deixou elogios ao seu trabalho. “Estou muito tranquilo e muito
confiante no trabalho do ministro da Administração Interna”, disse Luís
Montenegro na terça-feira.
Fonte: RTP, 29 de julho de 2026

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