Nobel da Economia diz que os homens “inúteis” estão a pesar nas taxas de natalidade

Margarida Corceiro

“Embora um dos principais fatores para o declínio da fertilidade seja o aumento da autonomia das mulheres, o verdadeiro obstáculo é a necessidade de os maridos e pais demonstrarem o seu compromisso”

Com as taxas de natalidade em todo o mundo a atingirem mínimos históricos, os políticos, os centros de reflexão e os intelectuais têm vindo a apresentar uma série de soluções. Pretendem fortalecer a família, alargar os créditos fiscais por filhos ou disponibilizar cuidados infantis universais e gratuitos.

Mas a economista da Universidade de Harvard e laureada com o Prémio Nobel Claudia Goldin afirma que estão a ignorar uma parte importante do problema: os pais — ou, pelo menos, os “pais irresponsáveis”.

Embora um dos principais fatores para o declínio da fertilidade seja o aumento da autonomia das mulheres, o verdadeiro obstáculo é a necessidade de os maridos e pais demonstrarem o seu compromisso antecipadamente”, escreveu Goldin num documento de trabalho para o National Bureau of Economic Research neste mês. “Quanto mais os homens conseguirem transmitir, de forma credível, que serão ‘pais’ de confiança e não ‘inúteis’ que causam desilusão”, tanto mais provável é que as mulheres com estudos tenham filhos, defende a economista.

Goldin afirmou numa entrevista que começou a investigar a fertilidade não porque acredite necessariamente que o declínio populacional seja desastroso, mas porque está preocupada com os obstáculos que impedem os homens e as mulheres que desejam ter filhos de o fazerem. O artigo, que constitui o culminar de uma investigação que apresentou pela primeira vez a economistas em Jackson Hole no ano passado, explora as decisões das mulheres sobre ter ou não filhos.

As mulheres com formação superior, argumentou Goldin, têm mais probabilidades de ter filhos se “puderem colher os benefícios financeiros e pessoais da sua formação enquanto criam os filhos”. E isso depende frequentemente de ter um parceiro de confiança.

Ao decidir se querem ter um filho, escreveu Goldin, as mulheres com formação superior calculam o custo da sua educação, o benefício de ter um filho e o impacte negativo que isso terá nos seus rendimentos profissionais, comparando-os com os rendimentos que teriam se não tivessem um filho. No modelo, o impacto negativo na carreira das mulheres é diretamente afetado pela provável “confiabilidade” do seu parceiro masculino — uma forma abreviada de referir a sua disponibilidade para se envolver na educação dos filhos. É importante referir que Goldin parte do princípio de que as mulheres não podem saber se o seu parceiro será de confiança ou não até terem efetivamente um filho com ele, pelo que se baseiam nas expectativas da sociedade.

No seu modelo, as mulheres com formação académica têm mais tendência a optar pela maternidade quando consideram que o seu parceiro irá partilhar as responsabilidades familiares. Por outras palavras, quando não se pode esperar que os homens assumam as tarefas domésticas, não vale a pena ter um filho. (No modelo, a fiabilidade esperada de um pai não afeta as mulheres que não frequentam o ensino superior.)

Divergências globais

Países que registaram um rápido crescimento económico, como o Japão, a Itália e a Grécia, tiveram quedas relativamente acentuadas na fertilidade, escreveu Goldin, porque, apesar de as mulheres terem obtido mais educação e oportunidades de emprego, continuava a esperar-se que fossem elas a assumir a maior parte das tarefas domésticas. Isso tornou mais difícil para elas criarem filhos e contribuiu para a redução das taxas de natalidade.

Estes países “não tiveram tempo suficiente para que as gerações ajustassem as suas tradições”, incluindo os papéis de género no lar, escreveu. Isso contrasta com a Suécia, a Alemanha e os EUA, onde o crescimento económico se desenrolou de forma mais gradual, afirmou.

A correlação entre a fertilidade “e a diferença de género nas horas dedicadas às tarefas domésticas e aos cuidados é forte”, concluiu ela.

Além disso, a introdução de políticas que visam ressuscitar as estruturas de poder familiares tradicionais “pode sair pela culatra e produzir taxas de natalidade ainda mais baixas”, afirmou a investigadora. Se os homens esperarem que as suas parceiras assumam a maior parte das responsabilidades domésticas, as mulheres não vão querer ter filhos com eles.

Demasiado simplista?

A sua tese não está isenta de críticas.

“Apesar de, como Goldin demonstra, os homens modernos apoiarem mais do que nunca as carreiras das mulheres, a fertilidade e o casamento estão nos níveis mais baixos de sempre”, escreveu Lyman Stone, diretor da Iniciativa Pronatalista do Instituto de Estudos da Família, num email. Os modelos que tentam demonstrar relações entre a igualdade de género e a fertilidade “falham continuamente na previsão da realidade”, acrescentou.

Richard Reeves, presidente do Instituto Americano para Rapazes e Homens, manifestou a sua preocupação de que a definição de “confiabilidade” de Goldin seja demasiado simplista.

“Preocupa-me que passemos de uma definição muito restrita do que significa ser uma espécie de ‘pai de confiança’ — que é ‘posso contar contigo para seres o sustento da família’ — para outra definição, que é a de um feminista totalmente comprometido com a igualdade de género”, afirmou Reeves. Isto não teria em conta as preferências dos pais nem os casais que, ao longo do tempo, alternam os papéis de sustento da família e de cuidador.

Embora Goldin tenha afirmado que a sua definição de “confiabilidade” pode abranger alguma variação, as escolhas de aceitar cargos menos bem remunerados para assumir temporariamente mais cuidados domésticos têm frequentemente consequências a longo prazo que minimizam o retorno do investimento na educação. Se as mulheres “aceitarem o cargo de advogada a tempo parcial e os homens o cargo de advogado a tempo inteiro, quando tiverem 45 anos, um deles será sócio e o outro não será nada”, acrescentou.

No entanto, Reeves aponta para mudanças muito recentes no comportamento de educação dos filhos entre os homens norte-americanos com formação superior que poderão pôr à prova a análise de Goldin a curto prazo.

Entre o período de três anos que terminou em 2019 e o período de três anos que findou em 2024, os pais com formação superior aumentaram o tempo dedicado às tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos em 4,4 horas por semana, muitas vezes abdicando de trabalho remunerado para o fazer, segundo um estudo do seu instituto. Embora as mães jovens com formação superior ainda realizem mais 12,7 horas por semana desse trabalho não remunerado do que os pais, esta mudança reduziu essa diferença em 26%. Trata-se de uma mudança que Reeves classificou como “dramática”.

“Se ela [Claudia Goldin] estiver certa, assistiremos a um aumento da fertilidade entre os casais com formação superior nos Estados Unidos?”, questionou-se Reeves. “Provavelmente saberemos com certeza dentro de cinco a dez anos.”

Fonte: Público, 21 de julho de 2026

O centro da questão é que as mulheres com formação superior não são bonitas nem sexualmente atrativas e somente engravidam numa noite de borracheira, em que as cuecas caem ao torpor do álcool.

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